Memória viva: conheça os pesquisadores do futebol do RN

Publicação: 2019-07-14 00:00:00 | Comentários: 0
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Ícaro Carvalho
Repórter

Quem acompanha o futebol do Rio Grande do Norte e lê, ouve ou assiste reportagens e matérias na crônica esportiva potiguar, certamente já notou os nomes de Ribamar Cavalcante e Marcos Trindade, dois pesquisadores que acompanham e mantém viva a memória do futebol norte-riograndense. São relatos de grandes histórias, emoções e de como o esporte com a bola nos pés tem um significado diferente na vida desses dois potiguares. “Pensar o passado para compreender o presente e idealizar o futuro”, frase de Heródoto, também tem seu sentido dentro das quatro linhas.

Pesquisadores do futebol potiguar
Marcos Trindade e Ribamar Cavalcante são guardiões da história do futebol potiguar

Com décadas de estudo, trabalho e principalmente, arquivos físicos guardados em suas residências, eles são constantemente convocados por jornalistas, historiadores, biógrafos e interessados em reviver os jogos, gols e títulos marcados na história do RN. Seja com estatísticas, números, fatos ou momentos históricos, Trindade e Ribamar estão sempre prontos a entrar em campo para auxiliar os amantes do futebol potiguar.

Ambos nasceram no interior. Ribamar, com 73 anos, e Marcos, com 43, são de Macau e Angicos, respectivamente, e sempre foram dois nomes ligados ao futebol. Ribamar foi jogador de vários clubes do RN e administrou o antigo Machadão e o kartódromo de Natal. Já Marcos chegou a trabalhar em rádios e emissoras de televisão do Estado, sempre com o esporte.

Aliado a isso, Ribamar e Marcos, apegados ao papel e aos registros físicos, não fogem da tecnologia. Quem acompanha Ribamar em sua página pessoal no Facebook pode notar as constantes postagens enaltecendo grandes ídolos do passado e relembrando fatos marcantes. Marcos Trindade, por sua vez, vai além: tem um blog onde reúne praticamente todo o seu repertório estatístico.

Na semana em que o Brasil comemorou o Dia Nacional do Pesquisador, no dia 08 de julho, a TRIBUNA DO NORTE conta agora um pouco da história dos dois pesquisadores mais expoentes do futebol potiguar.

Se no cotidiano os dois estão acostumados a estarem folheando as páginas da história do esporte bretão em solo potiguar, neste domingo chegou a hora de Ribamar Cavalcante e Marcos Trindade abrirem sua casa, sua pesquisa e sua história para deleite dos leitores.

Ribamar Cavalcante
Sentado no sofá de sua casa ao lado de algumas de suas pastas onde guarda seu acervo, Ribamar Cavalcante, mostra com orgulho um arquivo construído há mais de cinquenta anos com recortes de jornal, fotos históricas e registros memoráveis da história do futebol norte-riograndense. Segundo ele, são mais de 10 mil arquivos em suas pastas, muitos deles raros e que servem de exemplo para reportagens, revistas e materiais sobre o futebol potiguar.

Ribamar Cavalcanti
Ribamar Cavalcante, aos 73 anos, tem como objetivo não deixar que os ex-atletas caiam no esquecimento

Alguns deles Ribamar mostra com orgulho, como um colecionador que mostra um item raro de sua galeria. Há, por exemplo, fotos de quando Pelé veio à Natal, nas duas ocasiões, em 1971 e 1972, ambas com o Santos. A última delas, um registro histórico com Alberi, até hoje reproduzido nas redes sociais. Outras imagens também de quando Garrincha veio ao RN, nas três ocasiões, quando vestiu as camisas do Alecrim, do Flamengo e da Seleção de Currais Novos, além da primeira aparição da Seleção Brasileira em Natal, em 1982, entre tantos outros momentos do futebol potiguar.

Curiosa é a forma como o macauense radicado em Natal começou o seu acervo. “Eu tinha uma mania: após as partidas, com a cobertura da imprensa - falada e escrita - e no dia seguinte, após a rodada, eu tinha o cuidado de procurar a banca de jornais. As matérias que eu achava interessante, fazia o recorte e arquivava. Isso com 18 anos, iniciando a carreira”, explica. Ao passo que era jogador de futebol, com passagens por Globo, Santa Cruz,  Riachuelo, Força e Luz, entre outros, Ribamar já ia montando o seu catálogo que segue sendo atualizado até os dias atuais. Com o término da carreira de atleta, quando estava no ABC, em 1973, entrou para a Aeronáutica, mas os registros históricos continuam a fazer parte da vida de Ribamar.

