Memória pouco preservada no RN

Publicação: 2015-01-04 00:00:00 | Comentários: 0
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A sociedade natalense fez doações de plantas, como palmeiras imperiais e oitizeiros, para ornar a Praça Augusto Severo, que começou a ser construída em 1904, no governo de Augusto Tavares de Lyra, também macaibense e genro de Pedro Velho (irmão de Augusto Severo). Em 1913, a praça ganhou uma estátua de bronze do inventor potiguar, inaugurada no dia de sua morte.

O imponente monumento continua até hoje no mesmo local, na Ribeira, arrodeado pelo centenário Teatro Alberto Maranhão, o Museu de Cultura Popular Djalma Maranhão, o prédio do antigo Grupo Escolar Augusto Severo e o Palacete Cel. Juvino Barreto, onde atualmente é o Colégio Salesiano São José.
Joana LimaObjetos guardados no Instituto Pró-Memória em MacaíbaObjetos guardados no Instituto Pró-Memória em Macaíba

A praça, porém, sofre com o abandono e a ação de vândalos. A estátua encontra-se toda pichada. A placa em bronze, com as informações sobre o monumento, foi arrancada e levada. A situação faz a bisneta de Augusto Severo, Sônia Severo, e seu primo Augusto Maranhão lamentarem o que consideram um completo descaso com a memória do RN.

Acostumada a ver a história do Estado ser maltratada, Sônia se diz aliviada por a família ter doado os pertences de seu bisavô para o Museu Aeroespacial do Rio de Janeiro. “Graças a Deus, ou já estariam no lixo”.

O primo Augusto Maranhão, que é empresário do setor de transporte rodoviário, mas também um entusiasmado pesquisador da história da aviação, fica desapontado quando as pessoas se referem à Praça Augusto Severo como Largo Dom Bosco. Aliás, isso é algo que também deixa o escritor Diógenes da Cunha Lima profundamente preocupado.

“Dói na minha alma, principalmente quando vejo em matérias de jornais, e isso tem sido muito comum. Não existe Largo Dom Bosco. É Praça Augusto Severo. Do mesmo jeito, a praça de Petrópolis, onde fica o Palácio de Esportes, é Pedro Velho. Não é Praça Cívica, como muitos chamam. Se continuarem com isso, lá na frente ninguém vai saber os nomes corretos”, lamenta Diógenes.

Em Macaíba, terra onde Augusto Severo nasceu, também existe uma praça com o seu nome. Ela fica no centro do município e foi construída no início da década de 40 no lugar do antigo Mercado Público, demolido nessa época junto com a casa onde nasceram Augusto Severo e Alberto Maranhão. “Dos 14 irmãos, só os dois nasceram na casa, construída por Fabrício Gomes Pedroza, fundador de Macaíba”, conta o historiador macaibense Anderson Tavares de Lyra, de 34 anos.

Descendente de Augusto Tavares de Lyra, Anderson já publicou um livro sobre seu ancestral ilustre e atualmente se debruça sobre um segundo tratando do início da história da cidade. Além disso, é gestor do Instituto Pró-Memória de Macaíba, cuja sede é uma construção antiga de 1856. Apesar de tombada como patrimônio histórico, a casa onde funciona o Instituto está precisando de uma reforma. Por não oferecer segurança, os objetos de maior valor, inclusive itens de Augusto Severo, ficam guardadas em outro local.

“O médico Olimpio Maciel, que já foi gestor do instituto, guarda algumas coisas na casa dele, e eu também tenho fotografias e outros documentos comigo”, diz o historiador.

Em Macaíba, a homenagem mais visível a Augusto Severo encontra-se na Praça Antônio de Melo Siqueira, onde antigamente era o cais do porto. Construída nos anos 50, a praça foi reformada em 2012, quando ganhou um grande painel com imagens de macaibenses ilustres. Severo está na galeria, ao lado de Tavares de Lyra, Henrique Castriciano, Auta de Souza, Alberto Maranhão e Fabrício Pedroza.

