Matrix Poética

Publicação: 2014-02-05 00:00:00 | Comentários: 0
A+ A-
Yuno Silva
Repórter

Colaborou: Cinthia Lopes
Editora

A primeira antologia brasileira de poemas criados sob a luz do conceito “pós-humano” será lançada hoje, com presença da potiguar Marize Castro que emplacou “Ode a Aurora”. Organizado pelo poeta e doutor em Letras pela USP Luiz Bras, o livro “Hiperconexões: realidade expandida” (Terracota Editora) reúne versos de 31 autores que aceitaram o desafio de “elaborar poeticamente a resposta possível à pergunta: de que maneira a ciência e a biotecnologia estão modificando fisicamente, para o bem e para o mal, o ser humano?”
DivulgaçãoInstalação apresenta a obra Hiperconexões: Realidade expandida, organizada por Luiz BrasInstalação apresenta a obra Hiperconexões: Realidade expandida, organizada por Luiz Bras

O questionamento, impregnado por simbologias futuristas e reflexões sobre a convergência entre tecnologia, humanidade e natureza, descortina pensamentos que indicam o fim do período de desenvolvimento social e técnico batizado de Humanismo: “A noção de ‘humano’ passa por profundas transformações, e os exercícios ainda incipientes de arte pós-humana, que vemos hoje em dia, problematizam essa revolução iminente”, analisa Luiz Bras. “Em termos formais, a antologia oferece um pouco da boa e tradicional poesia feita de versos, de linhas de texto dispostas na página branca. A novidade”, esclarece, “está no tema, porque raros são os poemas escritos no Brasil que tratam do pós-humano”.

Para o poeta e organizador do livro, a “revolução iminente” é materializada em laboratórios ao redor do mundo, onde pesquisadores buscam maneiras de prolongar a vida humana saudável através da engenharia genética, da nanotecnologia e do desenvolvimento de próteses eletrônicas capazes de ampliar nossos cinco sentidos e a inteligência. “Ainda neste século veremos algo inédito na história da humanidade; veremos a convergência geral de organismos e tecnologias, a ponto de se tornarem indistinguíveis”.

Considerando essa tendência, Bras lembra que “há muitos artistas de vanguarda, performáticos ou não, que estão usando a ciência e a tecnologia para criar obras de arte e de ciberarte. O cenário é amplo e o que vem sendo produzido ainda não é a arte pós-humana, mas chega bem perto”, garante. E é aí que entra a poesia.

O humano

A poetisa Marize Castro arrisca dizer que “talvez a essência de todos os poemas da antologia seja repensar o humano na pluralidade de suas dimensões – molecular, corporal, psíquica, social, antropológica, filosófica e estética”. Ela contou que quando recebeu o convite foi instigada a expressar a questão do pós-humanismo “em versos terríveis, apaixonados, políticos, desmistificadores, irônicos, ambíguos, imagéticos, escatológicos, arrebatadores, sub-reptícios ou aflitos”.

Luiz Bras não conhece Marize pessoalmente, mas disse que conhece “muito bem” sua poesia: “Tenho todos os seus livros. Fiquei feliz da vida quando ela topou participar. Pra mim é, e sempre será, importante ter autores do Brasil inteiro em meus projetos. Fiquei mais feliz ainda quando li o poema que ela me enviou, perfeito em todos os sentidos”, derrama-se. Os dois irão se encontrar pela primeira vez hoje, durante o lançamento do livro na Casa das Rosas, tradicional reduto literário de SP fincado na Av. Paulista.

Para formatar a antologia, o organizador convidou cerca de 60 poetas de todo o país, mas como “a compreensão do que é o pós-humano ainda é bastante restrita entre nós, muitos enviaram poemas que tratavam do Humanismo. Tive de recusar. Uns poucos agradeceram bastante, porém, por falta de intimidade com o tema, preferiram não participar do projeto”, frisou.

Confraria
Tema bastante comum na ficção científica em prosa, vista em obras de autores como Isaac Asimov (“Eu, Robô” e “O Homem Bicentenário”) e Robert Heinlein (“Tropas Estelares”), o ‘pós-humano’ alimenta a literatura mundial desde a década de 1950 em contos e romances. “Nos anos 1980 vieram os ficcionistas do movimento cyberpunk, e nos 1990 os autores do movimento new weird (de estranho, insólito e bizarro), que também se esbaldaram no pós-humano. Mas, na poesia, o tema quase não aparece”, informou Luiz Bras.

Apesar de toda a tecnologia citada, por ora “Hiperconexões: realidade expandida” sairá apenas em versão impressa. “A editora terracota providenciará o e-book”, disse o poeta. “Acredito que nos próximos 200 anos, o livro no formato tradicional não irá desaparecer totalmente, mas ficará restrito a um pequeno grupo de bibliófilos, a uma confraria de apaixonados”. Em breve o título, nas versões impressas e e-book, estará à venda no site da editora Terracota (terracotacultural.com.br). Por enquanto ainda não estão previstos outros lançamentos fora de São Paulo.

Serviço
“Hiperconexões: realidade expandida” (Terracota Editora, 96 páginas, R$ 25), vários autores – organização de Luiz Bras

Bate-papo - Marize Castro

Poetisa

Como surgiu o convite? Você já conhecia o trabalho do Luiz Bras?
Eu o conheço há alguns anos, pois o Luiz Bras é também o  talentoso Nelson de Oliveira (pseudônimo). Ele conheceu minha poesia a partir do livro “Esperado Ouro”, de 2005, e me escreveu dizendo: “Estes poemas são segredos delicados, porém angulosos: quinas que enfeitiçam. Se o leitor não toma cuidado, acaba ferido e encantado”. Percebi, então, que ele havia sido tocado por minha poesia. Desde então, não perdemos mais o contato, apesar de não conhecê-lo pessoalmente.

“Ode a Aurora”, seu poema na antologia, fala do/sobre o quê?
Fala sobre eternidade e finitude. Escrevi sobre a chegada de uma mítica Aurora que traz em sua nave coisas como nuvens suspensas, lençóis de neblinas, feixes de chips, dríades de nêutrons.

Você criou esse poema especialmente para o livro ou o texto é anterior?

O convite foi feito quando eu estava viajando. Quando cheguei, com a mente cheia de coisas que havia visto na viagem, aceitei e quase imediatamente escrevi. Mesmo sendo um poema feito a pedido, para mim foi essencial escrevê-lo.

Poema - Ode a Aurora
por Marize Castro

uma ária ao longe
anuncia a revoada
de robóticos
corvos

após elétrica tempestade
ela chega
voando

numa galáxia
de nardo

faísca por faísca
devolve aos homens
a mais antiga
verdade

traz consigo
(em sua nave-névoa
de sonho e aço)
sucos de frutas
velhos algoritmos
cósmicos oratórios
nuvens suspensas
lençóis de neblinas
feixes de chips
dríades de nêutrons

bondades
unguentos
catástrofes

arcaica-jovem
resplende
senhas
santuários
lama
lâmina

coragem
líquida-sólida
cai
inocente e sábia
sobre
a humanidade
disforme

não há escolha:
deitada (ainda nua)
laminada de rosa
grafita a esperança
na caverna-árvore

desvia-se
traspassa
céus
troca
de medula
pele
ânima
sexo

e retorna
ao vermelho
ao que arde
e morre



continuar lendo


Deixe seu comentário!

Comentários