Marcelo Passos, da ANORC: "Os negócios devem fazer girar R$ 60 milhões"

Publicação: 2019-09-22 00:00:00 | Comentários: 0
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A 57ª edição da Exposição de Animais, Máquinas e Equipamentos Agrícolas, conhecida popularmente como Festa do Boi, a maior e mais tradicional feira agropecuária do Rio Grande do Norte acontecerá de 12 e 19 de outubro no Parque Aristófanes Fernandes, em Parnamirim. A abertura oficial acontece no dia 12 de outubro, às 17h. Serão mais de 350 expositores, três mil animais Puros de Origem (PO) oriundos do Rio Grande do Norte e de Estados de todo o Nordeste.

A exposição tem participação direta das secretarias estaduais da Agricultura e Pecuária, Desenvolvimento Rural e Agricultura Familiar, Emater, Idiarn, Emparn, Secretaria de Gestão de Projetos, através do programa Governo Cidadão (recursos do empréstimo ao Banco Mundial) e Agência de Fomento do RN (AGN), Prefeitura de Parnamirim, Banco do Brasil, Banco do Nordeste do Brasil, Senar, Fecomércio, Fiern e Sebrae.
A Festa do Boi 2019, que começará no dia 12 outubro, trará novidades na programação com leilões, financiamentos e programação social diversa
A Festa do Boi 2019, que começará no dia 12 outubro, trará novidades na programação com leilões, financiamentos e programação social diversa

Na entrevista a seguir, o presidente da Anorc/RN, Marcelo Passos, detalha a expectativa em torno de mais uma festa, quantos milhões deverão circular em negócios e antecipa parte da programação social do evento. No que tange à parte econômica, ele destaca que é preciso ampliar o acesso do homem do campo aos financiamentos bancários, principal impeditivo do aumento da produção agropecuária no Rio Grande do Norte.    

Quais são suas expectativas para a Festa do Boi deste ano?
Não terá um novo ciclo de desenvolvimento econômico no Estado do Rio Grande do Norte se não tiver um novo olhar junto ao produtor rural. A expectativa da gente é sempre muito satisfatória e, neste ano, é maior em função da quebra de um ciclo de quase uma década de grandes secas. Como nós estamos encravados no semiárido, isso nos dá um combustível novo.

Ao longo da feira, quando deverá girar em termos de negócios, de financimentos?

A gente acredita que, com os leilões que estão em curso e que são consolidados ao longo da festa, os negócios dentro da festa devem fazer girar R$ 60 milhões e um público estimado de 300 mil pessoas durante o evento. Neste ano, a gente continua com parceiros como a Prefeitura de Parnamirim que irá instalar um espaço chamado 'Vila Parnamirim'; nós temos o Sebrae/RN com a 'Plataforma Terroir' e nós temos duas equações política: uma Sessão Solene da Assembleia Legislativa em comemoração aos 60 Anos de atividades, de representação e nós teremos, de maneira inédita, uma reunião da Frente Parlamentar da Agropecuária. Isso vai fazer com que a gente catalise uma ideia que nós temos que é um novo plano de investimento para o Nordeste. O Nordeste do agronegócio não é um Nordeste da soja, não o Nordeste do milho. Nós precisamos ser tratados de maneira diferente, sem anistia, mas com créditos diferenciados. Com menor taxas de juros e maior prazo para pagamento. Então, essa frente parlamentar inédita que irá se instalar no Parque Aristófanes Fernandes, é algo que poderá trazer consquências e efeitos colaterais de muito positivismo.

E em relação à parte social da festa, o que foi programado?

Na Arena de Shows, a gente montou dois eventos retrôs. São dois forrós das antigas, nos dias 12 de outubro e 19 de outubro, com ingressos mais baratos. Nós optamos por fazer um forró raiz com Beto Barbosa, Eliane, Walquíria Santos e Conde do Forró num dia e no outro, Mastruz com Leite, Cavalo de Pau, Magníficos e Limão com Mel com tarifas populares, muito competitivas que variam de R$ 20 a R$ 40 o ingresso. Então, a gente acredita que será muito bom para nosso público-alvo.

O senhor falou em prazos, financiamentos, tarifas. Quais são hoje os maiores gargalos para o homem do campo acessar linhas de crédito?

O crédito é o mais perverso de todos. É difícil demais acessar o crédito. Há tecnologia, mas não há crédito. Daí não se aplica a tecnologia, pois não há dinheiro. Então, o crédito é difícil demais. A gente ficou num hiato. Tem a turma do Pronaf, que tem acesso mais livre, que são pequenos créditos. E tem os gigantes, que são poucos, são raros, mas existem. Milhões de produtores rurais tem dificuldades de acessar o crédito. Esses produtores estão tentando fazer o enfrentamento dessa dificuldade para que esse crédito, chamado de Plano Safra do Nordeste, seja diferente do Plano Safra das outras regiões do Brasil. Nós estamos encravados num lugar seco. Aqui, os bancos não financiam plantações de feijão, de milho, pois sabem que não vai dar certo. Mas, se for para o Centro-Oeste, há financiamento para milho, feijão, soja.

