Memória fotográfica pelos engenhos e sertões

Publicação: 2018-05-06 00:00:00 | Comentários: 0
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Ramon Ribeiro
Repórter

Em 1928 o escritor Mário de Andrade desembarcava em solo potiguar dentro de uma excursão que fazia pelo Nordeste. Na visita ao RN ele passou dez dias no Engenho Bom Jardim, em Goianinha. Foi nesta estadia que o escritor conheceu Chico Antônio, embolador, coqueiro e cantador potiguar. Quase noventa anos depois desse encontro – ocorrido em janeiro de 1929 –, um dos herdeiros do engenho, o maquiador de cinema e artista visual Amaro Bezerra, 69, dimensiona o impacto do contato desse ilustre hóspede com a família.

Amaro Bezerra, maquiador de cinema e artista visual
Amaro Bezerra, maquiador de cinema e artista visual

“Imagina naquela época você receber em casa um intelectual do porte de Mário de Andrade, ele chegando numa província como Natal, numa fazenda em Goianinha. A visita dele foi um marco cultural para o RN. Mas ele também ficou impactado com o que viu aqui. Tanto que chegou a escrever vários livros sobre a passagem pelo RN”, diz Amaro em entrevista a TRIBUNA DO NORTE.

O maquiador também relembra outros episódios vividos na centenária Fazenda Bom Jardim, um lugar tão rico em história mas que vê algumas dessas memórias se desfazendo em ruínas. Como não poderia faltar, a conversa enveredou para o cinema, campo que Amaro correu solto. No seu currículo há trabalhos em filmes internacionais, nacionais e locais, como o misterioso longa “Boi de Prata”, de Augusto Ribeiro Júnior, que ganhará uma homenagem no festival Goiamum Audiovisual pelos seus 40 anos completados em 2018.

Fazenda Bom Jardim
Era um engenho típico de açúcar, que produzia rapadura e a cachaça Sucurú. Também tinha plantio de algodão e meu pai criava gado. A fazenda já era e ainda é muito bonita. Tem construções de três gerações diferentes. A casa do meu bisavô, do meu avô e do meu pai. O engenho em ruínas. O casarão onde Mário de Andrade ficou hospedado também.

A engorda nas férias
Todas as férias de dezembro e de meio do ano a gente passava na fazenda. A família toda estava presente, irmãos, primos. Meu pai pesava a gente no começo das férias e depois quando retornávamos para Natal. Ele pesava a gente nas balanças de pesar algodão. Era o regime de engorda. Lembro da mesa farta, lembro de tomar leite cru, caldo de cana, e tudo era cultivado e produzido na própria fazenda. Papai trazia muitos grupos folclóricos para se apresentar para a família. Bumba Meu Boi, Caboclinhos, os cantadores. A região tem essa riqueza cultural. Isso era entre os anos 50 e 60. Foi uma época muito animada.

Fazenda Bom Jardim foi cenário da infância de Amaro Bezerra, época de alegria e “engorda”
Fazenda Bom Jardim foi cenário da infância de Amaro Bezerra, época de alegria e “engorda”

O hóspede ilustre
Foi meu tio que trouxe ele, então o convidado foi muito bem recebido. Era uma pessoa muito agradável. As histórias que nos contaram na família é que o Mário era uma pessoa muito impressionante, era alto, mulato, tinha muitos perfumes, loção pós-barba, era uma pessoa muito vaidosa.

Pauta para Chico Antônio
Ele pediu a tio Antônio para providenciar um piano porque ele queria passar os côcos de Chico Antônio para a pauta. E meu tio mandou buscar esse piano, que veio num carro de boi. São os únicos registros em pauta da música de Chico Antônio. Foi Mário de Andrade que fez.

O impacto da visita de Mário
Os dez dias que Mário de Andrade ficou na fazenda rendeu um livro sobre Chico Antônio e o “Turista Aprendiz”, seu diário sobre a viagem. O “Turista Aprendiz” foi traduzido em outros idiomas, traz imagens da fazenda. Ele imortalizou a nossa propriedade. Por conta dessa passagem dele pela fazenda já recebemos pesquisadores de sua obra, recebemos também o cineasta Eduardo Escorel que estava produzindo um documentário sobre Chico Antônio.