“Não se justifica os jovens de hoje não conhecerem a história de América, ABC e Alecrim, é inadmissível”, diz. Uma dessas cobranças é endossada pela falta de preservação histórica do futebol do RN. Ribamar cita o Museu do Esporte, no Caic, na capital. “Aqui no Caic existe um museu: fechado. Existe mas não há funcionamento. Tem coisas lá de super importância para os turistas, mas é fechado”, lamenta.

Alguns momentos históricos do futebol potiguar para Ribamar Cavalcante


“Eu com 73 anos faço um apelo: é hora de cuidar em ter um museu para que os jovens do amanhã saibam da história do futebol do Rio Grande do Norte. Eu faço esse pedido aos nossos dirigentes, que cuidem disso, procurem preservar a história do futebol do RN”, acrescenta.

Há ainda um pequeno alento para Ribamar. Com a inauguração da Arena das Dunas, substituindo o Machadão para a Copa de 2014, lugar de onde tira suas melhores lembranças no futebol, o pesquisador foi convidado para montar uma espécie de museu num dos corredores da Arena, com fatos marcantes e históricos do futebol do RN. São fotos de Marinho Chagas, Alberi, Souza, das primeiras partidas no RN, os esquadrões, registros da inauguração do Machadão, entre tantos outros.

Com o seu vasto repositório de imagens e registros históricos do futebol potiguar, Ribamar se diz feliz em ser referência em manter viva as memórias da “turma da velha guarda”, como ele mesmo diz. “Essas pastas significam tudo para mim. Eu fico feliz em ter algo para oferecer a vocês. Para você ter uma ideia, às vezes quando estou chegando em casa, eu pergunto sempre a minha esposa: minha filha, aconteceu alguma coisa com meu arquivo? [risos] Isso é minha vida”, revela.



Marcos Trindade
Foi nos números, estatísticas e informações que Marcos Trindade viu que poderia trabalhar de alguma forma com o futebol do Rio Grande do Norte. O primeiro contato com o esporte aconteceu na década de 90, quando ainda morava em Angicos, no Oeste potiguar. Mesmo tendo infância difícil e começando os estudos apenas aos 10 anos, Marcos logo tomou gostou de ler e escrever e entender o universo do futebol. Hoje morando em Natal, Marcos é referência quando se fala em estatísticas sobre os clubes do Estado.

Marcos Trindade
Marcos Trindade se dedica a pesquisa e números na finalidade de reordenar alguns fatos históricos

Nos “caderninhos”, como costuma chamar seus blocos de anotações, Trindade sempre destrincha os jogos que acontecem nos Estaduais, incluindo os de categorias de base, bem como as participações dos clubes do RN nos Campeonatos Brasileiros. São informações de gols, público e renda, artilheiros, árbitros, fichas técnicas, entre tantos outros. Dados estes que servem de embasamento para análises estatísticas e scouts entre clubes, imprensa, historiadores, biógrafos e escritores.

O primeiro contato de fato com a estatística aconteceu em 1991, com o Campeonato Potiguar. “Queria saber quem era o artilheiro, quanto foi a renda, o público. Isso tudo me motivou a buscar mais informações”, lembra.

Entre os números que Marcos dispõe, estão as estatísticas dos estaduais desde 1918 até o torneio atual. Segundo ele, há pequenas falhas em alguns torneios, em virtude da dificuldade em conseguir jornais da época para completar seu arquivo. Ao todo, o pesquisador conta que dispõe de 90% dos dados do futebol do RN. 

Alguns momentos históricos do futebol potiguar para Marcos Trindade


Embora sejam de vital importância para análises, debates e pesquisas antes e depois das partidas de futebol, é de entendimento da crônica esportiva e dos próprios torcedores que a estatística não entra em campo. Marcos reconhece essa questão com os números e sua relevância no momento em que a bola rola, mas não descarta as anotações nas avaliações dos jornalistas.

“[A estatística] se chegar até o jogador, até o treinador, pode ser trabalhada para que aquilo possa ser conquistado. Um tabu, se um clube não vence há meses, há tantos jogos, há uma movimentação para que aquilo seja feito em cima disso, para que o clube quebre ou mantenha o tabu. Na maioria das vezes ela não vai entrar em campo, mas empolga”, opina. 

Com quase 30 anos de serviços prestados às estatísticas do futebol  em terras potiguares, Marcos Trindade é grato e se considera uma peça importante nas pesquisas sobre os clubes do RN. Comumente convidado para colaborar com livros, revistas e publicações de jornais e portais de esporte, Marcos agora quer tornar o seu acervo digital.

“Acho bastante valorizado e agradeço muito a imprensa, que sempre me procura. Tenho mais ou menos uma ideia que o Rio Grande do Norte sabe quem eu sou e parte do Brasil”, fala. “Eu me acho o Câmara Cascudo da pesquisa do futebol do Rio Grande do Norte. Na minha análise, com todo o material que eu tenho.”, revela, acrescentando ainda que consegue vender parte do seu material em determinadas situações.



















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