Marcos da memória

Publicação: 2018-09-13 00:00:00
Ramon Ribeiro
Repórter

O escritor Geraldo Queiroz é um homem de boas memórias. Formado na primeira turma da Faculdade de Jornalismo Eloy de Souza, chegou a ser deputado estadual, secretário de educação de Natal e reitor da UFRN. Aos 75 anos, as vivências dessas diversas funções que desempenhou ao longo da vida seguem bem nítidas em sua cabeça. Algumas foram parar em seu terceiro e mais novo livro, “Passagens”, que será lançado nesta quinta-feira (13), a partir das 18h, na Galeria Fernando Chiriboga, no Midway Mall.

Créditos: Magnus NascimentoGeraldo Queiroz aborda  desde episódios vividos em época diferentes, até encontros com figuras de expressão cultural, educacional, jornalística e políticaGeraldo Queiroz aborda desde episódios vividos em época diferentes, até encontros com figuras de expressão cultural, educacional, jornalística e política

Geraldo Queiroz aborda desde episódios vividos em época diferentes, até encontros com figuras de expressão cultural, educacional, jornalística e política

O livro traz, com ecletismo de assuntos, 22 textos que abordam desde episódios vividos pelo autor, até encontros com figuras de expressão cultural, educacional, jornalística e política. “Esses textos são exercícios que me dispus a fazer para registrar lembranças. São artigos memorialísticos, algo que já faço com alguma regularidade”, conta em entrevista a Tribuna do Norte Geraldo Queiroz.

Apesar da importância pessoal, as memórias dizem muito sobre a história local, já que estão registrados ali diversos personagens e fatos. Segundo o autor, observando os temas tratados, se faz um passeio pela história potiguar de 1935 até o início dos anos 2000.

A obra está dividida em duas partes, “Lições que ficam” e “Falas e Ditos”. A primeira é focada nas pessoas cujo contato foi determinante para o escritor. Reúne 11 narrativas, algumas já publicadas em jornais, revistas e coletâneas. Na segunda parte, o foco são em instituições que o acolheram e apresenta pronunciamentos públicos, prefácios e orelhas de livros. As fotos que estão na obra também são do autor.

Dentre os encontros com figuras marcantes que Geraldo Queiroz teve, estão uma visita feita ao ex-prefeito Djalma Maranhão, quando este estava no exílio no Uruguai; um episódio envolvendo o ex-reitor Onofre Lopes; além de um esclarecimento sobre seu pai, Chico Queiroz, que vale não apenas para a família, mas para quem estuda o Levante de 1935 – a Intentona Comunista.

“Cresci sem papai falar com a gente sobre o assunto. Ele foi preso no 7 de setembro de 1936, no Vale do Assu. E todo 7 de setembro a gente ficava sem entender direito porque a data o emocionava tanto. Isso afetava toda a família. Mais velho, resolvi escrever sobre o tema, juntando meus conhecimentos adquiridos adquirindo desde criança”, diz o escritor.

Um episódio que ensinou bastante Geraldo foi vivido numa reunião com Onofre Lopes, por ocasião se sua nomeação para professor da UFRN, após se aprovados no primeiro concurso da UFRN, em 1970. Na época Geraldo era deputado estadual, mas não tinha mais nenhum interesse de seguir como legislador. “A gente estava vivendo aquele arrocho do AI-5. Doutor Onofre falou comigo, dizendo que recebeu recomendações para não me contratar, por eu ter me envolvido com atividades subversivas. Eu nunca me envolvi com atividades subversivas. Apenas era filiado ao MDB, o partido de oposição ao governo militar”, lembra o escritor. “Doutor Onofre foi de uma dignidade enorme. Ele me disse que quem manda na universidade era ele e que iria me contratar. Mas pediu para que eu ficasse na minha, claro”.

Em outros capítulos do livro há registro de encontros com figuras nacionais como a escritora Rachel de Queiroz, o dramaturgo Ariano Suassuna, o sociólogo Betinho, o ex-ministro Celso Furtado. “Achei que devia contar essas histórias para ressaltar dignidade de todas essas pessoas e prestar uma homenagem a elas, pois me ensinaram grandes lições”, comenta o potiguar de Pendências. “As lições de cada uma dessas pessoas citadas foram lições que aprendi pra vida. Até pra enxergar o mundo”.

O autor também lembra seu primeiro texto publicado na vida, uma entrevista com um mendigo poeta cego na feira de Caicó, em 1965, que estampou uma das páginas do semanário A Ordem, editado pela Arquidiocese de Natal. “Eu nunca vi tanta criatividade numa pessoa”, lembra Queiroz.

Novos projetos
Eleito recentemente para a cadeira de número 40 da Academia Norte-Rio-Grandense de Letras, vaga desde o falecimento do cronista Sanderson Negreiros, Geraldo Queiroz tem outros projetos na gaveta que pretende retomar em breve. “Estou trabalhando numa pesquisa sobre o editor Carlos Lima. Ele foi dono da livraria Clima, deixou um grande legado literário no RN. Estou numa coleta de dados bem adiantada. Já consegui levantar 180 livros publicados por ele. Será uma ensaio biográfico”, conta o escritor.

Serviço
Lançamento do livro “Passagens”, de Geraldo Queiroz

Dia 13 de setembro, às 18h

Galeria Chiriboga (Midway)