Marcelo Queiroz, da Fecomércio RN: "Cerca de 25% das empresas não vão reabrir"

Publicação: 2020-08-02 00:00:00
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Ricardo Araújo
Editor de Economia

A pandemia do novo coronavírus deixará um rastro de destruição que vai além das milhares de vidas ceifadas ao redor do mundo. Empresas falidas,  milhares de desempregados e incertezas. No Rio Grande do Norte, um dos setores mais importantes para a economia local, o Comércio, já demitiu mais de 15 mil trabalhadores formais e informais nos últimos 120 dias. Empreendimentos como shoppings centers, bares, restaurantes e hotéis vivenciam uma crise inimaginável, pois sua origem não foi econômica, mas sanitária.
Créditos: ARQUIVOMarcelo Queiroz, presidente do Sistema FecomércioMarcelo Queiroz, presidente do Sistema Fecomércio


Na tentativa de reverter o cenário de penúria nos setores que respondem por mais de 70% do Produto Interno Bruto (PIB) do Estado, a Federação do Comércio de Bens, Serviços e Turismo do Rio Grande do Norte (Fecomércio RN), analisa os impactos da pandemia e elabora medidas de mitigação junto à iniciativa privada e ao Governo. Por enquanto, a situação do Comércio não é pior em decorrência do pagamento do Auxílio Emergencial efetuado pela União, que faz circular cerca de R$ 900 milhões mensais no território potiguar. O Turismo, porém, segue com a maioria dos hotéis e pousadas fechados, sem perspectiva de abertura e recomposição das perdas financeiras acumuladas desde março.Na entrevista a seguir, o presidente da Fecomércio RN, Marcelo Queiroz, analisa o momento atual e aponta possíveis saídas para a crise. Acompanhe.


De que maneira o senhor avalia os prejuízos até agora tabulados no RN por causa da pandemia?
São imensos e extremamente preocupantes. Pelos últimos números oficiais, as perdas nas vendas foram, respectivamente, de 26,8% em abril e 18,2% em maio, sempre no comparativo com o mesmo mês de 2019. Juntas, essas perdas representam algo em torno de R$ 650 milhões a menos em vendas nestes dois meses em relação a um período normal. Além disso, em maio, nós já tivemos prejudicada uma data que é das mais importantes do ano para o comércio que é o Dia das Mães. Essa queda nas vendas é causa e efeito do aumento do desemprego. Somente o comércio demitiu mais de 15 mil pessoas entre formais e informais entre o final de março e o final de junho. O percentual de desemprego no Rio Grande do Norte, que era de 11,2% em fevereiro, já estava em 13,8%, segundo dados da PNAD, em junho (último dado disponível). Nossa expectativa, pelo que temos conversado com empreendedores, é que cerca de 25% das nossas empresas simplesmente não vão conseguir reabrir no pós-pandemia. Isso equivale a algo entre 35 e 40 mil empresas, a imensa maioria delas micro e pequenas. Até meados de junho, o Estado já havia perdido quase R$ 500 milhões apenas em arrecadação de ICMS, de acordo com a Secretaria de Estado da Tributação do Rio Grande do Norte (SET RN). O próprio Estado projeta uma queda geral de receitas até o final do ano próxima do R$ 1 bilhão.  Toda essa redução de receita é crescente e traz sérias ameaças ao já frágil equilíbrio financeiro do Estado. Enfim, são números assustadores. Tão assustadores, ou até mais, do que os da própria doença.

Quanto tempo será necessário para recuperamos a rota do crescimento e mitigarmos os impactos da pandemia na economia?
Esta resposta, com exatidão, é a maior dúvida de todos nós. Não dá para estimar isso com precisão porque há muitas variáveis envolvidas. Especificamente aqui no Rio Grande do Norte, como eu já disse, umas delas é saber se o Governo do Estado conseguirá ou não manter em dia os salários dos servidores, cujo volume financeiro acaba impactando fortemente em nossa economia. No plano nacional, saber, por exemplo, se a reforma tributária irá andar; em que moldes; e quais são, em detalhes, os planos para estímulo à retomada da economia que o Governo Federal tem, são pontos fundamentais para que possamos aferir esse tempo necessário para retomarmos o crescimento.

Já que o senhor citou a questão da reforma tributária, o que achou da proposta da primeira etapa entregue pelo ministro Paulo Guedes, na semana que passou, ao Congresso Nacional?
Me deixou apreensivo. Primeiro porque me pareceu um erro estratégico entregar a reforma de maneira fatiada. Todos nós sabemos que uma reforma tributária profunda, que é mais do que necessária há anos no País, só pode ser considerada relevante se passar pelo debate dos impostos estaduais e municipais, que respondem por praticamente um terço da carga tributária nacional. O que o ministro apresentou foi apenas a união de dois impostos federais (PIS e Cofins) criando a CBS (Contribuição sobre Bens e Serviços) numa alíquota de 12% o que, na prática, representa um aumento considerável de carga tributária para os segmentos de serviços e que utilizam mão de obra de maneira mais intensiva (que hoje pagam entre 4% e 8% de PIS+Cofins). Não podemos ser a favor de algo assim. O que esperamos é que o Congresso aprofunde um pouco mais o debate e tenhamos uma reforma minimamente eficiente e eficaz para simplificar nosso arcabouço tributário e reduzir nossa carga de impostos, o que redundaria no aumento de competitividade do setor produtivo como um todo.

