Marcos Valle prova força e a juventude de sua linguagem em 'Cinzento'

Publicação: 2020-01-15 00:00:00 | Comentários: 0
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Julio Maria

AE -  Marcos Valle tem uma mensagem do tempo nas mãos. Um álbum de temas inéditos feito com muitos parceiros letristas de várias frentes, uma inspiração instrumental retirada da aura de seu cultuado LP Previsão do Tempo, que gravou com o Azymuth, em 1973, e uma pertinente reflexão. Adotado como bossa-novista de grandeza da segunda geração do gênero por Tom Jobim e Carlos Lyra, autor de Samba de Verão, uma das canções brasileiras mais regravadas no exterior, o que ele recebe de uma plateia em fluxo constante de renovação, que garimpa seus discos nos sebos e nos sites de raridade, tem menos a ver com a própria bossa e mais com um pensamento musical livre para além de um formalismo que poderia tê-lo como refém. Aos 76 anos medidos por alguma régua que não passa pelo tempo, ele chega a Cinzento estabelecendo uma ponte sólida entre gerações.

Cinzento não é um disco instrumentalmente cinza, embora sua ideia seja falar um pouco dos dias gris atuais, tão diferentes do colorido que inspirou boa parte de sua vida. Enquanto produzia com Roberto Menescal um disco de Fernanda Takai na gravadora Deck Disc, O Tom da Takai, o produtor Rafael Ramos jogou a semente: "Por que não fazer um disco seu aqui?". Um tempo depois, seduzido pela companhia de pianos Rhodes e caixas Leslie do estúdio, Valle, que tinha coincidentemente Previsão do Tempo sendo relançado em vinil, aceitou a proposta. Fazer um álbum que navegasse nas águas de Previsão, apostando em um material de instrumentação menor, com teclado, baixo e bateria ditando o groove. E o que viesse a mais seria luxo.

As melodias começaram a sair, e vieram logo quatro. As letras seriam pedidas para pessoas que já haviam declarado, de alguma forma, terem influências de Previsão do Tempo em suas carreiras, e aí vieram Moreno Veloso, Bem Gil, Alexandre Kassin, Domenico Lancelotti. De disco ativado, e mais melodias saindo, uma nova foi enviada a Zélia Duncan, que respondeu com uma letra no seguinte. Outro tema em sete por oito, um tempo dos jazzistas, foi parar nas mãos de Jorge Vercillo, que mandou também a letra de Só Penso em Jazz no dia seguinte. Paulo Sérgio Valle, irmão de Marcos, presente em Previsão, entrou com Nada Existe, e Ronaldo Bastos veio com Posto 9, um instrumental do álbum Jet Samba, que ganhou letra. Emicida chegou com força, depois de uma ponte feita pelo produtor Marcus Preto, para letrar a melodia desdobrada que virou Reciclo e uma segunda, forte de discurso e flutuante no clima, chamada Cinzento, a que deu nome a tudo. Instado a pensar sobre a própria carreira, em paralelo a outros projetos, Marcos faz seu sobrevoo desde 1963, quando sai com Samba Demais depois de formar um trio com Edu Lobo e Dori Caymmi Ali, nada era mais forte do que a bossa nova. Ao menos, no que se podia ver. "A verdade é que eu vivo música desde antes dos 6 anos de idade. Ouço baião, jazz, marcha, e depois rock e música negra americana. Isso já vinha formando minha cabeça antes." Quando chegam João Gilberto e Tom Jobim, uma onda se ergue para devastar todas as outras. "Já no primeiro disco, a bossa acaba escondendo as outras influências, que depois eu retomaria." O segundo álbum, de 1965, aponta para um Brasil um pouco maior, do samba e do baião, e traz pelo menos duas joias, Eu Preciso Aprender a Ser Só e ela, Samba de Verão, todas com o irmão Paulo Sérgio.

Valle viaja para os Estados Unidos ainda sob o manto de representante da segunda geração da bossa nova, toca com Sérgio Mendes e grava dois discos por lá, Braziliance! A Música de MarcosValle e Samba’68. "Eu havia assumido um compromisso com a bossa nova, mas minha música não poderia parar ali, eu estava cheio de coisas na cabeça. E pouco a pouco, comecei a abrir um caminho novo, mesmo sabendo que alguns poderiam se decepcionar com isso." Em um movimento arriscado, grava em 1969 o álbum Mustang Cor de Sangue e se aproxima da pilantragem de Wilson Simonal, por quem seria gravado, mas também faixas como Azimuth e Dia de Vitória.

Mais pop, mais jovem, Valle quebrava os votos de castidade dos bossa-novistas para dormir com o rock norte-americano e acordar com a soul music que conhecera nos Estados Unidos dos anos 1960, em suas primeiras viagens por lá. Ganhava, assim, uma inserção no universo do groove que garantiria uma vida rejuvenescida não apenas fisicamente.






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