Músico compartilha sopa vegana e ideias com moradores de rua

Publicação: 2019-09-22 00:00:00 | Comentários: 0
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Tadzio França
Repórter

O estilo de vida vegano, com sua alimentação baseada estritamente em vegetais e descarte da exploração animal, foi algo que passou a fazer sentido para Charliê Xavier Santos num momento especialmente difícil de sua vida, em 2012. Esse movimento baseado em saúde, leveza e ideologia o ajudou a superar o problema com drogas e lhe deu uma nova perspectiva de vida. A partir daí chegou um momento em que resolveu compartilhar o que aprendeu: há quase dois anos ele serve uma saborosa sopa vegana para moradores de rua da capital potiguar. Um ato que entrega saúde e solidariedade.

O projeto da sopa vegana nas ruas começou em fevereiro de 2018, mas o processo que o levou a isso começou seis anos antes. “Me conectei com o veganismo através do movimento  straight edge, uma subcultura punk que defende um estilo de vida sem drogas e sexo promíscuo. Conheci uns brothers que tocavam um rock doidão e não usavam nada, e aquilo me fascinou”, conta o natalense de 31 anos, filho de pai baiano e mãe potiguar.
Charliê Xavier Santos encontrou saúde, leveza e ideologia através do veganismo
Charliê Xavier Santos encontrou saúde, leveza e ideologia através do veganismo

Ao se  aprofundar no movimento descobriu a ligação com o vegetarianismo e veganismo, e resolveu mudar radicalmente. “Decidi que ia deixar de ser carnívoro e virar vegano. Parei com tudo que fazia antes”, diz. O novo estilo de vida de Charliê entrou oficialmente em sua cozinha a partir de 2017. Como um autêntico cozinheiro autodidata, movido por curiosidade e paixão, resolveu produzir quitutes veganos para vender.

“Sou um cara emocional, movido por paixão, o que sempre me motiva a aprender algo. Ao lado disso teve a necessidade. Não rolava emprego, e eu tive que aprender a me manter trabalhando com comida vegana”, ressalta. A iniciativa se tornou a Feijuca Vegan, que ele abriu na própria casa e deu início aos projetos que vieram depois.

Hora da sopa


No começo de 2018, já trabalhando há um ano com culinária vegana, Charliê passou a refletir sobre  formas de levar sua atividade para outros patamares. “Estava refletindo sobre como criar expectativas em outras pessoas às vezes é frustrante, e ficar em casa reclamando de barriga cheia é uma coisa inútil. E eu queria ser útil. Enquanto isso tem gente na rua passando fome e frio. Tive uma decepção num dia e no outro já resolvi fazer minha sopa vegana para o povo da rua. Foi assim que começou”, conta.

Na primeira distribuição Charliê levou a sopa numa panela de pressão, sozinho e de bicicleta. Hoje, o preparo da sopa já conta com mais apoio. Todas as quintas-feiras, o preparo começa às 14h, na cozinha de casa. Às 17h já está tudo pronto, e às 19h a turma sai para entregar. Os pontos variam entre a Praça Augusto Severo, o albergue ocupado na Rua Câmara Cascudo, ambos na Ribeira, e o antigo prédio do INSS, nas Rocas. “Toda quinta a gente faz essa sopa, com ou sem chuva”, afirma.

A sopa costuma agradar bastante ao paladar – seja vegano ou não. Charliê conta que os ingredientes são basicamente grãos e leguminosos: lentilha, grão de bico, coco seco, abóbora, chuchu, batatinha, ervilha, e o macarrão. “Tem ainda o nosso molho exclusivo, que é o segredo da receita, onde uso variadas especiarias”, ressalta. Sempre que a equipe voluntária de Charliê termina o preparo, a sopa é degustada, com aprovação geral. Hoje a distribuição conta eventualmente com o auxílio de um veículo, serviço voluntário, e doação de insumos para o preparo.

“Mas não tem osso, não?”

