Memórias de um garotinho das Quintas

Publicação: 2017-09-03 00:00:00 | Comentários: 0
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Ramon Ribeiro
Repórter

Cinthia Lopes
Editora do TN Família

No dia 4 de setembro se celebram 300 anos de ocupação das Quintas, bairro da Zona Oeste de Natal. Antigo caminho que ligava Natal a Macaíba, a área era conhecida por reunir sítios e fazendas que margeavam o Rio Potengi. Segundo o historiador Câmara Cascudo, vem daí o nome do bairro, onde a palavra “Quintas” teria o sentido do termo em Portugal: casas de campo, granja. Depois de muito tempo rural, a região entra em processo de urbanização mais intenso somente a partir dos anos 1940, quando vai ganhando a configuração dos dias atuais.

De várias figuras ilustres que deixaram suas marcas no bairro, uma ainda hoje guarda com carinho os momentos que vivenciou no lugar. Foi nas Quintas que Fernando Luiz despertou com força para a música. Foi lá, entre os anos 1969 e 1973, que ele se reunia com amigos para ouvir os discos de vinil, rádio, fazer serenatas para as meninas, assistir os shows do Quintas Clubes, onde o grupo Apaches, um dos mais populares da cidade na época, se apresentava. Depois, com a saída de um integrante, o próprio Fernando assumiu o vocal da banda para cantar Beatles, Rolling Stones, mesmo sem saber bulhufas de inglês.

Memórias de um garotinho das Quintas

Nesse período ele não queria nem ouvir falar de brega. Passava longe. O estilo musical só foi aceito pelo artista na década de 1980, depois de uma temporada no Rio de Janeiro, onde fez participações destacadas no Programa do Chacrinha. Foi com o brega e a música romântica que Fernando Luiz despontou com força pelo Brasil, chegando a vender milhares de discos e obtendo especial sucesso no Norte e Nordeste.

Hoje morando no Tirol, Fernando Luiz continua fortemente envolvido com a música. Nas manhãs de domingo ele comanda o programa Talento Potiguar – com patrocínio via Lei Djalma Maranhão –, onde jovens podem mostrar o seu trabalho. São seus também os projetos como o “Show nas Comunidades” e o “Talento das Cidades nas Casas de Cultura”, este em parceria com a Fundação José Augusto, onde, em visitas a 10 cidades do interior, são selecionados novos artistas para, em novembro, se apresentarem no Teatro de Cultura Popular (TCP), concorrendo ao direito de gravar um disco. Mesmo administrando todas essas ações, o potiguar não deixar de cantar. Ainda em setembro tem shows agendados em São Rafael, Nísia Floresta e Caiçara do Rio dos Ventos.

Chegada ao bairro
Lembro que as ruas não eram calçadas, era tudo na areia, barro. Mas nas Quintas tinha de tudo, até dentista que extraia dente na calçada. Hoje ainda é difícil enfrentar dentista, imagina naquela época, e na calçada então, imagina! O mercado das Quintas foi uma grande referência e existe até hoje. Cinema São Geraldo, na minha opinião deveria ter sido tombado. Lembro bastante do Armazém Cacique. Era o lugar onde quem não tinha telefone em casa se dirigia para pedir gás. Lembro do campo de futebol perto da igreja, apesar de eu nunca ter jogado bola. Eu sempre tive uma coisa afetiva com o lugar porque era um bairro pacífico.

A rapaziada
A convivência no bairro era muito bacana. Tínhamos um grupo de amigos, amigas. Namorei uma menina que depois chegou a ser Rainha do Carnaval. Muitas dessas amizades estão preservadas até hoje. O que a gente fazia naquele tempo era encontrar os amigos, ouvir música, namorar.

Atmosfera romântica
Naquela época, nas Quintas ainda se fazia serenatas. Os pais apareciam de cara feia na janela, jogavam água. Cheguei a ter uma paixão platônica por uma vizinha. Ela nunca soube disso. Seu pai tinha um taxi. Às vezes eu ia na casa dele pedir corrida só para ver ela. Mas nunca tivemos nada. Por trás da casa em que a gente morava tinha uma viúva que tinha um bar e umas filhas muito bonitas. Todos os rapazes do bairro iam lanchar no bar só pra ver as filhas da viúva. Naquela época as Quintas tinha uma atmosfera muito platônica, singela.

Uma serenata especial
Numa dessas serenatas, tinha um colega nosso, Chagas, estava machucado, andava com dificuldade. A gente estava tocando para a menina, quando surgiu uma voz grossa lá de dentro da casa. Todo mundo correu para um lado. A gente tinha um ponto de encontro depois dessas aventuras, era num descampado perto da igreja. Ficamos preocupado com o Chagas, sem saber se ele tinha conseguido fugir com aquele pé machucado. Mas quando chegando no descampado vimos que ele já estava lá. Chegou primeiro. Era o mais medroso (rsrs).

Referência cultural
A grande referência cultural do bairro foi o Quintas Clube. Nos domingos aconteciam as famosas matinês. Era o point dos grupos musicais da época. Lembro de Marinho Chagas por lá, devia ter uns 17 anos, foi antes de se destacar como jogador do ABC. Eu fui um adolescente ligado no som da época. Quando chegava da escola, à noite, gostava de ficar ouvindo rádio, como Boca da Noite. Acredito que começou nessa época meu sonho de ser um comunicador.

Surge o cantor
Minha iniciação na música está relacionada ao bairro. Fiz parte do grupo Apaches. Era um dos grupos mais conhecidos da cidade. Eu usava uma barba grande, macacão Lee – eu não tinha dinheiro, comprei um barato depois descobri que era falsificado. Um dos meus primeiros shows foi no Quintas Clube. Praticamente a cada quinze dias tocávamos no bairro. Cantava Beatles, Rollings Stones, tudo sem saber inglês, apenas tirando as músicas de ouvido da vitrola, fazendo um inglês improvisado. De vez em quando cantava música brasileira. Brega nem pensar. E o termo ainda nem existia. Na época falava cafona.

O compositor e a música brega
Na época que vivi no bairro cheguei a compor música, mas eram pretensiosas, perdi todas. Recordo de uma. “Os dias passam rápidos. São quadros, mas não vejo a luz. Luzia”. Olha só, eu quereno rimar rápido, luz, luzia! Quando estive no programa do Chacrinha, tive a ousadia de mostrar essa música para um grande artista estourado em todo o Brasil. Ele tinha chegado no estúdio para o ensaio. Era Raul Seixas. Eu tava com a música escrita à mão, num papel, mostrei a ele. Não esqueço nunca da cara de desolação que ele fez. Só viria a compor música de verdade em 1981. Foi quando eu me encontrei artisticamente, aceitando como minha característica a música popular, brega.

As Quintas hoje
Conheço bons músicos na região, alguns seguiram carreira, outros, não. Não podemos esquecer que Zezo é uma referência das Quintas. Hoje lá existe estúdio de gravação, compositores. Alguns artistas já participaram do meu projeto Show nas Comunidades, foram no meu programa na TV. O que falta nas Quintas é maior cuidado. As ruas estão sujas, com calçamento depreciado. O bairro parece estar esquecido. Mas toda vez que passo pelo bairro, gosto de descer nas ruas que eu frequentava. Bate uma saudade. Quando encontro algum conhecido, paro para bater um papo.

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