O teatro de Jesiel Figueiredo
A minha relação com a arte começou exatamente em 1964, numa festa de fim de ano do Salesiano, quando apresentei uma esquete de fantoches no Teatro Alberto Maranhão. O (teatrólogo) Jesiel Figueiredo estava na plateia e assistiu tudo. Depois dessa apresentação ele me convidou para fazer teatro. Eu tinha 14 anos. Meu pai não aprovou. Mas eu bati o pé e fiz teatro com Jesiel até 1974. Fui ator, nos apresentamos pelo Brasil. Sou muito grato a Jesiel porque foi ele que abriu a porta das artes para mim.

A arte da maquiagem
Como eu gostava de fazer maquiagem no teatro, fui tirar uma graninha como maquiador na TV-U. Até que apareceu por lá o Augusto Ribeiro Júnior, me convidando para trabalhar no filme Boi de Prata. Foi a primeira vez que fiz cinema. Isso já tem quarenta anos.

Boi de Prata
Fazer o Boi de Prata foi um encantamento. Já comecei a fazer cinema justo com Luiza Maranhão, a atriz fetiche do Cinema Novo. O filme mexia com o fantástico nordestino. O trabalho de maquiagem do boi ficou muito bonito. Ele tem uma aparição todo maquiado. Boi de Prata é um filme muito atual, fala de reforma agrária, dos sem-terras. O filme foi boicotado na época. A gente estava no Regime Militar e por causa da temática engavetaram o filme na Embrafilme. Nem chegou a ser lançado. O diretor já morreu, o Lenício Queiroga e a Luiza Maranhão também não estão mais vivos. O Waltinho Carvalho ainda está por aí. Esse foi o primeiro filme que ele assinou a fotografia.

A carreira no cinema
Depois do primeiro filme, decidi continuar no cinema. Fui fazer curso de maquiagem pra cinema na França. Na volta ao Brasil, fiquei no Rio de Janeiro e desenvolvi minha carreira de maquiador de cinema na cidade. Era os anos 80, trabalhei com Caca Diegues, Tizuka Yamasaki, Zelito Viana. “Trem para as Estrelas” foi algo bem marcante. Foi o último trabalho do Cazuza. A trilha era dele e do Gilberto Gil. Fiz também o “Dias Melhores Virão”. Esses dois do Cacá Diegues.

O trabalho mais difícil
“Avaeté – semente de vingança”, do Zelito Viana, pai do Marcos Palmeira. É um filme muito interessante, sobre um massacre de índios no Mato Grosso. Esse filme me exigiu muito. Tinha cena com barriga explodida, perna amputada. Também fiz um filme com o Rosemberg Cariry, se chama “Siri-Ará”, exigiu bastante maquiagem.

Fazer cinema no RN
No Rio Grande do Norte eu só fiz os longas “Boi de Prata”, de Augusto Ribeiro Júnior, e “O Homem Que Desafiou o Diabo”, de Moacyr Góes, além dos curtas recentes “Verde Limão”, de Henrique Arruda, e “Enquanto o Sol se põe”, de Márcia Lohss. Fico honrado de trabalhar com esse sangue novo. Já estou saindo de cena, quero passar o que aprendi para as futuras gerações tudo que aprendi nesses anos de trabalho no cinema. Fazer filme é uma coisa muito cansativa. Na área de maquiagem tem que estar do início ao fim das filmagens. Enquanto tiver ator em cena eu tinha que está presente para corrigir a maquiagem, limpar suor, refazer se for possível. Eu nunca imaginei fazer cinema, mas fiz. Agora está na hora de passar pra frente.

As referências da infância
O que vive na Fazenda Bom Jardim me serviu para o trabalho que desenvolvi na arte. Essa coisa da representação vem das apresentações folclóricas que a gente assistia na fazenda. Aquelas danças populares não deixam de ser pequenas operetas. O Boi Calemba, a Nau Catarineta, o Pastoril, o Caboclinho, todos contam uma história, cantando e dançando.


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