Memória fotográfica do levante de 1935

Publicação: 2017-08-04 00:00:00 | Comentários: 0
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Ramon Ribeiro
Repórter

Dalila Santa Rosa Galvão encontrou o pai João Batista Galvão preso na Casa de Detenção de Natal – atual Centro de Turismo. O ano era 1935, Dalila tinha três anos de idade e não fazia a menor ideia do que estava acontecendo. Subiu nas grades da cela e abraçou o pai com força. Vamos embora, papai – ela disse. João Batista desconversou falando que iria depois. Então eu também fico – ela continuou.

A cela estava lotada de presos. Um dos homens, sensível a cena, deu um chocolate para Dalila assegurando-lhe que no dia seguinte ela poderia voltar. Com a ingenuidade típica da idade, ela aceitou a recomendação e partiu pra casa com a mãe, Maria Amália Nóbrega Santa Rosa Galvão. Seu pai, por outro lado, iniciava ali um calvário de tortura e perseguição por ter sido um dos líderes do Levante Comunista de 1935, movimento que por quatro dias instaurou em Natal o primeiro governo comunista das Américas.

Dona de memória invejável aos 84 anos, Dalila Santa Rosa Galvão tem recordação cheia de detalhes dos lugares, pessoas e ações de um tempo remoto da história potiguar
Dona de memória invejável aos 84 anos, Dalila Santa Rosa Galvão tem recordação cheia de detalhes dos lugares, pessoas e ações de um tempo remoto da história potiguar

O episódio, verídico, é uma das memórias que Dalila narra em “Quando Papai Chegar”, livro que joga luz sobre um episódio único na história de Natal – e pouco comentado. É com o olhar de filha que ela toca nessa história, a partir do que sua família vivenciou com a perseguição ao pai. A obra tem edição de Aluízio Azevedo Jr e inaugura o selo editorial do seu novo espaço cultural Unilivreira (antiga Livraria Nobel, na Avenida Salgado Filho, 1782, Tirol). É na Unilivreira que será realizado o lançamento do livro, no próximo sábado (5), a partir das 15h, com a presença da autora.

Nascida em Acari e descendente de importantes famílias do Seridó, Dalila sofreu preconceito durante décadas, lidou com perseguições e medos, foi testemunha dos efeitos da tortura do pai, viveu a angústia da saudade paterna. Tantos sentimentos ficaram guardados em seu peito por toda uma vida. “Essas lembranças sempre foram muito fortes e presentes em mim”, conta a autora de 85 anos em entrevista ao VIVER. “Meu marido um dia disse que eu deveria botar essa história pra fora para me ver livre dela. Foi o que fiz. E sinto que tirei esse peso do coração”.

O livro começou a ser escrito em São Paulo – onde Dalila vive desde 1951. Por desejar que a linguagem tivesse um aspecto mais potiguar, ela veio a Natal para concluir a obra. “Eu tinha um editor em São Paulo, mas ele estava dando uma cara mais paulista que potiguar ao livro. Em Natal encontrei o Aluízio, que deu o devido sotaque daqui à narrativa”, conta a autora. O título da publicação faz alusão a uma frase bastante repetida na sua infância. “Quando criança, eu meus irmãos queríamos sair, brincar, ir nas festas, à praia. Mamãe sempre dizia que só quando papai chegasse. Nunca esqueci dessa frase”.

Uma das raras cenas: o quartel metralhado durante o Levante de 1935. Hoje, o local abriga a Casa do Estudante
Uma das raras cenas: o quartel metralhado durante o Levante de 1935. Hoje, o local abriga a Casa do Estudante

As recordações da autora impressionam por serem repletas de detalhes para alguém que presenciou fatos marcantes com tão pouca idade. Segundo o editor Aluízio Azevedo Jr, as memórias de criança da autora são capazes de retratar um mundo adulto, “às vezes violento, duro, injusto, mas revela a singeleza de sua esperança”.

Apesar de conduzido pela saga familiar, o livro também traça o cenário de uma Natal e uma Acari dos anos 30 e 40. Por exemplo, há capítulos sobre a passagem do dirigível Hindenburg sobre os céus da capital potiguar e, durante a 2ª

Guerra Mundial, os blackouts em Natal. Além dessas lembranças, há também informações adicionais, dadas pelo editor.

João Batista Galvão
Nascido em Mossoró, surpreende João Batista Galvão ter enveredado pelo comunismo, tendo em vista que era filho de uma família tradicional e casado com Maria Amália Nóbrega Santa Rosa Galvão, também de família importante do RN. Em Natal, João Batista foi um dos cabeças do movimento que tomou o governo potiguar em Natal, chegando a assumir o posto de “primeiro ministro” no “Comitê Popular Revolucionário", montado para administrar o Estado.

Depois de quatro dias de comando comunista em Natal, o movimento foi dissolvido pelas tropas do Exército, junto com policiais de estados vizinhos invadiram o RN para restabelecer a ordem. Antes de ser preso, João Batista informou a esposa para partir com os filhos para a Fazenda Fortaleza, da família, em Acari. “Lembro que à noite era tudo escuro, mas eu a gente via pela ponta dos cigarros acesos que tinham policiais rondando a casa atrás de pistas de papai”, conta Dalila.

Preso na Casa de Detenção, o comunista foi torturado, chegando a ser levado para o Hospital Miguel Couto – hoje Onofre Lopes – para receber cuidados médicos. Dalila lembra do dia que encontrou o pai com as marcas da tortura no corpo se recuperando no hospital. “Ele cantava para mim, tenta me ensinar algumas palavras com poesias simples”, recorda a autora.

“Na época os presos políticos ficavam misturados com os comuns. Depois fiquei sabendo que um matador que dividia a cela com meu pai, vendo o estado deplorável dele, não permitiu que o levassem para mais outra sessão de tortura”, diz Dalila, que em seu retorno a Natal para concluir o livro, chegou a fazer uma visita ao Centro de Turismo, antiga Casa de Detenção, e viu que onde era a cela de seu pai hoje é um restaurante. “Sou cara de pau e sentei para tomar um café. Vi que dá para ver o mar de lá. Antes tinha um muro”.

A prisão de João Batista durou quase dois anos e se encerrou com a anistia dada por Getúlio Vargas. O comunista então foi para Acari rever a família, mas já preparado para partir em fuga, porque desconfiava que a anistia seria revogada, o que chegou a acontecer. Juntando a prisão e o período em que ficou foragido, foram 11 anos, quando enfim foi dada a anistia. “Durante esse tempo fui treinada para nunca falar do meu pai, sobre seu exílio. Eu fica apreensiva, queria vê-lo e não podia, ao mesmo tempo que temia que ele fosse pego. Essa ansiedade deve ter passado para minha personalidade”, comenta.

Anistiado, João Batista começou sua nova vida. Forma-se em Direto, torna-se jurista, chegando a ser homenageado pela OAB-RN, conta Dalila. “De volta do exílio papai encontra os filhos adolescentes. A convivência não foi tão simples. Depois me tornei evangélica, ele não gostou, ficou cinco anos sem falar comigo. Mas depois encontramos um jeito de lidar um com o outro”.

Segundo Aluízio Azevedo Jr, as memórias de Dalila tem um valor histórico e ajudam a esclarecer alguns equívocos repetidos ao longo do tempo. “As pessoas falam que o movimento era de pessoas que não sabiam o que estavam fazendo. Há muita deturpação nessa história. Dá para ver que os envolvidos tinham instrução, não eram treinados para a guerra, mas fizeram algo planejado. O problema é que foi o movimento foi deflagrado na hora errada e não houve ninguém para ajudar”, avalia o editor.



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