Marcelo Sant'ana quer que torcedores do ABC participem ativamente da gestão do clube

Publicação: 2019-09-22 00:00:00 | Comentários: 0
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Ex-presidente do Bahia e contratado para realizar uma consultoria, com vistas, a modificar o modelo de administração do ABC, Marcelo Sant'Ana classificou como preponderante o clube abrir um canal direto de comunicação com o seu torcedor e deixar que os mesmos participem e se inteirem do dia-a-dia abecedista. Ele acredita que os potiguares terão de realizar um processo de inclusão, no sentido de fazer o torcedor se sentir como uma peça importante dessa mudança que está para ocorrer. Sant'Ana que inciou o trabalho busca por informações disse que aceitou o desafio por que confia na recuperação do Alvinegro, assim como confiava na recuperação do Bahia, que saiu de um universo de muita complicação e, em seis anos, com um novo modelo de gestão integrada, conseguiu dar um salto significante no número de associados, que passou de 4 mil para 45 mil sócios na condição de adimplentes. O executivo baiano disse que isso é o resultado da democratização e o nível de transparência que o clube atingiu, depois de passar por uma intervenção judicial.
 Objetivo da empresa contratada para alterar o modelo de gestão no Alvinegro é levar os torcedores a participar do dia a dia do clube
Objetivo da empresa contratada para alterar o modelo de gestão no Alvinegro é levar os torcedores a participar do dia a dia do clube

Qual o papel a sua empresa irá desempenhar dentro do ABC?
Iremos prestar uma consultoria ao ABC por um período de seis meses. Nosso objetivo inicial é realizar um diagnóstico da situação do clube. Entender, administrativamente, como vem sendo realizada essa operação de tocar os trabalhos nos últimos meses e, a partir disso, propor algumas mudanças. Estabelecer um novo organograma de trabalho delimitando bem as funções de cada uma das áreas, além de estabelecer um plano de metas e objetivos dentro de um cronograma de ações. Agradeço ao presidente que é o líder desse processo, estou aqui por causa de Fernando Suassuna, a quem já conhecia, bem como por acreditar na força que esse clube possui.

Você vê a situação do ABC hoje, muito próximo da do Bahia, quando você assumiu o clube ou pior que a situação que encontrou no Bahia?

Com o tempo que a gente pode descobrir, né? A questão não é estar melhor ou pior, na verdade, eu acreditei que o Bahia tinha jeito, como também acredito que o ABC tem. Os dois são clubes de massa, acredito que a transformação do ABC passa, em parte, pelo mesmo caminho que passou a transformação do Bahia: feita através da força popular. Esse é o maior clube do RN e necessita que, sua gente, a frasqueira, esteja representada dentro do seu dia a dia. Se faça presente dentro das ações tomadas e faça parte do DNA desse clube. Esses dias estava vendo uma entrevista da CEO do Dallas Mavericks, Cinthia Marshal, onde ela apontava a diferença entre diversidade e inclusão. Nós sabemos que a torcida do ABC é formada por uma diversidade grande de pessoas: homens, mulheres, crianças, idosos, pobres e ricos. Então essa diversidade tem de estar representada no dia a dia do clube. Porém, no mundo que a gente vive atualmente, apenas a diversidade não basta para atender a essa clientela. É aí que a gente entra na parte da inclusão, o caso de a pessoa se sentir representada. A metáfora que a Cinthia fazia para explicar o que é diversidade e inclusão foi simples. Quando uma pessoa te chama para uma festa onde terão uma série de outras pessoas, ela está respeitando o princípio de diversidade, mas a inclusão só vai existir quando essa pessoa te chamar para dançar. Então entendo, que vem faltando a torcida do ABC isso, a gente tem de fazê-la sentir a importância que de fato possui e, aos poucos, ela vai se sentir cada vez mais representada.

O primeiro sinal de que as coisas vão mal dentro de um clube, é o afastamento da torcida?

Não vou dizer que um clube está mal por causa do afastamento da torcida, pois entendo que a gente não pode transferir responsabilidade. Eu acho que a torcida reage, em muitos momentos, de acordo com os estímulos que ela tem. Então nosso papel é procurar transmitir bons sentimentos, bons gestos e, principalmente, boas atitudes.  Eu tive um treinador no Bahia, Guto Ferreira, que, brincando comigo ele sempre dizia: presidente! A boca fala o que quer. Mas a gente tem de jogar pelas pessoas e pelo que elas conseguem realizar no dia a dia. Nós que temos de mostrar que a gente merece a confiança e a credibilidade deles, não tenho dúvida que o sentimento do torcedor com o clube não modificou. Ele pode estar até chateado, mas não deixou de torcer, não deixou de consumir as coisas relativas ao clube, também não deixa de se emocionar e nem querer o bem do ABC.

Nesse projeto em que momento o torcedor deve entrar para fazer a parte dele?
A torcida vai entrar no momento que desejar, na hora que quiser e se sentir feliz. O que a gente precisa fazer é facilitar em diversas áreas a participação desse torcedor. As pessoas devem se sentir bem representadas e, ter a percepção, que fazem parte dessa construção. Pouco adianta ser um clube de massa e não ter a capacidade de dialogar com o seu torcedor. O que faz a diferença em prol desses clubes de massa, é justamente a mobilização desse imenso contingente de pessoas. Esses clubes das multidões, só conseguem ter sucesso, quando a sinergia entre a administração e a arquibancada está funcionando, quando ela está bem sintonizada. Então nossa preocupação é tentar entender o que está atrapalhando essa relação para não estar fluindo essa energia da forma como haveria de ser.

