Mautner lança sua bomba de estrelas no Flipipa

Publicação: 2015-08-11 00:00:00 | Comentários: 0
A+ A-
Yuno Silva
Repórter

Quando o ‘vampiro’ do Maracatu Atômico Jorge Mautner ganhou o palco do Flipipa no sábado (8), último dia do Festival, tratou logo de soltar sua bomba de estrelas – não por acaso  nome do álbum que o cantor e compositor carioca lançou em 1981 com participação de vários amigos. A expressão ‘metralhadora giratória’ seria pouco para enquadrar o encadeamento de ideias que Mautner costurou com seu jeito ‘kaótico’ de ser. Imagine, caro leitor incauto, como se você fosse atingido por uma bomba quântica-cultural-e-filosófica em forma de Jorge! Seus parceiros de mesa, o jornalista potiguar Mário Ivo Cavalcanti e o escritor pernambucano Marcelino Freire, só ouviam. Cada minuto era precioso, um mundo por trás de cada palavra.
Dionísio OutedaBomba de estrelas literáriasBomba de estrelas literárias

Para Jorge Mautner, que hipnotizou a todos, arrancando sorrisos e suspiros do público, Gilberto Freyre e Câmara Cascudo são os trilhos “dessa ferrovia Brasil”. Ponto de partida para seu jogo de palavras nada aleatório, apesar de à princípio parecerem: a velocidade de processamento de seus “neurônios saltitantes” não deixou brecha nem para a plateia piscar. Em frames Mautner saltava, com coerência, da Grécia Antiga para a América dos índios Tupi-Guarani. 

E seguiu tecendo sua colcha com a linha do infinito, emendando arte rupestre com filosofia, neurociência, repentistas e violeiros. Umbanda, “orixá-samurai”, Papa Francisco, nazismo e cavaleiros templários. Pré-sal, política, movimento Modernista, tropicalismo, impressora 3D, jurema e terrorismo...

Na vez de Marcelino Freire articular as primeiras palavras, antes dele pegar o microfone, as atrizes Paulinha Medeiros e Joanisa Prates avançaram no palco para um ‘assalto poético’ surpresa: recitaram o conto-nu-e-cru “Da Paz” (“A paz é uma bosta. Não fede nem cheira. A paz parece brincadeira. A paz é muito falsa. A paz é uma senhora. Que nunca olhou na minha cara”), um dos textos de Freire que ajudaram a dar forma ao espetáculo “Margem Ribeira”, da Bololô Cia Cênica.

“Escrevi esse conto sob encomenda para o jornal Estadão quando (em 2010) o PCC tomou conta de São Paulo”, explicou o autor ao restabelecer a posse do microfone. “Acharam o texto pesado, que era contra a paz, e não publicaram”, criticou.

Mário de Andrade
Antes de repassar a bola para um dos gurus do tropicalismo e da contracultura, Freire abriu um parêntese para defender o modernista, escritor e musicólogo Mário de Andrade, atacado pelo antropólogo baiano Antônio Risério. 

No dia anterior (sexta, 7), Risério chamou Andrade de “mulato filho da puta”: “Como assim chegar dizendo para a pajelança seguir como se ele (Mário) não estivesse ali?”, disparou. Cobrava, 70 anos após a morte do autor de Macunaíma, “mais respeito”, justificou o antropólogo.

“Deixa ele, deixa o Mário”, acrescentou Marcelino Freire, que repetiu a frase dita a um mês antes em Paraty durante a Flip: “Eu, homossexual, fico muito feliz com a homenagem ao escritor”, frisou, “o escritor Mário de Andrade”. Mas com Mautner ali ao lado, não foi muito longe: contou que conheceu o cantor e escritor aqui no RN, durante uma edição do Festival Literário de Natal – FLIN. “Depois de Natal dividi outras mesas literárias e já posso morrer dizendo que fui parceiro de Jorge Mautner”. E passou o bastão. 

Quando Jorge Mautner retomou, mais retalhos para sua teia: música, poesia, morte, chuva e ditadura Militar, exílio e tortura. Reservas mundiais de água, petróleo e nióbio. “O Brasil é o único país continente “inteiramente fértil”, ressaltou, e disse estar cansado de “explicar essas coisas, de neurônios saltitantes e o surrealismo do absurdo” em português, inglês, francês alemão.

“Ou entendem e o mundo vira um amálgama (de amor e respeito) ou está tudo acabado!”, sentenciou.


continuar lendo


Deixe seu comentário!

Comentários