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Alex Medeiros
Menina do Jô
Publicado: 00:00:00 - 06/08/2022 Atualizado: 22:40:18 - 05/08/2022
Por Marana Torrezani Medeiros

Passei os últimos dias pensando muito em Jô Soares. Não é uma premonição, é que sempre lembro, falo e assisto muito dele. Há dois dias, estava eu mais uma vez no YouTube, procurando entrevistas antigas suas. De noite eu sinto falta do seu humor... Quando criança eu ficava acordada até tarde (sim eu já tinha insônia desde sempre) e assistia o Jô Soares Onze e Meia, no SBT.

Reprodução


A casa toda dormia e eu lá, atenta ao "papo de adulto" e rindo quando ele brincava que seu programa nunca começava no horário. E não começava mesmo. Eu do alto de meus 8 anos de idade reparava no relógio todo dia quando o Jô chegava. Cresci durante a fase do SBT e continuei acompanhando na Era Globo, aí já uma adolescente, mas senti saudade da antiga vinheta.

Pensando agora, talvez um dos motivos de eu gostar de Jazz desde a época. A vinheta no SBT era um jazz mais animado, ensolarado e com uma pegada bem-humorada... como um filme da Pantera Cor de Rosa. Já a vinheta da fase Globo era mais sofisticada e com um tom mais soft, obviamente mais apropriado para o horário notívago. Aliás, Jô sempre se descreveu notívago por natureza e essa era mais uma de suas características que me gerava identificação. Aquele sujeito engraçado, gordinho, cabelos brancos, coleção de óculos de grau e a voz de menino que entrava pela madrugada falando um pouco sobre tudo e qualquer coisa. A melhor companhia.

O timbre de Jô Soares me trazia e ainda traz conforto nas noites insones. Sua voz jovial mascara seus cabelos brancos e por isso nunca consegui enxergar sua real idade. Eu também ficava lendo os nomes da equipe técnica nos créditos da abertura e sentia inveja das produtoras e diretoras que eventualmente eram descortinadas pelo apresentador.

Uma vez sonhei que era amiga de Jô. Eu visitara seu apartamento, onde tinham também muitas outras personalidades importantes da mídia. Em dado momento o anfitrião pediu licença a todos e me convidou a ir ao seu escritório que ficava num cômodo logo após o corredor. “Preciso mostrar uns de meus quadros e livros à minha amiga Marana e já volto”, disse ele a todos os convidados famosos. Sim, meu cérebro megalomaníaco construiu a frase exatamente dessa forma, uma maneira de forjar minha pseudo auto importância onírica.

Eu nunca cheguei a conhecer o Jô, pelo menos não além de meus sonhos. Mas uma vez tive a honra de conhecer de verdade um de seus melhores amigos, o cartunista Ziraldo. Na época eu morava no Rio de Janeiro e durante uma visita de meu pai à cidade, fui levada por ele ao estúdio do bairro da Lagoa. Ali de fato fui recebida em seu escritório, onde Ziraldo me mostrou livros e alguns de seus quadros. Aliás, soube depois que nas paredes da casa de Jô Soares os únicos quadros fora os seus, são do Ziraldo.

Com toda certeza o Jô fez parte da minha formação, daí minha capacidade de conversar sobre qualquer assunto (durante 15 minutos), uma habilidade muito apreciada nas resenhas de botecos.

Na minha pequena (e desimportante) existência, entre todos os comunicadores e humoristas, ele sempre foi o maior. E ele faz muita falta na minha televisão. É por isso que até hoje, dia sim - dia não, procuro na madrugada um pouco de Jô para me fazer companhia. Viva o Gordo.

Ziraldo Um dos mais íntimos amigos de Jô, o cartunista Ziraldo foi a personalidade mais vezes entrevistada por ele e tem o privilégio de ter suas obras nas paredes do amigo. Ambos têm esculturas do Superman, a do Jô com 2 metros. 

Washington Outro grande amigo de Jô Soares foi o publicitário Washington Olivetto, que de Londres enviou mensagem ao canal My News: “A lacuna que a partida do Jô deixa nesse momento é gigantesca, mas é menor que o legado que ele deixa”.

Ofélia Por duas vezes tive o grande prazer de ouvir meu nome citado por Jô Soares. A primeira vez no seu programa do SBT, na repercussão de uma polêmica publicidade da Bain Douche com a atriz Giselle Tigre, em outubro de 1995.

Abimael A segunda vez foi na entrevista com o sebista Abimael Silva, na Globo, em que nosso editor contou como se inspirou no Diabo a Quatro, uma lojinha cultural que criei com Themis Pacheco, em 1981, para montar o seu Sebo Vermelho.

Gordon Minha geração teve o primeiro contato com Jô Soares em 1967 quando as imagens do programa Família Trapo chegavam nos poucos televisores pelo sinal da TV Record oriundo de Recife. Aos 29 anos, Jô era o mordomo Gordon.

Referência Criado por Jô e Carlos Alberto de Nóbrega, o programa foi o primeiro sitcon brasileiro, inspirado nos americanos The Trapp Family, Dick Van Dyke Show e I Love Lucy. E virou inspiração para A Grande Família, Sai de Baixo e outros.

Popularidade Até hoje se repete bordões criados pelo Jô: “Qué queu sou? Sois Rei”, “Vai pra casa Padilha”, “Bota ponta Telê”, “Madalena, você não quer que eu volte”, “Cala a boca Batista”, “Vice não fala”, “Me devolve pro tubo”, “Me perimta”.

Versos Do colega de Jô na infância, Ugo Vernomentti: “Com ironia e humor / Invadia nossos lares / Famílias no televisor / Gargalhavam nos jantares / Na guerra botou amor / Fez feliz os populares / Foi artista inovador / como poucos, Jô Soares”.

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