Marlon fala sobre as suas expectativas em atuar por equipe do RN

Publicação: 2020-11-29 00:00:00
Aos 43 anos, mas ainda com muita vontade para mostrar sua habilidade como levantador, Marlon chega a Natal no próximo dia 5 para ser a principal atração do Unimed/Aero para a disputa da Superliga B do Brasileiro de voleibol. A competição começa em janeiro.
Créditos: Divulgação/CBVMarlon será a principal atração do Unimed/Aero na Superliga B do Brasileiro de voleibolMarlon será a principal atração do Unimed/Aero na Superliga B do Brasileiro de voleibol

O que te atraiu a atuar numa equipe do RN, um estado sem tradição na disputa da elite do vôlei nacional?
A razão principal foi o projeto apresentado, ele é organizado, conta com pessoas sérias e apresenta um objetivo muito importante de curto prazo que já é a conquista da vaga para Superliga A. Isso para o momento pós-pandemia foi o que me deixou mais motivado a aceitar esse convite. O investimento realizado é bem interessante, mas acima de tudo está a organização por trás do projeto de voleibol. É algo novo para o ambiente do esporte no Nordeste e para o Rio Grande do Norte. São fatores que somados, geraram em mim uma curiosidade enorme e a vontade de fazer com que o voleibol prospere por todo Brasil e não apenas naqueles locais onde já se existe tradição na disputa desse tipo de competição.

Você é uma pessoa bem experiente no esporte, pelo que viu de estrutura, Natal tem condições de figurar com representante na elite do vôlei nacional?
Ainda não conheço bem o ambiente na cidade, mas o que posso falar a respeito e baseado no que as pessoas vêm me falando, bem como os gestores do projeto. Por ter vivido em vários ambientes do voleibol nacional e também internacional acho que se a cidade realmente abraçar, começar a ter essa presença dos atletas do voleibol e entender que isso gera valor para sociedade, esse será o princípio do sucesso. Obviamente que somado a isso devem ter os patrocinadores na iniciativa pública, o apoio da imprensa será fundamental para possamos ter um cenário muito próspero e muito forte. A tendência com esse cenário será de uma progressão positiva.

Com relação a estrutura para treinamento, elas são suficientes para uma equipe de alto rendimento?
Ainda não conheço a estrutura, mas me passaram os locais onde iremos treinar e sei que iremos usar a estrutura do Sesi e também a do ginásio do Palácio dos Esportes. Esses dois ambientes estão sendo preparados para dar suporte aos atletas. Obviamente uma equipe que deseja chegar a elite do vôlei brasileiro, o primeiro passo a ser dado sempre será montar uma estrutura bem organizada, de acordo com os objetivos que deseja alcançar.

É muito difícil se montar uma equipe de alto nível?
Sim, é bastante difícil. Entendo que é um grande desafio, ainda mais em um ambiente que nunca existiu uma equipe profissional de relevância. Então os processos de formação têm de ser muito bem organizados, a construção de cada passo deve ser muito bem mapeada porque quanto menos erros, menos retrabalho houver maior serão as chances de sucesso e solidez para esse projeto.

O voleibol, diferente do futebol, dificilmente ocorre uma zebra. Então o que a equipe local precisará mostrar para atingir o seu objetivo numa competição de alto nível?
O primeiro grande passo será a solidez do trabalho. Você necessita de um treinador e uma comissão técnica especializada. Vai necessitar de uma estrutura própria que dê liberdade de trabalho para equipe e, obviamente, vai necessitar de um nível de investimento interessante para que a montagem do elenco, em sua criação, seja um grupo que gere respeito dentro do cenário do nosso voleibol. Nesse tipo de esporte as zebras não ocorrem. Eu já estive dos dois lados dessa moeda e vi muita coisa acontecer durante minha vivência no vôlei. De acordo com o trabalho, se ele for bem estruturado e bem organizado, até com um investimento menor se pode sim passar, criar uma equipe com potencial e que gere resultados ao longo do tempo. Mas a boa organização continua sendo a chave para o sucesso.

Quanto tempo é necessário para o processo de maturação de um grupo e para uma equipe se firmar no cenário nacional?
Se um clube possui um trabalho criterioso e progressivo e um nível de investimento interessante, que é o principal fator, a tendência será de firmação. Possuímos vários cenários no voleibol brasileiro, de equipes que foram criadas com aporte muito grande de verbas e já são top quatro no Brasil, bem como temos outras que iniciam com investimentos tidos como moderado, visando um trabalho de longo prazo e que depois conseguem se tornar campeãs nacional, ou até, campeãs do mundo como é o caso do Sada- Cruzeiro. Uma equipe que acompanhei todo processo de iniciação, eles sempre apresentaram um trabalho criterioso e organizado, que veio crescendo com passar dos anos até transformar o clube numa potencia mundial do voleibol. São duas vertentes de investimento, porém acredito bem mais nesse trabalho construtivo, passo a passo e de longo prazo, que gere não apenas resultados na quadra, mas também para o projeto, de modo que ele se reflita na sociedade e no ambiente, gerando novas oportunidades de emprego e uma continuidade de trabalho para as pessoas e atletas que ali estiverem inseridos.

