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Mel de engenho
Publicado: 00:00:00 - 05/05/2013 Atualizado: 14:49:49 - 04/05/2013
José Arno Galvão - Advogado

Há alguns assuntos que se nos impõem pela insistência em serem lembrados. Algo assim como quando você acorda e, enquanto vai ao banheiro para a higiene matinal, dá-se conta de que está solfejando uma musiquinha de que há muito não se lembrava. Aliás, isso hoje aconteceu comigo e, quando menos esperava, estava cantando uma das Evocações do carnaval de Recife: “Cadê Mário Melo?...”

Há já alguns dias me vem a ideia de escrever sobre o mel de engenho, recordando aqueles latões de vinte litros que seu Miguel Mollick Italiano mandava religiosamente todos os anos para meu pai. Produto de seu engenho no Piáu, o latão cheio, fechado com um pedaço de cana o local onde fora praticada uma abertura para permitir o esvaziamento e a limpeza. Seu filho José disse-me ter desmontado o engenho e acondicionado as peças para evitar a deterioração.

 Naquele tempo, o querosene, que tinha múltiplas indicações na vida diária, indo do fogão residencial, onde substituía o carvão, até as caldeiras dos engenhos, entre os quais o de.Seu Miguel, a respeito de quem Hèlio Galvão falou em uma de suas “Cartas da Praia”, indagando sobre sua origem, com um sobrenome tão diferente dos em uso entre nós.

Havia ainda uma utilidade para os latões vazios de querosene. Os donos de postos de gasolina do interior, procuravam um ganho extra e, para isso, recusavam acionar a bomba que iria permitir abastecer diretamente os veículos, preferindo vender os latões previamente abastecidos por eles, com um sobrepreço de causar inveja. Reclamar a quem?

Mas o assunto é o mel, aquele produto derivado do caldo de cana, na fase imediatamente anterior à cristalização. Puro, misturado com farinha de mandioca, ou acompanhando a batata doce, o inhame, a macaxeira, ou frutas como a banana, ou, ainda, um bom pedaço de queijo de coalho devidamente assado, constitui excelente sobremesa.

Sua consistência, um tanto grossa e aderente a tudo que lhe chegue perto, levou ao ditado: quem nunca comeu mel, quando como se lambuza. Já o exercício de equilíbrio entre a gula e o auto-controle, gerou uma outra expressão, explicada pelo fato de que há um ponto ideal na mistura mel – farinha. Quando a gente não conseguia deixar como queria, alguém soltava logo: Bota mel, boa farinha..

Embora hoje não sinta muito entusiasmo com alimentos doces, naquele tempo não enjeitava nenhum. Quando tinha mel lá em casa, era consumido quase diariamente sob as várias formas, inclusive a de garapa, quando era misturado com água. E ainda dava-me ao trabalho de acompanhar o progresso do esvaziamento do latão, para aproveitar o açúcar bruto que resultava.

Sim, pois ao lado do mel de engenho, de que a rapadura é subproduto, havia ainda o açúcar bruto, que hoje ganhou nome importante, açúcar mascavo. Quando menino, gostava de sentir os torrões desfazendo-se em contato com a saliva. Mas, é melhor parar, se não vou terminar diabético.

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