Menos assistência, mais fome

Publicação: 2020-09-27 00:00:00
A secretária estadual do Trabalho, da Habitação e da Assistência Social (Sethas/RN), Iris Oliveira, disse que o Governo do Estado recebeu com preocupação o resultado da Pesquisa de Orçamentos Familiares (POF) 2017/2018, mas que os números de que 81 mil lares no Rio Grande do Norte são afetados pela insegurança alimentar grave representam a constatação de que o agravante da fome está relacionado ao aumento da pobreza, com maior desemprego e cortes dos programas, serviços e projetos assistenciais, como o Bolsa Família, por parte do Governo Federal.
Créditos: Adriano AbreuRestaurante Popular distribui refeições gratuitas para a população de rua, refugiados e migrantes, amenizando a fome durante o diaRestaurante Popular distribui refeições gratuitas para a população de rua, refugiados e migrantes, amenizando a fome durante o dia

saiba mais


Os dados da Sethas apontam que o Rio Grande do Norte tem 645.170 famílias inscritas no Cadastro Único dos programas do Governo Federal. No mês de agosto, 363.660 destas famílias foram beneficiárias do Bolsa Família, ficando na fila de espera um total de 42.031 com perfil de pobreza e extrema pobreza.

Depois de uma representação dos governadores do Nordeste e do Ministério Público contra a suspensão imediata do corte de 96 mil benefícios do Bolsa Família na região, em meio a uma tesourada que em março passado atingiu 158.452 bolsas em todo o País, o Supremo Tribunal Federal (STF) impediu o cancelamento do benefício, pelo menos durante a pandemia.

"Mesmo com a suspensão dos cortes, há ainda o crescimento da pobreza e do desemprego. A tendência é de aumento da fome com a pandemia, até porque, a renda emergencial é temporária e há um contingente excluído e uma redução no orçamento da Assistência Social", disse a secretária. Ela ressaltou que o orçamento federal da pasta foi reduzido de R$ 2,7 bilhões em 2019 para R$ 1,3 bilhão em 2020 e deve ficar em R$ 1 bilhão em 2021.

Os dados da fome constatados pelo IBGE se referem à 2018/2019, ou seja, a situação pode ser ainda pior por causa dos efeitos da pandemia da covid-19. Diante disso, o Governo do Estado apresentou algumas ações para enfrentar a insegurança alimentar entre os potiguares em situação de vulnerabilidade, muito embora seja visível que estas medidas não chegam a todos os que necessitam.

Entre as iniciativas, Iris Oliveira destacou a manutenção do Programa do Leite, que estimula a cadeia leiteira movimentando a economia com distribuição do produto para idosos e crianças, beneficiando mais de 70 mil famílias. Outra ação é o Programa Restaurante Popular presente em 52 municípios com refeições gratuitas para a população de rua, refugiados e migrantes e com o valor simbólico de R$ 1 por refeição (almoço, Café Cidadão e Sopa Cidadã) para os demais usuários.

"Sabemos que a população de rua é um público vulnerável e para estes também dispomos de aluguel social e entrega de alimentação nos fins de semana e materiais de higiene. Já aqueles que vivem em ocupações urbanas, precisam do acompanhamento do Município, mas estamos beneficiando estas famílias com entrega de cestas básicas", declarou a secretária. Na ocupação urbana Olga Benário, visitada pela reportagem em Natal, esse tipo de ajuda não é frequente, segundo os próprios moradores.

A titular da Sethas/RN disse ainda que foram destinados, durante a pandemia do novo coronavírus, R$ 3,5 milhões aos municípios para atender as famílias em situação de insegurança alimentar e que os municípios têm autonomia para definir o que comprar. No campo, pontuou, estão sendo oferecidos incentivos com a aquisição de produtos da agricultura familiar e negociação para que bares, restaurantes e hoteis priorizem esses produtos nas suas compras.

RN Chega Junto

Outra proposta em execução é o Programa RN Chega Junto, com mais de R$ 4 milhões destinados à aquisição de cestas básicas para beneficiar segmentos específicos, como as comunidades pesqueiras, cuja atividade foi prejudicada pelo derramamento de óleo no ano passado no litoral. Neste caso, o governo também adquire o pescado destes grupos. Comunidades indígenas e quilombolas, além de artesãos e  carroceiros, entram na lista de beneficiados. A expectativa é de distribuir 60 mil cestas básicas, inicialmente 20 mil até a primeira quinzena de outubro próximo, segundo a secretária Iris Oliveira.

Apesar das ações dos governos, a ajuda não alcança a todos e de forma ágil e, por isso, o trabalho de voluntários entra com ações beneficentes. Quem já passou fome, sabe o quanto qualquer ajuda que venha a amenizar esse sofrimento é bem vinda. Carlos Antônio Varela viveu isso na infância e ainda hoje convive com famílias em insegurança alimentar. "Minha história vem da rua onde passei fome. Hoje, faço isso porque é um sonho de 16 anos. Morava embaixo do viaduto de Igapó e fui adotado por uma família. Agora, com ajuda de outros voluntários, posso ajudar quem passa pelo que passei", declarou. Na comunidade da África, zona Norte de Natal onde ele mora, o projeto Alimento Solidário atende cerca de 180 famílias.

A iniciativa começou durante a pandemia da covid-19, em maio passado, visto que, diante da necessidade de isolamento social, muitos projetos semelhantes encerraram ou suspenderam suas atividades. "Fiz uma panela de sopa que deu para umas oito famílias. Com amigos aumentamos a quantidade. Vi que podia pedir ajuda a outros, lojas, mercados, que poderiam doar alimentos para fazer o sopão e distribuir aos mais carentes da comunidade", explicou o voluntário.

Com o tempo, mais gente o procurou para ajudar e também para levar a outros locais da cidade. A ação recebe doações para distribuir refeições prontas, roupas, cestas básicas e nesse período de pandemia, álcool em gel e máscaras. "Estamos hoje em oito comunidades e atendemos também moradores de rua. A gente presta contas em nossas redes sociais do que fazemos e mostramos as dificuldades que as pessoas estão passando", pontuou. O último evento ocorreu na terça-feira passada (22), no viaduto do Baldo, com serviços de cabeleireiros, palestra sobre saúde mental, aferição de pressão arterial e jantar.