Augusto Severo - Linha do tempo

1864
No dia 11 de janeiro, nasce em Macaíba/RN, Augusto Severo de Albuquerque Maranhão, oitavo dos 14 filhos do pernambucano Amaro Barreto de Albuquerque Maranhão (1827-896) e da paraibana Feliciana Maria da Silva de Albuquerque Maranhão (1832-893).

1880

Aos 16 anos, viaja para o Rio de Janeiro, então capital do Império, e inicia seus estudos de engenharia na Escola Politécnica.

1881
O inventor paraense Júlio César Ribeiro de Souza apresenta um projeto de dirigível ao Instituto Politécnico Brasileiro, o que motiva o jovem Augusto Severo a se interessar pelo voo, realizando observação de aves planadoras e construindo pequenos modelos de pipas.

1882
Passa a lecionar matemática no Ginásio Norte Riograndense, do seu irmão Pedro Velho Maranhão, acumulando a função de vice-diretor.  Em 1983, o ginásio fecha e Severo dedica-se ao comércio, primeiro como guarda-livros da empresa Guararapes e, mais tarde, associa-se à firma A. Maranhão & Cia. Importadora e Exportadora.

1888

Casa-se com a pernambucana Maria Amélia Teixeira de Araújo (1861-1896), com quem tem cinco filhos. No ano seguinte, passa a escrever artigos para o jornal A República, anti-monárquico, do irmão Pedro Velho, e projeta um dirigível que incorporava ideias revolucionárias, o Potyguarania. O projeto, porém, nunca chegaria a sair do papel.

1892
Abandona de vez a carreira comercial para dedicar-se à política, sendo eleito deputado ao Congresso constituinte que organizou o Estado. Neste mesmo ano, o Governo lhe concede auxílio pecuniário para que mande fazer, na Europa, um aeróstato dirigível de sua invenção. O dirigível recebe o nome de Bartholomeu de Gusmão.

1893
Em março, o balão chega ao Brasil. A estrutura em treliça é inicialmente projetada para ser executada em alumínio, mas a falta do material faz com que Augusto Severo altere o projeto, construindo a parte rígida do aparelho em bambu.

1894

Com cerca de 2.000m3 e medindo 60m de comprimento, o Bartholomeu de Gusmão realiza as primeiras ascensões ainda como balão cativo (preso por cordas) e mostra-se estável e equilibrado, demonstrando que a concepção proposta por Augusto Severo era adequada para o voo. Mas, no único voo do dirigível livre das amarras, a estrutura em bambu não suporta os esforços e se parte.

1896
Em 19 de abril, no Rio de Janeiro, Augusto Severo pede patente para um “turbo-motor com expansões múltiplas e continuadas”, concedida no dia seguinte. Em 20 de outubro, sua mulher morre, após o que Augusto Severo inicia um relacionamento amoroso com Natália de Siqueira Cossini, de origem italiana, com a qual vem a ter dois filhos.

1899
Em 27 de julho, no Rio de Janeiro, patenteia um novo balão dirigível, o Paz, que posteriormente tem o nome latinizado para Pax.

1901
Augusto Severo licencia-se da Câmara para se dedicar à construção do Pax, que trazia muitas inovações em relação ao Bartholomeu de Gusmão.

1902
No dia 12 de maio, tendo como mecânico de bordo o francês Georges Saché, o Pax inicia seu voo às 5h30, saindo da estação de Vaugirard, em Paris, capital da França. 
O dirigível eleva-se rapidamente, atingindo cerca de 400 metros, e realiza diversas evoluções que mostram aos inúmeros espectadores que as ideias do inventor potiguar Augusto Severo estavam corretas. Cerca de dez minutos após o início do voo, o Pax explode violentamente, projetando os dois tripulantes para o solo. Severo e Saché morreram na queda. Os restos do dirigível caem na Avenida du Maine, diante de uma grande multidão.

1908
A viúva de Augusto Severo, Natália, que presenciou a queda, nunca se recuperou da tragédia. Após retornar ao Brasil,  ela se suicida com um tiro no coração, aos 30 anos de idade.


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