Manoel Onofre Júnior, “Simplesmente humanos” (2019, Sebo Vermelho, 110 p.)

Publicação: 2019-11-13 00:00:00
Alexandre Alves, Doutor em Literatura e professor da UERN
alexandrealvesuern@gmail.com

Em segunda edição, o experiente ensaísta traz 23 textos breves sobre personalidades potiguares. O autor preferiu agrupar ensaios sobre pessoas com as quais ele teve contato mais direto, dando ao livro um toque de leveza, autenticidade e várias descobertas. Lembrando o estilo de Câmara Cascudo em sua série “O livro das velhas figuras”, entre os personagens circulam nomes como o escritor Sanderson Negreiros, o saudoso Carlos Lima – figura vital na editoria de livros potiguares nos anos de 1980 – e uma das hilárias estórias do escritor/pintor Newton Navarro (certa vez, ele foi acordar Cascudo com uma serenata às sete da manhã!). Conhecidos nas rodas culturais e anônimos na massa potiguar, figuras recentemente falecidas como o cinéfilo Palocha e o polêmico livreiro Luiz Damasceno (“Luiz, o sarcasta”) adentram a obra ao lado dos renomados Diógenes da Cunha Lima (“A lanterna de Diógenes”) e Zila Mamede. No enredo de “Zila e eu” há episódios entre trágicos e cômicos. Por volta de 1960, trabalhando ainda jovem como auxiliar de bibliotecário ao lado da poetisa, houve a entrega de poema escrito por Onofre Júnior para a autora de “O arado”. Ela leu o poema, “fez um reparo em uma palavra” e o devolveu ao pretendente poeta. Em outra revelação inédita, Zila relatou que na publicação do poema “O galo do Convento Santo Antônio” em um jornal retiraram a dedicatória do texto. Era para Djalma Maranhão, figura política icônica no RN. Eram os anos de chumbo, período simplesmente desumano, que não esperemos que voltem.

Rubem Fonseca, “Carne crua” (2018, Nova Fronteira, 144 p.)
Sempre jogando para sua já vasta torcida, o quase centenário escritor carioca vem com 26 novos textos repletos daquilo que o crítico literário Alfredo Bosi chamou certa vez de “realismo brutal”. Após quase duas dezenas de obras com seus contos, difícil seria esperar algo distinto do temário consagrado do autor: violência (muita), traições (várias), sexo (a rodo) e desencontros pessoais (diversos). A certa altura, o autor parece retratar a infame falta de racionalidade da sociedade brasileira safra novo milênio. No curto enredo de “Noel”, a certa altura, o narrador dispara: “uma pessoa que não conhece o Noel Rosa merece morrer”. Em outra estória naturalizando o cenário violento citadino, o policial justiceiro de “Cafetões” espalha sangue e frieza na narrativa em primeira pessoa de fazer programas policiais         televisivos parecerem contos da fada. O serial killer de cães e gatos do conto título segue linhagem similar, aliás, fingindo contemporaneidade, o autor montou o enredo – que novidade... – em parágrafo único. A decadente estória do ex-contabilista que virou assaltante à mão armada em “Gosto de ver o mar” ironiza a falta de oportunidades e de caráter pessoal na cidade grande. E só. Em tempo, Rubem Fonseca resolveu escrever três textos – todos puramente esquecíveis – em forma de poema, na verdade, parecem mais brevíssimos contos inacabados (seria cansaço ou ironia sobre a poesia a uma altura dessas da idade?). Em suma: adquira “O cobrador” (1979), com Fonseca a pleno vapor e bem passado.