Música, poesia e grandes parcerias na mesa de bar

Publicação: 2019-05-03 00:00:00 | Comentários: 0
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Por Ramon Ribeiro
Repórter

Em São José dos Campos, São Paulo, em meados dos anos 70, existia um boteco de poucos fregueses, simples, mas bastante acolhedor, o Bar do Pedro. Em suas mesas, entre cervejas e violões, surgiu muita música boa, muita poesia, melodia, parcerias. Dentre a turma que pintava no lugar vez por outra estava o Pessoal do Ceará - que a essa altura já despontava nacionalmente.

Show e recital celebram este encontro entre o jornalista e compositor Roberto Homem, que lançará o CD Mudança, na companhia do poeta e letrista Climérico Ferreira e o editor Abimael Silva, responsável pela publicação do poeta piauiense
Show e recital celebram este encontro entre o jornalista e compositor Roberto Homem, que lançará o CD Mudança, na companhia do poeta e letrista Climérico Ferreira e o editor Abimael Silva, responsável pela publicação do poeta piauiense

No centro dessa rapaziada estava Climério Ferreira, poeta piauiense, o cara que descobriu o bar e que lá costumava passar suas noites solitárias numa mesa de canto escrevendo versos. Coube a Climério deixar imortalizado o nome do bar e a atmosfera criativa daqueles encontros. O registro se deu com a publicação de “Memórias do Bar do Pedro & Outras Canções”, livro de poemas, o primeiro do autor, lançado em 1975, em São Paulo. Agora, mais de 40 anos depois, a obra há muito esgotada ganha uma reedição fac-simile por iniciativa de Abimael Silva do Sebo Vermelho. O lançamento acontece nesta sexta-feira (3), a partir das 19h, no Bardallos Comida e Arte (Cidade Alta), com a presença de Climério.

“Fiquei muito feliz com o interesse do Abimael. Esse foi meu primeiro livro, feito naquele espírito dos anos 70, inspirado na geração mimeógrafo. É um livro que virou canções. E a maior desses poemas eu fiz no Bar do Pedro mesmo, como 'Estaca Zero', 'São Piauí'”, conta o autor, recém-chegado à cidade e a minutos antes de atacar uma carne de sol completa.

Climério é compositor de sucessos como “Enquanto engomo a calça” (com Ednardo), “Conflito” (com Petrúcio Maia e imortalizada na voz de Fagner) e “Riso cristalino” (com Dominguinhos). Ao lado dos irmãos Clodo e Clésio, também gravou discos e compôs pra lá de 100 canções, municiando grandes intérpretes da música brasileira, como Elba Ramalho, Amelinha, Fernanda Takai e Nara Leão. Nara, inclusive, homenageou os irmãos Ferreira no disco “Romance Popular” (1981), com a música “Cli-Clê-Clô”, composta em parceria com os cearenses Fausto Nilo e Fagner.

Com mais de 10 livros em sua bibliografia, hoje Climério, que mora em Brasília há anos, se vê mais poeta que letrista, embora alguns ainda enxerguem o contrário. “Já me preocupei com isso, de me terem só como letrista e não poeta. Já cheguei a fazer livros só de poemas pequenos que era para ninguém musicar. Mas a Fernanda Takai foi lá e juntou uns versos e musicou. Tudo bem, fiquei foi feliz, porque a música ficou bonito pra caramba, com arranjo lindo do John Ulhoa”, comenta, se referindo a “Quase Desatento”, gravada pela cantora no disco “Na Medida do Impossível” (2014).

Dentre as composições favoritas de Climério estão “Riso Cristalino”, “Chega Morena” e “Flora”, as três parcerias com o cantor e sanfoneiro Dominguinhos, falecido em 2013. “'Riso cristalino' fez muito sucesso, foi muito regravada. Dominguinhos foi meu maior parceiro e grande amigo. É com quem tenho mais músicas”, afirma. Climério também lembra de uma curiosa história de que ele, Dominguinhos e Ednardo chegavam a apostar para ver quem compunha mais num determinado mês. “É o Ednardo que conta essa história. Acho que que a gente já chegou a fazer 30 músicas num mês, nem lembro. Muitas coisas nunca foram gravadas”.

Climério diz não estar muito atento ao que às novas gerações de poetas e compositores estão produzindo. De parceria com novos artistas, ele cita Túlio Borges, de Brasília, e Mestrinho, de Sergipe, não por acaso, sanfoneiro como Dominguinhos. “Gosto desse lado nordestino. Adoro sanfona e São João”, comenta o poeta, sinalizando que apesar de ter saído jovem do Piauí, o Piauí nunca saiu dele.  

O autor nunca esteve em Natal, apenas na praia de Pirangi, numa visita rápida a um amigo professor. Mas ele contou ter parceiros musicais na cidade, Mirabô, Babal e Yrahn Barreto, parcerias que surgiram na internet, em cima dos poemas que Climério publica diariamente nas redes sociais. “Vou poder conhecê-los agora”.

Show e recital
O lançamento do livro de Climério Ferreira no Bardallos também será marcado pelo lançamento do disco “Mudança”, do jornalista e compositor potiguar Roberto Homem. O CD reúne composições de Roberto em parceria com Babal, William Guedes, Antonio Ronaldo, Alexandre Siqueira, Caô Costa, Franklin Mario, Antoanete Madureira e Almir Ribeiro. Um time de cantores e músicos vai interpretar as canções ao vivo na ocasião. E quem quiser declamar poemas, o microfone estará aberto durante a sessão de autógrafos.

Serviço
Lançamento do livro “Memórias do Bar do Pedro & Outras Canções”, de Climério Ferreira

Dia 3 de maio, às 19h

Bardallos Comida e Arte (R. Gonçalves Lêdo, 678, Cidade Alta)

Preço do livro: R$ 40.

Turismo etílico
Bares: na Europa, fecham cedo

no Rio, barulhentos

em São Paulo, silenciosos

em Brasília, escondidos

em Fortaleza, acadêmicos

na Bahia, folclóricos

em Teresina, calorentos

nas pequenas cidades, têm sinucas

Não existe bar sem poetas

ou policiais pedindo documentos

ou alguém pedindo fósforo

ou tocando violão

ou chorando sem lágrimas

o que eu gosto nos bares

é a democracia da dor e tangos de David Nasser










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