Mecenato na música erudita

Publicação: 2017-04-26 00:00:00 | Comentários: 0
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Ramon Ribeiro
Repórter

Toda última quarta-feira do mês a Orquestra Sinfônica do RN (OSRN) se apresenta no Teatro Riachuelo e é quase sempre o mesmo cenário: casa lotada. A temporada 2017 do projeto “Quartas Clássicas” segue mais surpreendente, com esgotamento de ingressos minutos após a abertura da distribuição. Viabilizado pelas leis de incentivo fiscal municipal e estadual, além de patrocínio direto da Morada da Paz, o projeto “Quartas Clássicas” é a espinha dorsal da OSRN, que encontrou a receita para longevidade do grupo e dos espetáculos, apesar do desfalque histórico que a obriga a contratar músicos a cada apresentação – que gira em torno de 60 instrumentistas, sendo metade de efetivos.

Maestro Linus Lener no concerto “Quartas Clássicas”, que volta hoje ao Riachuelo. O espetáculo será o último com lote 100% gratuito
Maestro Linus Lener no concerto “Quartas Clássicas”, que volta hoje ao Riachuelo. O espetáculo será o último com lote 100% gratuito

A Orquestra agora planeja novos vôos. Primeiro, cobrar a entrada para as Quartas Clássicas, numa maneira de fidelizar o público e evitar contratempos na distribuição de ingressos, segundo, um show em homenagem a Elino Julião, terceiro, mais concertos, incluindo apresentações pelo interior, para as quais o grupo espera sinal verde do Governo do Estado.

Desde o final de 2012 à frente da Orquestra, o maestro gaúcho Linus Lerner explica que a cobrança será de um valor simbólico: R$ 10. “A cobrança tem o intuito de reforçar o compromisso do público em se fazer presente no dia da apresentação, já que é comum pessoas fazerem a reserva e não retirarem o ingresso, atrapalhando a logística”, diz, lembrando que também será oferecidos ao público um lote de ingressos gratuitos. A cobrança passa a valer somente para o concerto de maio. Os recursos serão usados para ajudar ainda mais nos custos da OSRN, que são altos.

“Estes concertos com convidados tem nível internacional. Poderiam ser apresentados em qualquer lugar do mundo. Mas a Orquestra não tem seu quadro completo. Para cada apresentação é preciso contratar músicos pagando cachês”, conta o maestro, que atualmente se divide entre Natal e Tucson, nos Estados Unidos, onde também rege uma orquestra.

Hoje a OSRN conta com 43 músicos efetivos, nem todos estão disponíveis, então em média, são contratados 27 novos músicos a cada concerto – a maioria da Escola de Música da UFRN, com alguns vindos de estados vizinhos. Além dos músicos, cada concerto conta com renomados solistas convidados, bancados com recursos do projeto. “Uma orquestra é cara. Mas mais caro é a falta dela. Não investindo na cultura, acaba se gastando com mais cadeias”, comenta o maestro.

Realizado numa parceria entre a Fundação José Augusto e a produtora Mapa Realizações Culturais, com  patrocínio da Morada da Paz e Cosern, por meio da Lei Câmara Cascudo do Governo do Estado, e da Unimed Natal, por meio da Lei Djalma Maranhão da Prefeitura Municipal de Natal, a Quartas Clássicas já tem boa parte de sua programação anual preparada. Em maio, o concerto terá como solista convidado um violinista coreano, em junho, em parceria com o Congresso Internacional de Trompistas, promovido pela UFRN, a apresentação contará com trompistas internacionais convidados. Ainda em junho, no dia 1º, no Teatro Riachuelo, a OSRN fará uma apresentação especial onde homenageará o potiguar Elino Julião. Para o restante do ano, ainda estão previstos concertos com sopranos latinas, em agosto, regências de maestros internacionais convidados, em setembro e outubro, concerto de música chinesa em novembro, com o retorno de Linus Lerner, e a Ópera de Natal, em dezembro. O maestro adianta que em dezembro pode ser oficializada a criação de uma Companhia de Ópera do RN. “É um desejo. Estamos amadurecendo a ideia e procurando a viabilização financeira do projeto”, diz Lerner.

Lerner também conta que espera o aval do Governo do Estado para iniciar uma turnê de apresentações pelo interior. A iniciativa descentralizaria os concertos na capital. “Precisamos da estrutura, um caminhão para logística, transporte, hospedagem e alimentação para os músicos”, diz.

Solistas americanas são convidadas
O concerto do Quartas Clássicas desta quarta-feira (26) conta com as solistas convidadas Christi Amonson (soprano) e Kristin Dauphinais (mezzo-soprano), ambas dos Estados Unidos. A apresentação acontece às 20h, no Teatro Riachuelo, com entrada gratuita. Apesar do primeiro lote estar esgotado, um novo lote com 300 ingressos será disponibilizado para o público a partir do meio dia, na bilheteria do teatro – para tanto, é preciso estar com o CPF cadastrado no site www.orquestrasinfonicadorn.com.br.

Soprano Christi Amonson é a convidada de hoje
Soprano Christi Amonson é a convidada de hoje

Segundo o maestro Linus Lerner, o público natalense é muito receptivo aos concertos acompanhados de cantos. “Vamos intercalar na apresentação árias de óperas e duetos”, conta. Dentre as convidadas, a soprano Christi Amonson  foi sua colega de doutorado na Faculdade de Música do Arizona, nos Estados Unidos. Já a mezzo-soprano Kristin Dauphinais é professora de estudos vocais da mesma faculdade. O maestro já tinha se apresentado com as duas em um concerto na China e aproveitou o contato para realizar a parceria em Natal. Essa é a primeira vez que as duas vem ao Brasil. Apesar da curta estadia na cidade, entre os ensaios as duas arranjaram tempo para visitar as praias e conhecer um pouco da cultura local, principalmente a comida. “Estou adorando conhecer pessoas novas e amando a comida daqui”, diz Amonson.

Números

R$ 60 mil é o custo extra por apresentação da Orquestra Sinfônica.

27 músicos é a média de profissionais contratados por fora – além de convidados e o cachê do maestro;

2 Leis de cultura (Lei Municipal Djalma Maranhão, Prefeitura, Unimed) e Lei estadual Câmara Cascudo, Cosern/Estado) e parceiro privado Morada da Paz custeiam a temporada;

43 são os músicos efetivos da Orquestra Sinfônica nos quadros da Fundação José Augusto;

10 minutos é o tempo médio  de duração do lote de ingressos pela Internet;

15 minutos é o tempo recorde para distribuição de ingressos na bilheteria.


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