Memória curta

Publicação: 2019-09-07 00:00:00 | Comentários: 0
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Manoel Onofre Jr.
Sócio do IHGRN

Em seu livro “Natal que Eu Vi”, Lauro Pinto refere-se aos logradouros de Natal nos anos 20 e 30, e diz, com nostalgia:

"Na Ribeira existiu – porque hoje só encontramos um grosseiro arremedo – o mais belo e encantador jardim da cidade, uma verdadeira obra-prima de arte e bom gosto. Natal jamais terá outro igual."

E acrescenta:

“Era um grande éden que tomava toda a Praça Augusto Severo em forma circular, muitas árvores, canteiros floridos e bem tratados."

Eu ainda alcancei uma pontezinha que saltava, com graça, sobre um pequeno riacho ali existente até os anos 60, se não me falha a memória.

A um lado da Praça, junto ao monumento erguido em honra do aeronauta pioneiro, foram construídos dois prédios de indiscutível valor artístico: o Teatro "Carlos Gomes", atual "Alberto Maranhão", aliás, reconstruído, e o Grupo Escolar "Augusto Severo", projetos do engenheiro Herculano Ramos. Em suas fachadas destacam-se esculturas em bronze e outros elementos decorativos em ferro fundido, de procedência francesa, obras admiráveis.

Educandário-modelo, o Grupo Escolar “Augusto Severo" foi criado por decreto do Governo Antonio de Souza, e inaugurado pelo Governador Alberto Maranhão, em 1908. Anos depois, o prédio sediou a Faculdade de Direito de Natal. Fatos memoráveis ocorreram ali, em várias épocas. Gerações e gerações de norte-rio-grandenses passaram pelos seus corredores e salas, cujas paredes guardam as vozes dos mestres: Nestor Lima, Otto Guerra, Edgar Barbosa, Câmara Cascudo, Raimundo Nonato Fernandes, Floriano Cavalcanti, José Gomes da Costa, Alvamar Furtado, Américo de Oliveira Costa e tantos mais.

Como se pode ver, tanto o Teatro "Alberto Maranhão", já decantado em prosa e verso quanto o Grupo Escolar, depois Faculdade, constituem monumentos arquitetônicos da maior importância para a cidade de Natal. Na verdade, são relíquias do nosso patrimônio histórico e artístico – se me permitem a expressão gasta, mas verdadeira.

Infelizmente - dói dizer - o velho edifício do Grupo Escolar encontra-se em estado lamentável: abandonado, quase em ruínas, serve de refúgio para marginais. Triste destinação! Cadê os órgãos públicos responsáveis pela sua conservação? Por que nada fizeram até agora? Um fato destes nos enche de vergonha a todos nós, cidadãos natalenses.

Salvem o histórico e belo edifício, antes que seja tarde.

Da belíssima praça descrita por Lauro Pinto, pouco resta, hoje em dia, afora o teatro e o antigo grupo escolar. A Prefeitura Municipal, sob a administração de Djalma Maranhão, construiu em uma das áreas a Estação Rodoviária (atual Museu de Arte Popular), edifício pretensamente moderno. Como se não bastasse, levantou-se, dentro dos muros do Colégio Salesiano, um enorme Ginásio de Esportes, para enfear ainda mais a paisagem.

Quanto descaso para com a memória da cidade!




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