“Marcha das Vadias” chega a Natal

Publicação: 2011-07-23 00:00:00
Inspirada em um movimento originado na cidade de Toronto, no Canadá, que busca reverter a cultura que culpa as vítimas por casos de violência sexual e que desencoraja as mulheres a denunciar os crimes, a Marcha das Vadias (SlutWalk, em inglês) movimenta Natal, neste final de semana. O protesto inusitado promete reunir cerca de 150 pessoas, na praia de Ponta Negra. A  marcha terá concentração no Ponto7, às 14h, e sai em direção ao Morro do Careca.

Este ano, a Marcha das Vadias ganhou as ruas de várias cidades brasileiras, entre elas São Paulo, Belo Horizonte, Brasília e Fortaleza.  Mulheres com saias curtas, de salto alto e até só de calcinha e sutiã saíram às em protesto. Em São Paulo, a marcha reuniu no início de junho cerca de 300 pessoas. Em natal, a expectativa é reunir 150.

O movimento ‘SlutWalk’, explica a coordenadora do Coletivo Leila Diniz, Jolúzia Batista, que apoia a marcha, é importante para levantar o debate, mas especialmente porque é uma manifestação, autônoma e voluntária, que agrega mulheres jovens que não viveram a construção do feminismo. “Apesar de todas as conquistas e políticas de igualdade, continua existindo, na sociedade um papel para o homem e outro para a mulher”, critica.

O foco de ataque da marcha é a violência sexual. “Eu mesma quase fui vítima de violência e quando cheguei ao posto de saúde, ouvi a pessoa me dizer: olha só como você está vestida. De vítima, a mulher passa a ser culpada”. Ela afirma que está na hora de os homens serem educados a controlar seus instintos.

“Será que eles não podem ser fortes o suficiente para não cair numa tentação, para não abusar?”, questiona. Ela critica o descaso nas políticas públicas, que não têm continuidade de uma gestão para outra e citou como exemplo a mudança no funcionamento da Delegacia da Mulher, que funcionava as 24h do dia e com a portaria nº 606/2011 (que revoga a portaria nº055/2010) passou a atender no horário das 8h às 18h.

Ela disse que uma das lutas mais importantes – e que deve ser constante - é para que a Lei Maria da Penha não seja desmobilizada. Outra critica é quanto a inexistência de sistematização das políticas públicas e banco de dados em relação ao abuso e à violência sexual. “Não há qualquer monitoramento. Nossa luta é para emplacar uma emenda prevendo verbas para equipar o sistema de informação do estado e humanizar o serviço de atendimento à mulher. Sem diagnóstico fica difícil”, diz Jolúzia Batista.

Sobre a marcha

O movimento inicial “Marcha das Vagabundas” aconteceu em abril deste ano, quando alunas de uma universidade no Canadá resolveram protestar depois que um policial sugeriu que as estudantes do sexo feminino deveriam evitar se vestir como ´vagabundas/vadias´ para não serem vítimas de abuso sexual.   No Canadá, as  mulheres resolveram exigir mais do que um pedido de desculpas.

A primeira marcha reuniu cerca de 3 mil participantes vestidas de forma provocativa ou comportada para chamar a atenção para a cultura de responsabilizar as vítimas de estupro. Foi o estopim para que outros eventos semelhantes se espalhassem por várias cidades dos Estados Unidos e Europa. Em Natal, “as mulheres podem ir vestidas da forma que bem entenderem”, segundo os organizadores do evento.

Blog da Marcha:  http://www.marchadasvadiasnatal.blogspot.com/

Bate-papo

Alípio Filho » sociólogo e professor do Departamento de Ciências Sociais da UFRN

Com exceção dos debates acadêmicos, quase não se discute as questões de gênero. É como se tivessem sido resolvidas, quando não estão. O que acontece nos dias de hoje?

O debate crítico sobre as questões sociais está hoje muito reduzido, e não apenas na sociedade brasileira. Não fosse o trabalho de segmentos do movimento feminista e LGBT e, é fato, o de alguns pesquisadores universitários, não teríamos o pequeno debate que se faz sobre a opressão, a violência e a discriminação. Na nossa sociedade, nada está resolvido quando se trata da questão de gênero e sexualidade e, certamente, nunca estará. Mas, ao menos é certo, pode-se ter uma educação e estatutos legais de proteção contra preconceitos, discriminação e violências praticadas em razão de gênero, identidades de gênero e sexualidade. No Brasil, estamos mais atrasados na tomada de decisões quanto a essas questões, se comparamos com outros países.

Apesar dos avanços, o caminho para o equilíbrio nessa questão  ainda é longo?

No caso das mulheres, enquanto perdurar a depreciação do feminino e a valorização do masculino, e perdurar a crença de que existe uma mulher biologicamente programada para a maternidade, a delicadeza, o cuidado com a esfera doméstica, elas continuarão sofrendo discriminações, se procuram romper com esses esquemas de pensamento e de condutas.  Com a manutenção, por exemplo, da ideologia do “recato natural da mulher” ou do “mito do amor materno”, como tratou do assunto Elisabeth Badinter, às mulheres se subtrai o direito à livre sexualidade, ao aborto, à sua independência e emancipação. Justamente aquelas que fogem do modelo da subordinação são chamadas de “vadias”. Muito boa a ideia da Marcha das Vadias, trata-se aí de um trocadilho crítico, semiologicamente subversivo e, espera-se, também social e politicamente subversivo.

Mas as mulheres finalmente estão se dando conta de que submissão e castidade não lhes servem mais de qualificativos?

Mesmo muito ainda tendo que ser conquistado, pensando a maior parcela da sociedade e os muitos direitos que não são ainda garantidos, transformações importantes ocorreram. E, é fato, estamos vivendo, mundialmente, mudanças revolucionárias. Muitas mulheres se deram conta, como também homens, que não é mais o caso de permanecerem submetidas a convenções sociais, culturais, históricas, institucionalizadas como padrões morais ou normas sociais que, como tais, são modificáveis, reversíveis. Essa compreensão da realidade tem levado a que sempre mais indivíduos, embora lentamente, rompam com os esquemas de percepção e ação que os orientam na vida. Rupturas que, se não tendo conseguido produzir revoluções sociais e políticas, têm produzido bem-estar emocional e felicidade na vida de muitos, ao assumirem para si próprios o seu desejo, suas escolhas, opções, estilos de vida, o que não é menos importante e menos político.

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