Memória na moldura

Publicação: 2019-09-22 00:00:00 | Comentários: 0
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Setembro segue fértil no fazer literário nesta aldeia de Poti mais ou menos lida, apesar de sua mais importante biblioteca pública continuar fechada há mais de seis anos, que também é uma desfeita ao seu patrono, Luís da Câmara Cascudo, a maior figura de nossas letras. Tudo leva a crer que nas rodas oficiais o tempo de leitura é dedicado apenas aos decretos e portarias. Basta conferir a intensa operosidade inventiva das assessorias de imprensa ou coisas que tais.  Este mês já tivemos por aqui vários lançamentos de livros (ontem, dois no Sebo Vermelho: Alma e Poesia do Litoral do Nordeste, de Eloy de Souza, e Diário de um soldado da Companhia das Índias, de Ambrósio Richshoffer; são reedições) também eventos literários pelo interior programadas em escolas públicas e particulares. A literatura está em todas as partes como estão os sertões de Guimarães Rosa e Oswaldo Lamartine de Faria.

Quinta-feira houve na Academia Norte-Rio-Grandense de Letras o lançamento do novo livro de Racine Santos. ... de susto, de bala ou vício.... O autor -  de nossos bons dramaturgos e jogando também no romance -, por sinal, é candidato à imortalidade da ANRN na vaga do grande Lenine Pinto. A Academia continua viva e se prepara para celebrar, agora em novembro, o centenário de nascimento de Oswaldo Lamartine de Faria, figura maior. Tem reunião amanhã, coisa das 10 horas.

Esta semana, quinta-feira, 26, consagrado a São Cosme e São Damião, teremos o lançamento de mais um livro de Berilo de Castro, Memória Emoldurada, que sai com o selo da Offset Editora. São crônicas, o autor flanando pelo futebol (de Jorginho a Alberi passando por Biró e Saquinho), pela música (de Glorinha Oliveira a K-Ximbinho, passando por Ademilde Fonseca, Noel Rosa e Cartola) e também pelos bares de Natal com seus personagens exemplares. Entre uma história e outra, envereda pela Medicina, ofício do qual é doutor.

A orelha do livro é de Carlos Gomes e o prefácio de Tarcísio Gurgel. Às folhas tantas Tarcísio escreveu: “Memória Emoldurada” é livro para ser lido numa boa rede. De preferência na manhã de algum domingo, à espera da convocação para o almoço. Se possível (e é bem possível que seja peixe), precedido de uma cachacinha digna e um caldinho feito om a cabeça do pescado”.

Já a contracapa é ocupada por Alex Nascimento. Destaco algumas passagens do que escreveu o bardo de Lagoa Seca, começado pelo começo:

“Ana Maria, Berilo, dois filhos, seis netos e Jorginho. Nessa seleção tá explicado por que Berilo era tão bom de bola. Ele só não gostava era de jogar contra Jorginho, de quem ele mesmo diz: ‘Ali sabia de tudo da pelota’. Era seu ídolo”

“Berilo trata de tudo que e rim, mas é muito bom. Tem um sorriso de menino sem-vergonha e tem charme. Mais do que Ojuara e menos que Alain Delon, de quem não perdia um filme, isso pra ver Romy Schneider. Pra comer mesmo, era o cachorro-quente na saída do cinema, em pão francês cortado em perpendicular ao bom senso. ”

“Nosso craque dá passes precisíssimos na Música brasileira que e quando existia. Toma banhando cantado, tenta imitar Sinatra, com quem nunca derrubou uns 12 anos pelos bares de Chicago ou Caicó. Com este quinto livro, embarca mais uma vez no mundo prostibular dos intelectuais. Talvez Nei (irmão) escreva melhor, só que Berilo tem o cabelo mais bonito – isso, em literatura conta pontos pro Oscar, pro Nobel e pra Fórmula 1. ”

