Marcelo Alecrim, da ALE Combustíveis: 'Podemos usar a criatividade e nos reinventar'

Publicação: 2020-03-29 00:00:00
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Ricardo Araújo
Editor de Economia

Atuando há mais de 30 anos no mercado empresarial, Marcelo Alecrim já superou inúmeras crises econômicas e políticas no Brasil mas nunca viu, conforme relata a seguir, uma de tamanha gravidade como a que está em curso, provocada pelo coronavírus. O empresário potiguar destaca que o momento é de união de esforços e acredita que o país sairá dessa com uma nova oportunidade de crescimento. O caminho, porém, deverá ser longo.

Créditos: Douglas LuccenaSerenidade, humildade e resiliência são peças-chave, segundo o empresário potiguar, para  abrir as portas da retomada do crescimento econômicoSerenidade, humildade e resiliência são peças-chave, segundo o empresário potiguar, para abrir as portas da retomada do crescimento econômico

“Mas, com certeza não vai faltar ao povo brasileiro empreendedorismo, inteligência em todos os setores”, ressalta Marcelo Alecrim. Na entrevista a seguir, ele detalha esses e outros assuntos, incluindo a questão da queda no valor do barril de petróleo no mercado internacional e os reflexos disso na economia nacional. Acompanhe.

Como o senhor avalia a situação nacional atual com o comércio fechado, fábricas com férias coletivas não programadas e hotéis suspendendo atividades?
O Brasil foi surpreendido com esta crise mundial. Estávamos decolando, voltando forte com atividades econômicas, juros baixos e o mundo já olhava para o País apostando na sua aceleração. Um problema de ordem sanitária nesta magnitude abala qualquer estrutura. Isso ocorre dentro de nossas famílias, quando temos algum problema sério de saúde e nas empresas. Nossa prioridade é tratar, cuidar para salvar vida. Por outro lado, a parte de pagamentos resolvemos com um plano de recuperação financeira. O próprio governo está apresentando planos para apoiar o sistema produtivo, particularmente as micro, pequenas e médias empresas. Cabe entendermos a Covid-19 como sendo um problema de saúde de ordem social/familiar como gostaríamos de ser tratados. Não tem duplo remédio, mas um único: recuperar a saúde e, da mesma forma, redesenhar a economia para voltarmos ao normal. Portanto, urge trabalhar nas duas pontas - a saúde das pessoas e a saúde das empresas.

De que maneira será possível reverter esse cenário tão negativo?
Na realidade, o povo e o empresário brasileiro sobreviverão.  Temos que arranjar soluções como já fizemos em diversas outras ocasiões e enfrentar problemas de hoje como outros que surgiram no passado. Importa, isso sim, ter bom senso para vencermos a pandemia, na verdade, a maior catástrofe do nosso século, e outros colapsos que se apresentem no nosso mundo globalizado.  Precisamos usar a criatividade e nos reinventar constantemente. O mundo, hoje, é totalmente diferente de poucos anos atrás. Mas, com certeza não vai faltar ao povo brasileiro empreendedorismo, inteligência em todos os setores - médico, científico e econômico, para sermos mais práticos e, com serenidade, honestidade, humildade, resiliência, reconstruirmos um país coerente com a nova cultura que se instalará no pós-crise. O Brasil é um país onde temos de um tudo.  O prato do brasileiro é todo feito aqui. Temos abundância de terra, sol, petróleo, minérios, dentre tantas outras riquezas naturais. Há sim necessidade das importações, como de medicamentos e tecnologia, mas esses são campos nos quais também temos avançado.

