Matheus Feitosa, da AEBA: "Temos prejuízo de R$ 100 milhões"

Publicação: 2020-08-09 00:00:00
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Ricardo Araújo
Editor de Economia

O mais tradicional endereço do comércio popular de Natal, o Bairro do Alecrim, sofreu um forte impacto financeiro com a pandemia do novo coronavírus. Estimativas iniciais apontam que R$ 100 milhões deixaram de circular nas lojas e camelôs instalados no local, segundo a Associação dos Empresários do Bairro do Alecrim (AEBA).

Créditos: Magnus NascimentoMatheus Feitosa, Vice-presidente da Associação dos Empresários do Bairro do AlecrimMatheus Feitosa, Vice-presidente da Associação dos Empresários do Bairro do Alecrim


Conforme o presidente da entidade, Matheus Feitosa, a expectativa é de mudança gradual do cenário, começando com as vendas voltadas para o Dia dos Pais, a primeira data comemorativa após a retomada gradual da economia. A comercialização de produtos diversos, porém, não será suficiente para sanar o rombo financeiro causado pelo novo coronavírus. A recomposição, segundo Matheus Feitosa, deverá consumir alguns anos.

Sobre esse e outros assuntos, ele falou à TRIBUNA DO NORTE. Confira na entrevista a seguir. 

Quais são as expectativas para os comerciantes do Alecrim a partir de agora, com a reabertura integral dos estabelecimentos comerciais no bairro?
A maioria dos lojistas já vinha trabalhando para que o comércio reabrisse da melhor forma possível. No período de junho e julho, conseguimos aproveitar alguma coisa para as vendas do São João, por causa dos eventos em casa, para as lives que tiveram pedidos que foram bastante aproveitados. O comércio se movimentou de alguma forma, não somente por meio dos serviços de entrega, das vendas virtuais, mas também com as vendas presenciais. Nesse mês de agosto, há uma boa aquecida nas vendas devido ao período do Dia dos Pais. Se aproveitou para se fazer promoções focando em não causar aglomerações, mas chamando atenção do cliente e mostrando que o estabelecimento está bem equipado com os equipamentos de proteção individual e cumprindo as regras que orientam os Decretos como a parte de utilização de máscaras, medição de temperatura, uso de álcool líquido ou em gel e também a questão dos colaboradores que estão bem orientados a como se comportar dentro dos estabelecimentos como também com os clientes. Há uma orientação de como fazer e manter o distanciamento: a gente orienta para que famílias inteiras não entrem nos estabelecimentos, mas somente uma pessoa de cada família. A gente pede que priorize, que somente vá às compras e pegue os produtos uma pessoa do grupo da família para evitar aglomerações, porque o que a gente vê tanto no bairro do Alecrim como nos shoppings, agora com a reabertura, é bastante gente circulando nas ruas, comprando, consumindo ou, às vezes, pesquisando ou passeando. A população, nos ajudando seguindo essas regras, o comércio tem uma tendência de se movimentar bem melhor. O lojista, além da preocupação do custo que já é normal do seu cotidiano de administração, do seu ponto comercial, seja uma equipe grande ou pequena, ele precisa estar preocupado com que tudo funciona na parte contábil, na parte de Recursos Humanos, o lojista agora tem uma preocupação extra com essa função extra para ele e para os demais, para fiscalizar o cumprimento das novas normas.

Em algum outro momento da história, o comércio local passou tanto tempo fechado?
Não. É algo que eu nunca tinha visto no Alecrim: o comércio fechado dessa forma. O comércio do Alecrim só fecha durante o Carnaval, Ano Novo e alguns feriados. E mesmo nesses feriados, a gente tenta viabilizar acordos com os Sindicatos para que o comércio funcione quando os feriados são numa quinta ou sexta-feira. Só, normalmente, quando é um feriado santo, é que o comércio não funciona, somente um depósito ou lojas de bebidas que funcionam nesse período. Essa pandemia e o fechamento do comércio são coisas incomuns, que nós nunca presenciamos antes. 

É possível calcular o valor aproximado do prejuízo acumulado pelos lojistas do Bairro do Alecrim desde que a pandemia foi decretada?
Nós temos, mais ou menos, um prejuízo na ordem dos R$ 100 milhões. Esse valor ainda é baixo. 