O financiamento, aqui no RN, se concentra em quais setores?

No custeio, na compra de ração, para casos muito pequenos.  E é difícil. Se o proprietário rural pleitear financiamento para outra coisa, terá dificuldade. O banco diz que não dá.

Em relação ao apoio governamental para o homem do campo, para o produtor rural do Rio Grande do Norte, como está?

Eu não gosto dessa coisa de apoio governamental. Não gosto. Eu gosto quando o Governo do Estado se propõe a fazer tratativas numa carta desenvolvimentista. Por exemplo: a gente conseguiu fazer isso na metade do governo Robinson Faria e agora no começo do governo da Professora Fátima Bezerra. Em meados do governo Robinson Faria (ex-governador) com as tratativas em torno da lei do queijo artesanal, que vai permitir que as queijeiras se regulamentem de maneira modesta, e em relação à isenção do ICMS da carne, que é um mercado gigante e que foi adotado de uma cegueira enorme nossa. Nós temos um mercado consumidor que vai quase a R$ 1 bilhão de carne negociada ao ano e a nossa rede abatedora faliu. Quando se quer abater um bovino hoje, não tem onde, não tem um local certificado. E essa isenção do ICMS teve como primeiro efeito consolidar um novo abatedouro em Ceará-Mirim numa Parceria Público Privada (PPP) com o Governo do Estado, onde se reiniciará o abate doméstico de bovinos permitindo uma retomada dessa cadeia gigante que estava falida no Estado. Então, essas tratativas de desenvolvimento é o que eu acho que faz a diferença, entre outras que estamos propondo, como a do crédito.

Como os bancos estão reagindo a essa proposta?

O problema não é o banco financiador. O problema é o Banco Central, é a política do Banco Central, que tem que editar medidas que os bancos possam, principalmente os públicos, possam operar. Por mais que os bancos queiram, as normas hoje são impeditivas. Então, essa Frente Parlamentar do Agronegócio que será aqui instalada, tem como objetivo, entre outros, reivindicar isso.

O senhor falou que estamos saindo de uma década de seca. Quais são os maiores prejuízos acumulados ao longo desses 10 anos na agropecuária do Rio Grande do Norte?

A falência de 18 mil propriedades no Estado. Elas estão sem produzir. Nós temos outro problema grave no Estado do Rio Grande do Norte. O Estado está se 'clandestinizando'. Agora mesmo, um abatedouro de ovinos e caprinos na região Central fechou porque não conseguiu viver com o abate clandestino. Essa é outra grande discussão contemporânea que a gente vai ter que enfrentar.

Houve algum avanço nesse período?

Sim, muitos. A lei geral do queijo e do mel, a questão do ICMS e a isenção dele no abate doméstico, que terá reflexos em curto, médio e longo prazo. Essas tratativas desenvolvimentistas é que nos levarão para a frente.

Voltando ao tema Festa do Boi 2019, como estão as negociações com os expositores?

Nós temos mil argolas de  gado e todas serão habitadas. Nós temos uma plataforma com o Sebrae/RN, chamada Terroir, que preza pelos produtos produzidos no Rio Grande do Norte. Essa parceria está confirmadíssima. Nós teremos a Vila Parnamirim. Para este ano trouxemos produtores rurais da agricultura familiar. Na minha modesta visão, a equação vitoriosa da gente é o médio produtor e a agricultura familiar do lado. Na Festa do Boi deste ano, ela estará muito presente em produtos elaborados, cuja demanda é maior que a oferta, por enquanto. Nós estamos tratando isso com o Governo do Estado.

Em tempos de urbanização acelerada, de crescimento desordenado das cidades e afastamento do homem da zona rural, como é montar um evento como a Festa do Boi, voltado às atividades camponesas?

Sem nenhum tipo de qualquer pecado capital, nós temos a melhor festa popular do Nordeste. A Festa do Boi é sui generis no Nordeste. Há uma festa na Bahia, um feira de algodão, máquinas e suplementos muito grande. Mas das feiras nas capitais do Nordeste, nós temos a melhor. Nós conseguimos muitos investimentos no Parque Aristófanes Fernandes ao longo dos governos, desde Aluízio Alves, a cidade cresceu no entorno e aquele evento se tornou muito forte em sua tradição, reunindo famílias com segurança. Para o produtor rural há oferta de tecnologia e inovação. Então, o nosso cuidado é manter essa chama acesa. É a melhor festa em nível de público do Nordeste. 

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