Toda mudança requer uma adaptação e gera uma possível desistência, então qual os setores que irão merecer mais atenção?

Com o respaldo do presidente Fernando Suassuna, acredito que teremos a oportunidade de tentar reconfigurar a administração do ABC. Quando falo isso é a gestão como um todo. Lógico que teremos de respeitar o planejamento estratégico do clube, saber o que a cúpula diretiva pensa, ouvir o conselho deliberativo e, entendendo as características do ABC, iremos conseguir implementar as transformações. A questão da resistência não me incomoda, esse negócio de funcionário insatisfeito, também não tenho problema algum com isso. Passei três anos como presidente do Bahia e, sempre tive na cabeça, que entrei lá para administrar o clube, não para fazer amigos lá dentro. Se a gente dentro do ambiente de trabalho conseguir estabelecer laços de amizades e laços afetivos, isso eu encaro como fato extra. Eu acredito que o trabalho aqui será da mesma forma que tivemos no Bahia, nosso compromisso é com o torcedor do ABC, mais ninguém. Nos contatos que tivemos o presidente foi muito claro ao expor que deseja dar ao ABC a credibilidade que um clube desse porte deve ter e os resultados que a torcida merece, tudo isso dentro de parâmetro de gestão de governança corporativa. Então é para isso que a nossa empresa está aqui desenvolvendo esse trabalho.

Tem algum prazo estabelecido para maturação desse processo?

O zagueiro Ricardo Rocha, campeão mundial em 1994, me ensinou que no futebol a gente não deve dar prazos. Se o xerife da seleção disse isso, tenho de respeitar, principalmente, vindo daquele que possui experiência comprovada dentro do futebol e trabalhar sempre com muita paciência e bastante calma, mas cientes de que devemos entregar os resultados. Acredito que em algumas áreas é mais simples da gente começar a mostrar as mudanças, mas certamente que outras irão requerer um período maior. Dentro do Bahia, apenas para fazer um comparativo, eu só consegui passar a fazer o que eu queria e gostaria, depois de um ano e meio na administração do clube. No início era muito difícil entender a realidade das dificuldades orçamentárias, a questão da cultura, mas tudo isso é natural, não podemos mudar hábitos apenas trocando um chip, trabalhamos com seres humanos. Temos de buscar entender o lado do profissional, descobrindo, por exemplo, qual o motivo que fez ele se desmotivar no trabalho. Temos de dar liberdade ainda de as pessoas desenvolverem novas ideias, sou sempre favorável a inovação. Precisamos buscar novos caminhos e novas práticas visando obter melhores resultados, acredito ser isso tudo o que o torcedor do ABC merece.

Fora a experiência no Bahia, vocês já realizaram esse trabalho em algum outro clube?

Fomos convidados por dois outros clubes para realizar um trabalho semelhante, mas alguns pedem para não divulgar. Cada um possui a sua estratégia e temos de respeitar, mas o que fizemos foi justamente o que será realizado aqui: diagnóstico e mapeamento. Em um deles a gente teve o interesse de dar continuidade e no outro não.

Resolveu a situação?

Aí quem tem de responder é o clube que foi o nosso cliente.

Vocês acompanharam o desenvolvimento desse clube?

Foi um trabalho muito inicial de sugestão de modificação de gestão na administração. Na parte de acompanhamento, esse clube que é gerido em forma de uma empresa, ele optou por seguir dentro da modelagem que possuíam antes e, isso, a gente tem de respeitar. Não existe fórmula pronta, cada clube tem a sua cultura, cada cidade tem o seu jeito de acompanhar o futebol, cada torcida tem os seus gostos e cada diretoria tem o seu estilo. Então precisamos entender essas peculiaridades. O nosso maior desafio será deixar uma mentalidade de gestão, ode independente daquele que estiver a frente, o clube funcione de maneira saudável e competitiva. Esse é o grande legado e o maior desafio do presidente Fernando Suassuna hoje. Fazer o ABC entregar ao seu torcedor, os resultados que eles desejam, seja na esfera administrativa ou na esfera esportiva ou de entretenimento.

Em sua opinião, quais os clubes do Nordeste que estão despontando em termos de gestão atualmente?

O trabalho que é desenvolvido no Bahia considero bom, bem desde a intervenção no clube em 2013 e segue até hoje. Ele passou por algumas fases de renovação, cujo marco foi a reforma estatutária com o atendimento ao desejo da democracia e da transparência, logo após veio a reorganização administrativa e financeira, que foi uma parte que tivemos um imenso prazer de trabalhar e o clube, na gestão atual, vive um período de alavancagem de receitas. Então é um diagnóstico claro do que foi realizado no clube em seis anos. Acredito também que o Ceará tem realizado um trabalho forte neste sentido desde o presidente Evandro Leitão. O clube teve o lançamento de seu novo centro de treinamento, possui uma gestão muito enxuta, mas eficiente. O Fortaleza também tem feito um trabalho muito bom de resgate da autoestima do clube, vem iniciando a fase de nova geração de receitas e recuperação do patrimônio, onde contou com o importante auxílio de Rogério Ceni, quando técnico e tem investido de maneira mais forte no futebol. Acredito que esses são os clubes que estão em situação mais maduras no Nordeste, quando comparados aos demais da região levando em consideração a escala nacional.

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