Como será possível resgatar esse valor? Quanto será necessário para que o Comércio recupere essa perda tão significativa?
Reaver essa quantia irá demorar alguns anos. Mas, percebemos, que alguns segmentos dentro do Alecrim quanto fora, não tiveram prejuízo. Tiveram acréscimo nas vendas, tiveram ganhos. Mesmo que fosse um volume pequeno, algumas empresas não tiveram prejuízo nesse período. E as que tiveram, elas estão tentando se reinventar quanto à fidelização de clientes, oferta de produtos em relação aos valores, fazendo promoções para que o estoque que estava guardado possa ser vendido respeitando os prazos de validade ou a durabilidade do produto. Nós temos percebido e conversado com alguns empresários que tinham pontos maiores e lojas maiores, que buscaram a redução disso. Eles se adaptaram a esse momento. A maioria das lojas do Alecrim não fechou, mas se adaptou. Os empresários conseguiram fazer com que elas funcionassem com serviços de entrega, pedidos via redes sociais, e também passando a aprimorar a venda através dos aplicativos da melhor forma possível. Se em qualquer outro período vier a acontecer algo parecido com a pandemia do coronavírus, o comércio não deverá sofrer da mesma forma. A recuperação é lenta, de forma gradativa. São muitos fatores que o empresário precisa prestar atenção. Os contratos que estavam suspensos, por exemplo, estão sendo retomados agora. É preciso fazer treinamento com o pessoal, colocar o maquinário que estava parado para funcionar, fazer manutenção na loja que permaneceu muito tempo fechada, entre outros. São inúmeros detalhes que irão fazer a diferença no momento de recuperação das vendas. O comércio precisa estar bem estruturado para receber os clientes nesse “novo normal”. O prejuízo está tentando ser vencido com a adaptação dos empresários.

Em relação ao crédito, o acesso foi fácil?
Esse é outro problema. Os lojistas estão tendo dificuldades em acessar financiamento ou recurso do governo federal ou estadual para conseguir se manter. A recuperação está ocorrendo a partir de agora pois as lojas começaram a vender mais.

Ocorreram muitas demissões no Alecrim?
Demissões, não. Ocorreram muitas suspensões de contrato e algumas pessoas que fazem parte do grupo de risco tiraram um período de licença. Não temos registros da ocorrência de grandes demissões. A gente conversa diariamente com os empresários e o que mais se falou foi nessa questão da suspensão dos contratos, que já estão sendo retomados, mas atentos, claro, às questões sanitárias. Trabalhadores em grupos de risco e os que preferiram ficar em casa ou mudar de ramo, foram atendidas.

Há um diálogo com os governos no sentido de ajuda ao empresariado do Alecrim?
Sim, nós criamos um canal de comunicação com o Governo do Estado e com a Prefeitura do Natal através do setor produtivo (AEBA, Fecomércio RN, Associação Viva o Centro, CDL Natal, Fiern, CDL Jovem) e abrimos um diálogo com a Agência de Fomento do Rio Grande do Norte para que a gente pudesse ter um assessoramento quanto ao crédito e também agilizar, junto ao governo federal, alguma liberação de crédito para cá. Também buscamos falar com os bancos, com o Banco do Nordeste, que apresenta melhores taxas de juros para capital de giro, mas também com outros bancos como o Banco do Brasil e Caixa Econômica Federal no sentido de facilitar a comunicação deles com os empresários e lojistas para melhorar o acesso ao crédito e segurar a situação. A Prefeitura do Natal, inclusive, cconcedeu mais prazo para pagamento de impostos e mudanças no transporte público. 

Quais são suas expectativas para o resto deste ano em relação às vendas?
O ano de 2020 praticamente acabou. A gente espera, para esses últimos quatro meses, o melhor em vendas para tentar cobrir, da melhor forma possível, os prejuízos. Se enfrenta uma nova dificuldade em relação aos fornecedores e fabricantes, que algumas empresas e lojistas estão necessitando comprar determinados produtos e não estão conseguindo suprir a demanda de pedidos. Isso dificulta, um pouco, na questão da gestão dos estoques. Alguns estão demorando meses e muitas fábricas não estão dando previsão de quando atenderão os pedidos.