Muitos ainda vêem o veganismo com reservas. Não seria diferente com a população de rua. “Claro que nos primeiros contatos rolava um estranhamento. 'Como assim não tem carne?' 'O que é isso?' Então a gente explica o que é o veganismo, como ele funciona, e o que tem na sopa. Hoje em dia a galera já saca melhor a proposta, eles mesmos explicam uns para os outros. Considero que a gente já quebrou essa barreira. De vez em quando alguém ainda diz 'Mas não tem um osso, não?', e o posso explica que não pode”, relata. Outro ponto é que o sabor da sopa. “É uma sopa rica em nutrientes, tudo que uma pessoa precisa tem nela. E é saborosa. O pessoal elogia muito e fica perguntando sobre o tempero, o que tem no molho dessa sopa que é tão bom”, diz.

Charliê acredita que a troca de ideias sobre veganismo com uma parcela mais humilde da população ajuda a quebrar preconceitos e estereótipos acerca do movimento. “Passam uma ideia de que precisa ser rico pra ser vegano. Como se o movimento fosse totalmente elitizado. Eu tiro por mim: sou preto e pobre, e vivo disso há anos. Estou sempre buscando aprender e procurando compartilhar o que aprendo. Eu vejo o veganismo como isso também, uma forma de dividir o que você tem de bom com as pessoas. Quero mostrar que é possível viver bem sem comer nada de origem animal”, explica.

Quitutes veganos


A produção vegana de Charliê para consumo comercial também costuma render elogios. Ele trabalha com marmitas veganas às terças-feiras, vende pratos congelados, pode ser contratado para cozinhar em eventos de confraternização, e costuma aparecer em lugares abertos para vender seus quitutes prontos. É comum esbarrar com ele às quintas-feiras na Cidade Alta, na noite mais badalada do Beco da Lama, ou em festas na rua Chile, na Ribeira, ou na porta de bares como o El Rock. “Boa parte da minha clientela é de gente jovem, que entende o veganismo, e cola em lugares como esses. É onde está meu público”, diz.

No cardápio de rua de Charliê tem acarajé, falafel, kibe, hot dog, sanduíche, e um dos favoritos da clientela, o bolinho feijuca. Ele explica que esse bolinho é feito a partir da feijoada vegana, com brócolis, abóbora, coco seco, farinha de mandioca, e recheio de queijo vegetal, couve refogada, alho poró e vinagrete, com fritura no dendê. Outra iguaria que faz sucesso é o sanduíche “alquimia apaixonante”, feito de pão integral, hambúrguer de feijão branco lentilhado, maionese de abacate, crispy de cenoura, alface crespa, e o molho especial da casa.

Charliê afirma que boa parte de suas receitas surgem no “feeling”, já que ele não é cozinheiro profissional e nunca fez curso para tal. “Eu sempre procuro aprender algo de acordo com o que estou sentindo. E pra mim a cozinha é arte, uma forma de  expressar as coisas que eu acredito”, diz. Ela ressalta que a cozinha é a parte da casa na qual mais passa o tempo. “O lance da cozinha pra mim é descoberta. Gosto de brincar com os sabores, sou pirado em fazer coisas agridoces”, diz.

O cozinheiro percebe que o veganismo tem sido mais aceito hoje em dia, mesmo que na maioria das vezes desprovido de sua ideologia original. “Tem muita gente indo para o veganismo mais pela questão fit e não se liga na conceito anti exploração animal do movimento, mas eu vejo isso de boa. Acredito que seja um bom começo, um possível caminho para o veganismo real. Tudo é um aprendizado”, afirma.

Nas horas vagas Charliê também faz música. Canta e toca guitarra na banda Chancho, adepta do noise, grind e death. Uma banda de “rock doido”, como aquelas que o levou até o veganismo. “É aquele som que mal se entendo o que o vocalista canta, mas que por trás tem letras que abordam assuntos sérios. Mas música pra mim não precisa ser perfeitinha. Se ela expressar o que você sente, isso vai te fazer bem e é isso o que vale”, conclui. Mais informações pelo 98761-2790/99806-2841. No Instagram: @chancho_oficial



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