Tem como esse grupo do RN mirar alguém no voleibol nacional para seguir o exemplo?
São referências, no passado já tivemos equipes que iniciaram com investimento mediano e cresceram mais rapidamente, outros grupos que iniciaram já com projeto muito forte e bastante investimento contratando atletas de Seleção Brasileira e estrangeiros conseguindo manter esse padrão. Então são processos que necessitam ser estudados de acordo com o nível desejado de recursos. A prosperidade para acontecer vai precisar de um trabalho criterioso e organizado, com controle de orçamento. Nessa equação tem de ser levada em consideração ainda o tempo em que se espera os resultados, com um investimento pequeno no vôlei, não se pode cobrar super resultados logo de cara. Neste caso é melhor nem iniciar, se a intenção for atropelar os processos. Volto a frisar que necessitamos de um trabalho criterioso, organizado e a longo prazo, pois no meu entendimento é aquele que gera resultado, se não logo no início, pelo menos ao longo do processo será o que vai garantir resultados mais sólidos. Esse será o grande legado que um projeto na área do voleibol pode deixar para uma cidade, um estado ou até mesmo para uma região do país. O voleibol nordestino e do Rio Grande do Norte não tiveram na história um representante que gerasse tanto impacto no cenário esportivo nacional. Então que esse momento seja agora, que esse projeto seja bem feito para que ele realmente gere o impacto no país e talvez no mundo nesta área do vôlei.

Se você tivesse a oportunidade de sugerir aos idealizadores do projeto da equipe potiguar, qual clube apontaria de modelo no Brasil?
Acredito de deveriam seguir o exemplo do Sada-Cruzeiro. Uma equipe com um projeto bem criterioso desde o início e bastante ambicioso também. Com o passar do tempo eles foram conseguindo injetar verbas, criando um orçamento muito maior que o projetado lá no início e que vem gerando grandes resultados. Hoje eles já possuem onze títulos mineiros, títulos nacionais e mundiais, então servem como referência pois tem muito valor, isso não se tira mais deles. Ali sim existe uma case de sucesso e que gerou grandes oportunidades não apenas para os atletas, mas para também para todas as pessoas envolvidas diretamente no projeto. Sem contar a alegria que isso traz para os torcedores e a sociedade, então isso não tem preço e assim acredito que seria um bom exemplo a ser seguido por quem se encontra em início de um processo. Modelos de sucesso geralmente não são apenas copiados, eles são copiados e melhorados.

Tem como se investir na criação de novos talentos num centro como o nosso, onde se existe complicações para se organizar campeonatos?
Qual é a dificuldade da organização de campeonatos, são os gestores, a iniciativa pública, privada? São pontos que hoje no universo da administração nacional do esporte se encontram muito soltas. É necessário que se haja um consenso, a união de forças para formatação de um objetivo em comum e não apenas um objetivo próprio. Somando forças e agregando valores a todos os projetos visando o crescimento de todo um seguimento é possível sim, em qualquer ambiente, se desenvolver o esporte de alto rendimento. O fundamental é gerar uma história e deixar um legado para as próximas gerações. As gerações não envolve só as pessoas que participam do projeto, mas sim aqueles que farão parte de uma organização maior, que farão parte da construção de algo de longo prazo. Tudo é possível neste campo, desde que haja um somatório de forças e interesses.

Nessa sua caminhada no esporte como o vôlei, deu.para conhecer muita gente que veio de projetos sociais. Que surgiram graças a projetos desenvolvidos em comunidades?
Conheci vários exemplos de atletas campeões que saíram de projetos de bairro, projetos sociais organizados por prefeituras. Exemplos como estes existem tanto no voleibol feminino quanto no masculino. As histórias no esporte acabam se misturando entre aqueles que tiveram um nível de conforto interessante oara se desenvolver e aqueles que foram resilientes, que comeram pão com ovo para poder crescer dentro do cenário esportivo e se estruturar. Existem história fantásticas, no voleibol nacional há a grande história do Sérgio Escadinha, que foi descoberto num projeto desse tipo, foi para seleção e acabou a carreira como o maior líbero da história do vôlei. A história de vida dele é realmente fantástica. Outros exemplos não chegaram a ter um sucesso esplendoroso, mas se organizaram e conseguiram construir uma vida de forma digna. Devido a isso o ambiente esportivo no país necessita ser melhor estruturado a nível educacional para que os nossos jovens consigam se desenvolver de uma maneira plena.

Tirando como base a sua história, que conseguiu chegar ao ponto máximo do esporte. O que é necessário para um atleta que está iniciando hoje, vencer no vôlei?
A primeira coisa é ele ter a crença, ele estando ciente de que tudo é possível e aliado a isso realizar o passo a passo bem organizado, sendo uma pessoa do bem, a tendência é que a evolução desse atleta seja positiva. Dependendo apenas dele para crescer esse seria o primeiro passo. Mas o atleta não chega ao.lugar desejado sozinho, ele necessita de uma estrutura, um ambiente positivo onde ele se sinta seguro e saudável, contando com pessoas gabaritadas para instrui-lo. A minha carreira foi pautada dessa maneira, posso dizer que fui privilegiado por sempre ter contado com um ambiente positivo para trabalhar. Fui auxiliado por pessoas muito gabaritadas e contei ainda com a presença e o apoio da família em todos os momentos. Tive poucos percalços na carreira, mas sei que esse não é o ambiente normal da maioria dos atletas. O jogador tem de buscar o equilíbrio desde o início para que a carreira possa se desenvolver da melhor maneira possível.

Com tantos anos de vôlei você já teve a oportunidade de trabalhar.com diversos treinadores, qual deles você aponta como o melhor?
Marcos Miranda foi o melhor treinador que tive a oportunidade de trabalhar. Porque demonstrou não apenas conhecimento metodológico do esporte, ele era uma grande pessoa. Através dele eu consegui entender o conceito de liderança, aprendi como uma pessoa pode potencializar uma equipe e o ser humano presente em cada jogador. Através dele pude ter o entendimento de um atleta num contexto pleno, assim consegui me desenvolver mais no aspecto de liderança, a ponto de me tornar sempre um capitão motivador e uma pessoa extremamente positiva e que não desiste nunca.