O Granada de Nemesio  O lançamento de Memória Emoldurada será no Restaurante Don Nemesio (avenida Rodrigues Alves, Petrópolis), a partir das 18 horas. Na abertura do livro, que é dedicado ao poeta e escritor Nei Leandro de Castro, seu irmão, Berilo presta uma homenagem póstuma a Nemesio Morquecho, espanhol que aqui chegou no começo dos anos de 1950 para fundar um dos mais famosos bares de Natal, o Granada, instalado na avenida Rio Branco, a poucos metros do cinema Rex que também não existe mais. Depois mudou-se para Petrópolis, agora sob o comando do filho Pio Morquecho, bom herdeiro. É mais restaurante do que bar. Mas com o mesmo charme de antigamente. Berilo escreve assim:

“Nemesio Morquecho Marina (Don Nemesio – 1924/2010). Espanhol de Pancorbo (Burgos). Adotou Natal no ano de 1951. Se estabeleceu comercialmente no ano de 1954, na avenida Rio Branco, 721, com a sua casa de bons vinhos, requintada gastronomia e bons papos: o Granada Bar. Logo, logo soube cativar, abraçar e se irmanar com seus clientes. Marcou época em seu ninho boêmio, com os costumeiros encontros de escritores e poetas, cultuando Natal e recitando Lorca. Funcionou até o ano de 1976. Deixou saudade. ”

O Granada de Nei

Dia desses Carlos Castilho, personagem de uma das crônicas (“O astro rei”) do livro de Berilo e que tinha cadeira cativa no Granada, passando pelo Barro Vermelho me entregou uns recortes de revistas, jornais, fotografias de cinco, seis décadas atrás. No meio desses papeis preciosos uma crônica de Nei Leandro de Castro com o título “Nemesio Morquecho”. Castilho colou à crônica (que está sem data) uma foto da fachada do Granada com esta legenda: “No Granada, todos os sonhos de um passado de alegria e dores existenciais”.

Transcrevo   trechos da crônica: 

“Não sei quando o bar de Nemesio Morquecho Marina foi inaugurado, só sei que eu o inaugurei aos 17 anos, ao lado de Luís Carlos Guimarães, que já havia sido seduzido pelo espanhol que amava Granada, Lorca e conhaque. A entrada do bar era um longo e estreito corredor e lá dentro o espaço se alargava para abrigar a maioria das mesas. A partir da estreia nas noites granadinas, também senti seduzido pelo clima do bar mais charmoso de toda a história da boemia do Rio Grande do Norte”.

“Nemesio recitava em espanhol, apresentava autores espanhóis aos jovens poetas que frequentavam o seu território etilírico”.

“Numa mesa à direita de quem entrava, o poeta Berilo Wanderley e sua musa Maria Emília estavam sempre juntinhos, mesmo depois de casados, trocando juras de amor. Newton Navarro bebia todas, pedia mais e continua bebendo, iluminado pela chama do seu talento. Castilho sonhava em ser goleiro da seleção brasileira, logo depois trocava esse sonho por algumas doses de rum com Coca-Cola. Numa madrugada, Woden Madruga recitou todas as falas de Julieta de Shakespeare. Sanderson Negreiros, que havia trocado o seminário pela poesia, sonhava ser contrabandistas de armas em Ogaden, à maneira de um poeta que lhe aparecia em sonhos todas as noites.  Luís Carlos Guimarães se dizia, modestamente, um aprendiz de poesia, mas já espantava pelo seu lirismo e pela extraordinária capacidade de beber. ”

“Por trás do balcão, comandando garçons e preparando drinques, Nemesio exercia sua profissão com prazer, muito prazer. De vez em quando, bebia um gol discretamente e recitava um poema de Garcia Lorca, em voz baixa, só para os eleitos ou ouvidos muito apurados. ”

Mais memória  Anote em sua agenda: agora em outubro, ainda sem dia marcado, teremos o lançamento do quinto livro de memórias de Eider Furtado: Retalhos da Vida. O autor, jornalista, músico, escritor e advogado, é o maior memorialista potiguar. Tudo começou em 2004 quando publicou “Audiência de um tempo perdido”, seguido de “No fórum da memória”, “Nas veredas do tempo” e “Meio século de memória”. Eider chega aos 95 anos de idade. Uma beleza de vida.

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