A Fecomércio RN, ao lado de outras federações, montou o Plano de Retomada da Economia no Estado de forma gradual. Se o Estado adotar esse conjunto de ideias na íntegra, qual deverá ser o cenário econômico local ao final deste ano?
O Plano tem sido ajustado, sempre em discussões conosco. Pelo que temos acompanhado, há uma estimativa de que até o final de agosto estejamos com praticamente tudo funcionando, com exceção de alguns tipos de eventos maiores e segmentos ligados a eles. O que já começamos a observar é que há uma melhora desde maio, sempre na comparação com o mês anterior. Ou seja, estamos evoluindo, e muito na esteira dos recursos do Auxílio Emergencial que, a cada parcela, faz circular algo em torno de R$ 900 milhões no Rio Grande do Norte. Nossa estimativa é que junho já tenha números melhores, o mesmo acontecendo com julho e assim por diante. Não temos a ilusão de que iremos recuperar o ano como um todo, até porque, como eu já disse, quando comparamos com os dados de 2019, a queda é vertiginosa. Mas podemos até sonhar e trabalhar por um final de ano de boas vendas, que possa ser, digamos, uma espécie de ponto de inflexão da curva negativa do ano, abrindo caminho para que, em 2021 possamos dar início à retomada efetiva do crescimento. Uma coisa temos certeza: chegamos ao fundo do poço e de lá já começamos a tomar impulso para saltar para fora dele.

Em meados de julho, centenas de pessoas foram à Praia de Ponta Negra, em Natal; e à Praia da Pipa, em Tibau do Sul, numa atitude que vai de encontro ao que é preconizado pelas autoridades em saúde e entidades como a Fecomércio RN, que defende a reabertura gradual. O que a Federação tem a dizer sobre esse assunto e quais são os riscos para a economia da manutenção de atitudes como essa no contexto atual?
Aquilo foi um absurdo, foi decepcionante e nos deixou, a todos, indignados. Como nós dissemos na nota que enviamos à imprensa, lamentamos que todo o esforço que o setor produtivo vem fazendo – implantando com rigor os protocolos de biossegurança, assumindo inclusive custos financeiros para isso – tenha sido colocado em risco por uma parcela, felizmente pequena, de pessoas que parecem viver uma realidade paralela. O compromisso com a reabertura gradual, responsável e segura é de toda a sociedade. Felizmente, após reuniões e conversas, os Poderes Públicos e as instituições assumiram o compromisso de coibir, com firmeza, aquele tipo de atitude. É inadmissível que brinquemos dessa forma com algo tão sério que envolve, além da vida das pessoas (o que já não seria pouco) a sobrevivência das empresas e, com elas, dos empregos e da renda gerados para o nosso povo. Aquele tipo de atitude pode impactar severamente no crescimento dos números da doença e na obrigatoriedade de revermos o calendário de retomada das atividades.
  
Os setores de Turismo e Serviços foram grandemente impactados pela pandemia. Ambos são de extrema importância para o PIB do Estado. Quais pleitos a Fecomércio RN apresentará ao Governo do RN para recuperar esses dois relevantes setores?
Bem, na realidade nós já começamos a trabalhar pela recuperação. Criamos, em parceria com o Governo do Estado, o Sebrae e entidades do trade, o Plano de Retomada do Turismo, que inclui a definição de protocolos específicos para os estabelecimentos e prestadores de serviços do setor, assim como cursos – que estamos oferecendo, num total de mais de duas mil vagas – por meio do Senac para capacitar empreendedores e colaboradores a implantar e manter ativos esses procedimentos nas empresas. Também formatamos o selo “Turismo + Protegido” que será outorgado a todos os empreendedores de estabelecimentos turísticos que abraçarem os protocolos e os implantarem, além de se capacitar para isso. Outro passo que já conseguimos foi a obtenção do selo de “viagem segura” (Travel Safety Stamp), criado pelo Conselho Mundial de Viagens e Turismo, e que tem o respaldo da Organização Mundial do Turismo e de mais de 200 CEOs das principais empresas de turismo do mundo, tais como: Hilton, Radisson Hospitality, Marriott International, Expedia, InterContinental Hotels Group, Grupo Accor, Grupo Trip.com, Hyatt e Booking.com. A obtenção do selo foi possível justamente graças à criação do Plano de Retomada do Turismo Potiguar. Estamos apostando que termos esses diferenciais será algo de grande relevância no pós-pandemia. E, claro, seguiremos cobrando que, tão logo seja viável, o Governo retome os planos de promoção do nosso destino e as ações para viabilizar uma melhoria de nossa malha aérea. Tudo a seu tempo.

Qual lição o empresariado potiguar irá tirar da pandemia, do seu ponto de vista?
Sem dúvida nenhuma, a de que todos nós precisamos estar sempre prontos para nos reinventarmos e nos adaptarmos a novos cenários, novas realidades. Tudo vem mudando rapidamente desde o início da pandemia. O consumidor, seus hábitos, seus anseios e até suas necessidades. Conseguir ler e entender isso é o grande desafio, sempre. Por isso, nunca podemos achar que estamos prontos. Sempre precisaremos estar dispostos a nos ajustar, a ajustar nossas empresas, nossos processos, nossa forma de empreender.