Mendicância

Publicação: 2019-07-03 00:00:00 | Comentários: 0
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Rubens Lemos Filho
rubinholemos@gmail.com


Uma Série C pelo amor de Deus. O futebol do Rio Grande do Norte atravessa por sua culpa exclusiva a pior semana deste século. É aquele faminto de porta em porta suplicando um pão sem miolo para enganar as tripas.    
    
O ABC empatou com o Náutico(PE) fora de casa e, mesmo com seu joguinho sem tempero(eu vi) , alguns dizem que foi um dos melhores, dizem que foi animador. Talvez uma injeção de Benzetacil daquelas de o caboclo passar semanas sem poder tocar no braço, de dor aguda.

A torcida do América cumpriu seu papel apaixonado e tingiu a Arena das Dunas de vermelho tentando a vantagem para a partida de volta contra o Jacuipense, uma novidade baiana que engrossou o caldo, equilibrou a peleja, o 0x0 foi justíssimo e frustrante para os americanos.

Foi bela a entrada do time em campo, cercado de crianças em sua fé inocente. Entre os meninos, meu priminho Davi, fanático por futebol, mas já aderindo à moda dos esquadrões europeus. Sabe, por exemplo, que existe um Real Madrid de Cristiano Ronaldo, sem imaginar que um dia o verdadeiro rei português, Eusébio, desfilou sua elegância de gazela no  estádio Machadão, demolido e onde o América viveu seus grandes dias. Machadão derrubado para que tenhamos um palco,     de arquitetura acebolada e banguela  de conteúdo, sua grama maltratada por cavalgaduras de chuteiras.

Nem Davi nem seus contemporâneos de sangue alvinegro podem ser cobrados pela tristeza diante de uma fase tão ruim, de jogadores tão obtusos, de pernas de pau institucionalizados pela boçalidade.

Nada começou em 2019
A vergonhosa queda vem do egocentrismo dos cartolas, do afastamento do pobre dos estádios, da transformação destes em arenas onde alguns assistem peladas, outros se multiplicam em selfies para redes sociais. Há 13 anos, o América encantava qualquer torcedor que se preze (menos os paranoicos da imbecilidade), ao conquistar seu segundo acesso à Série A, elite, em uma década, diante do Atlético Mineiro, lá no Mineirão. Há 9 anos, o ABC venceu a Série C e tornou-se, segundo as letras garrafais postas em seu estádio, Campeão Brasileiro. De direito, é.

Acessos e títulos chamam dinheiro e vaidade
O ABC começou a se dissolver numa eleição furiosa, dois lados brigando como se não pulsasse o mesmo hino no coração. A parte vencida boicotou a vencedora que demonstrou exemplar incapacidade administrativa e desatualização. Saíram todos. O clube foi infestado de forasteiros com sotaque picareta e por uma diretoria amorfa, morna, abobalhada, antítese do espírito guerreiro alvinegro. O América também se dividiu. O poder centralizador fez o clube descer para o fosso do futebol e, para que pudesse reagir, foi imposta a dicotomia de dois lados que há anos se revezam no comando do clube.

Uma Série C, pelo amor de Deus
Para o ABC continuar e o América subir, equiparando-se ao rival num dos subsolos do falido futebol de um país no qual Cebolinha é principal esperança e Fernandinho, um néscio, caminha para sua terceira Copa do Mundo, a que não tiveram direito artistas da estirpe de Dirceu Lopes, Julinho, Evaristo de Macedo, Adílio, Geovani, Djalminha, Alex e Denner.

É uma semana de suspense
Produção mambembe, diferente, distante dos épicos contra os clubes do Sudeste que continuam sendo chamados de grandes e mostram uma bolinha de gude, tão pequena e malcuidada pelos jovens milionários de cabelos espichados e fones de ouvido com música de mau gosto. É um tempo feio. Diferente do meu tempo. A uni-los, a coragem de compará-los.

Há 20 anos
O campeonato estadual de 1999 foi decidido por um gol contra do zagueiro Marcelo Fernandes, do América. Nem se tentasse mil vezes, conseguiria rebater para trás o cruzamento do atacante Joãozinho, encobrir o goleiro Roger e selar o tricampeonato do ABC. Amanhã faz 20 anos desse jogão.

Bons times
ABC e América formaram dois belos times. O América se desfez do Centro de Treinamento de Cidade Jardim(General Everardo) e só não contratou Romário. Chegou à decisão precisando empatar e o gol imponderável de Marcelo Fernandes mudou as mãos donas do caneco. ABC 1x0.

Como foi
Há 20 anos, treinado por Ferdinando Teixeira, o ABC jogou com Shumacher; Humberto, Rau, Mário César e Quinho(Joãozinho); Ivanildo - morreu em 2001- Evandro(Jamur), Marcelo Vidal e Tecy; Sérgio Alves(Elias) e Robgol.

Severinho
Comandado por Severinho, o América perdeu com Roger; Marcinho(Ivan Terrível), Marcelo Fernandes, Roni e Adauto(Mingo); Gerson Caçapa, Carioca, Moura e Biro- Biro; Richardson(Rogers) e Clayton. Público de 16.142 pagantes e no apito o carioca Reinaldo Ribas.

Pela TV
O armador da Jacuipense(BA), Danilo Rios, apareceu para o Brasil em 2013, com jogadas de efeito pelo Nacional-AM contra o Vasco pela Copa do Brasil. Meia com alguma habilidade, perambulou por vários clubes até chegar ao adversário do América na Série D.

Chefão punido
O ex-presidente do Alecrim, Anthony Armstrong, foi punido pela Justiça de Gibraltar, território britânico. Ficará 14 anos sem poder fazer “empreendimentos”.

Dívida
A dívida da empresa de construção civil de Armstrong, segundo o Serviço de Insolvência de Gibraltar, chegava a 21 milhões de euros em maio passado. Armstrong foi cortejado e bajulado em terras potiguares. Andava cheio de seguranças e dando esporro em jornalistas. Alguns, o adoravam. Espontaneamente, óbvio.






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