Marise Reis: "A curva vai sendo desenhada dia a dia com novos óbitos. É dinâmica"

Publicação: 2020-04-09 00:00:00
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A infectologista Marise Reis de Freitas, pesquisadora da UFRN e participante do comitê técnico da Sesap, disse que é possível reverter a situação atual e futura se o isolamento social for adotado de maneira mais radical pelas pessoas. 

Créditos: Elisa ElsieMarise Reis de Freitas, infectologista e pesquisadora da ufrnMarise Reis de Freitas, infectologista e pesquisadora da ufrn


O lockdown é uma cartada -talvez  a última delas - válida, mas é preciso cuidado antes de decretá-lo por causa dos riscos de uma reação popular, afirma Marise. “É possível que a gente não tenha capacidade para um lockdown porque a nossa estrutura social teria dificuldades de comportar", afirmou.

A senhora acha que é a hora de pensar um lockdown?
O comitê entende que nesse momento ainda temos margem de segurança para melhorar o afastamento social, inclusive em função da nossa cultura e capacidade de fazer lockdown. É possível que a gente não tenha capacidade para isso porque a nossa estrutura social teria dificuldades de comportar. Podemos ampliar a mitigação. Se as pessoas assumirem o que está previsto nos decretos e se as pessoas que não são de áreas essenciais pararem as suas atividades em espaço público nós seguramente iremos achatar essa curva.

Há tempo para achatar a curva?
A gente só vai conseguir confirmar isso com o andamento da epidemia. A curva vai sendo desenhada dia a dia com novos óbitos. É o número de óbitos que faz essa curva subir ou achatar porque a nossa preocupação maior é com o indivíduo que será um caso grave e tem risco de morrer. Sabemos que a maior parte da população vai contrair esse vírus de uma forma leve e tudo bem: vai ficar imune, vai ficar protegido e esperar o próximo ano porque esse vírus provavelmente vai se tornar mais um vírus respiratório em circulação, mas a nossa preocupação maior é com o grupo que tem risco de morrer.

Existe uma data limite para o lockdown?
A gente prefere não trabalhar com data porque essa epidemia é muito dinâmica. Como eu tive esse movimento maior essa semana, é possível que a curva de casos cresça nas próximas duas porque tudo que a gente faz se reflete em duas semanas seguintes. As questões estruturais precisam ser levadas em consideração porque se eu fizer um lockdown e colocar toda a população da periferia aglomerada, que se organiza em guetos, eu talvez não consiga achatar a curva, só mudo o rumo dela para um público mais pobre. Os casos hoje no Rio Grande do Norte ainda são a maioria entre a classe média e classe média alta, que são as pessoas que voltaram de viagem e contaminou seus pares. Daqui a pouco ela vai para a periferia. Isso é uma coisa importante que a gente precisa entender, por isso é preciso se ater a essa estrutura social.





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