Rubens Lemos Filho
Matheus e outras histórias
Publicado: 00:00:00 - 15/12/2021 Atualizado: 21:16:51 - 14/12/2021
Rubens Lemos Filho 
rubinholemos@gmail.com

Estava à toa ao domingo e um amigo me visitou. Para mim, alegria em receber alguém que, durante quatro anos de convivência direta(2007/10), me proporcionou felicidades de banho de cachoeira. É impossível alguém deixar o corpo inerte a uma cachoeira e não achar a sensação, prova da existência de Deus. 

O domingo é silencioso e deserto por mais que a Netlix e os livros travem com ele um confronto pesado, cada um com seu fuzil 7.62 carregado, o domingo invadindo minha área existencial com lembranças tristes e as alternativas resistindo em confronto a céu aberto. Ganho e perco. É da precoce convicção crepuscular. 

Então Matheus veio me ver, lá de Fortaleza. Foi o melhor goleiro de futebol de salão do seu tempo. Seleção brasileira e ABC quando tomei conta da modalidade que ganhou 19 títulos em cinco anos, entre os quais o Hexacampeonato Potiguar, inédito, a Liga Nordeste, quatro Taças Brasil e tornou-se referência nacional. 

Quando em ação, elástico, frio, olhar glacial, Matheus fechava a trave. Defendeu um pênalti numa semifinal em Sergipe esticando o rosto à bola. Sangrou, mas superou o batedor. Era um tanto suicída  nos saltos arrojados, mergulhos temerários aos pés de atacantes bons de bola e de mau coração. 

Matheus foi chutado, pisoteado, kamikaze e campeão. Sua presença, como capitão do time, dava tranquilidade e aquele traço de macho fundamental aos times de massa.

O ABC, por seu responsável(eu), ergue estátuas ao vento para ele, posto que não vistas ou fixadas, passeiam por cada quadra onde ele honrou a camisa alvinegra e o esporte do Rio Grande do Norte. 

Quando o vi pela primeira vez, no Palácio dos Esportes, tinha 21 anos e ele 16, atuando pelo Cabo Branco(PB), ele paraibano de traços típicos: monossilábico, investigador do rosto interlocutor e solidário. O paraibano é amigo. Passado o cadastro de caráter.  Matheus saiu de atleta a parceiro. De verdade. 

Mesmo o projeto do ABC/ART & C implodido em 2010, ele jamais deixou de me dar notícias, de telefonar, de demonstrar a gratidão a quem o resgatou, parado e vítima das trairagens comuns ao seu meio e à vida real. Veio, viu e venceu como nenhum outro no ABC do qual tornou-se o jogador mais importante. 

Fechado, não se dispunha a chacrinhas, a grupinhos, não economizava em nojo às falsidades que presenciou. E seguiu seu rumo tendo em mim a honra de que  um homem me fora correto, me fora justo e agradecido, posto que o fim de qualquer coisa é o início da circulação do veneno da covardia. 

Batemos um longo papo. Por Matheus, soube que o futebol cearense é uma máquina milionária. Tem jogador no Ceará e no Fortaleza recebendo, por mês, a grana de 350 mil reais. “Tudo em dia, presidente”, pontuou Matheus, chamando-me do que sempre achou e do que jamais fui. “Por que ABC e América não vão lá dar uma olhada no modelo dos clubes do Ceará?”me perguntou. Não soube responder. 

De 2005 a 2010, o ABC de futebol de salão teve a camisa vestida(defendida eu não digo que por todos), por mais de 100 jogadores. Muitos, de outros Estados, a exemplo de Matheus, radicado desde novo em Fortaleza. A maioria, potiguar. Não revejo nenhum, raríssimos me telefonam, compreendo o imediatismo da espécie carnal. 

Mas ocorre que Matheus não tinha a mínima obrigação de me procurar. Veio a mim, com a camisa usada por ele quando parou de jogar, em 2019. Veio livre, por vontade espontânea. Contar do orgulho pela filha que vi menina, hoje advogada. Com a mulher, Júlia, tocando a representação comercial que têm. 

Ele, Matheus, certamente estranhou meus minutos de abstração. Ora olhava para a janela ensolarada e o vazio das ruas dominicais. Ora titubeava nas respostas, desacostumado de gesto igual ao dele. 

Matheus foi embora dez vezes mais meu amigo. E no pensamento, está  cimentada, indestrutível,  a verdade do quanto será desagradável   a mera perspectiva de rever outros  (de todas as modalidades da vida), que pareciam tão íntimos, quando as horas eram boas. E sumiram, risinho cretino. Canto de boca. 

Márcio 
Mossoró Agita a pré-temporada. Sabe muito no meio-campo e poderá comandar a ressurreição do América. Os 38 anos, a bola pode compensar correndo por ele. 

PC Márcio 
Mossoró tem um fã ilustre. Paulo Cézar Caju destaca seu futebol na biografia de sua carreira de gênio rebelde. PC é atestado de refino. 

Souza 
Aos poucos, o Presidente Souza vai impondo seu estilo firme e carimbado pela idolatria no América. Mandando. Só ele. 

A 10 
Sem gente em 2021, o ABC vem de Allan Dias e o canhoto Fábio Lima, ex-Campinense, como opções para a camisa 10. 

Estilos 
Allan, mais impetuoso e Fábio Lima, de apreciável cadência, bom no passe curto e longo. 

Do Equador 
Só a bola rolando dirá se o ABC acertou seu tiro de risco ao trazer o equatoriano Porozo. É rezar. 

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