Como o coronavírus impactou o setor de venda de combustíveis no Brasil? Há risco de queda neste ano?
 No momento, a queda de venda de combustíveis no país está em 50%. Fato natural, diante das atitudes tomadas para restringir o avanço do doença. O Brasil e o mundo se retraíram. O combustível é um termômetro do desenvolvimento. Por outro lado, a guerra entre Arábia e a Rússia pelo mercado de petróleo, ocasionou a baixa do combustível. A gasolina, na equiparação, é a mais barata em 100 anos.
                                                                                                                                                                                   
Por quais razões a disputa entre a Arábia Saudita e a Rússia é negativa para o mercado de exploração do petróleo? Quais são os impactos dessa disputa no Brasil?
A maior riqueza do Brasil são as jazidas de petróleo já descobertas no pré-sal e aquelas que ainda podem ser. A queda do valor do barril de Petróleo de U$ 60  para  U$ 22  representa uma perda significativa para o país. Alguns Estados produtores como o Rio Grande do Norte, Rio de Janeiro e Espírito Santo terão queda nos royalties e vão sofrer com a situação. Porém, independente do momento mundial, com a disputa acirrada de market share entre sauditas e russos,  já tínhamos convicção da mudança da era do petróleo para a era dos biocombustíveis. Para o Brasil, a saída é adaptação às mudanças.

Como o senhor avalia a flexibilização das relações de trabalho determinadas pelo governo federal recentemente?
Acredito que, de acordo com a evolução econômica que vínhamos apresentando, o governo possui créditos e reservas financeiras para atuar nos dois setores. Porém, na minha visão, temos apenas um único problema para ser solucionado em duas frentes e, para isso, apesar de algumas falas não muito bem sucedidas do presidente, temos um governo com ministérios muito bem preparados e com total autonomia para adotar medidas práticas, técnicas e não radicais. O vírus, no momento, deve ser colocado em primeiro lugar, pois, a vida de cada um é valiosa. Entretanto, o brasileiro é um grande empreendedor e o desemprego é algo frustrante. O governo deve atuar na economia, incentivando os negócios e o empreendedorismo como forma não enfraquecermos no pós-crise. Em 2020, poderemos ter um PIB negativo. Mas 2021 tende a ser um ano de boa recuperação.

O senhor acredita que elas serão suficientes para reacender a chama da economia brasileira? Quais outros gargalos precisam ser superados a partir de agora?
Aprendemos que tem de haver união. O mundo inteiro pede união, integração de esforços. Temos que ter planejamento e, acima de tudo, as coisas devem ser resolvidas rapidamente.  Não dá para esperar e nem ficar despreparados para a falta de agilidade dos comitês de crise. Não adianta apenas diagnósticos, mas sim soluções. O contribuinte é o chefe. Isso mostra que o povo é quem está acima de tudo.  Cabe aos representantes da população, enquanto liderança representativa, mediar soluções e respostas plausíveis para o enfrentamento da crise. E o Estado deve prover as necessidades dos mais carentes e dos setores mais abalados com a pandemia.

Quais lições o país, a equipe econômica do governo federal pode tirar desse momento adverso? É chegada a hora de implantar a reforma tributária, por exemplo?
Todo momento de crise é ideal para  fazer o dever de casa: pensar em novas situações, planos A e B, em estratégias, respostas e soluções. Acredito que, quando tudo isso passar, o país vai sair mais maduro, com uma nova cultura, diferenciada e mais forte em nosso cotidiano. Não sei se haverá clima de tranquilidade para debater e aprovar um projeto arrojado de reforma tributária. Mas o tema certamente estará na pauta do Congresso nos próximos tempos. Já tínhamos a consciência de nossos problemas sanitários, hospitais lotados,  mas, infelizmente, foi preciso uma crise dessa magnitude na saúde para colocar milhões de brasileiros em estado de risco, para nos alertar e entendermos a dimensão e urgência do problema. Temos que intensificar ainda mais as áreas nas quais somos bons, produção de alimentos e proteínas, por exemplo, mas também cuidar de áreas ainda deficientes como educação, a própria saúde, tecnologia e, claro, colocar em prática as reformas necessárias para que o país possa competir e se resguardar das concorrências mundiais. Ou seja, precisamos desenvolver a capacidade para nos proteger das influências externas e avançar no sentido de não tornarmos um país dependente disso. A Covid-19 foi, de fato, um abalo para todos os países. Creio que se tivesse ocorrido um evento tão danoso como uma guerra envolvendo grandes nações, com certeza alguns países não sentiriam tanto quanto agora, uma vez que estão há anos investindo e se preparando para tanto. Essa guerra pandêmica é um dos mais imponderáveis acontecimentos de toda a história da humanidade.

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