Menos de 1% do 'e-lixo' tem destinação

Publicação: 2015-08-30 00:00:00 | Comentários: 0
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Sara Vasconcelos
Repórter

O avanço e acesso as novas tecnologias faz crescer, além da indústria de informação e comércio, a geração do e-lixo a um ritmo mais veloz. Basta lançar uma nova geração de produtos - mais modernos, pequenos e sofisticados -, outros são descartados quase em igual proporção. Um estudo das Organizações das Nações Unidas - o mapa global de lixo eletrônico - mostra que, por ano, cada pessoa gera sete quilos de resíduo eletrônico. Até 2017, serão gerados mais de 65 milhões de toneladas em todo mundo. Um crescimento de 33%, em relação a 2012 quando foram gerados 49 milhões de toneladas métricas no planeta.
Adriano AbreuEm Natal, apenas duas empresas são licenciadas para fazer coleta e destinação do lixo eletrônicoEm Natal, apenas duas empresas são licenciadas para fazer coleta e destinação do lixo eletrônico

Em um cálculo simples, aplicado a população de Natal, a estimativa de geração do e-lixo chega a 5,6 mil toneladas por ano. Se o volume acende o sinal de alerta, a quantidade que recebe tratamento e destinação corretas pode preocupar: 50 toneladas por ano. Menos de 1%. O valor considera a capacidade instalada das duas empresas que estão estão licenciadas ambientalmente e credenciadas pela Urbana para fazer a coleta e destinação.

São computadores, celulares, teclados, HD, tevês, pilhas e baterias, entre outros equipamentos eletrônicos. Toda essa sucata eletrônica, que recebe a classificação de risco tipo 1, tem destino incerto e confuso. Os  órgãos públicos de limpeza urbana e de meio ambiente ainda não sabem muito bem como proceder. A dificuldade esbarra na falta de  legislação específica e em custos para viabilizar a logística reversa, preconizada no plano nacional de resíduos sólidos.

“A Urbana não tem obrigatoriedade em recolher porque a destinação é diferente da dada ao lixo doméstico, pelo teor de metais, não pode ir para aterros sanitários. Cabe as empresas e fabricantes”, explica Juliana Ubarana, diretora de Planejamento e gestão Ambiental da Urbana. A Companhia Urbana, responsável pela limpeza e coleta da cidade, não recolhe este tipo de material. Nem as cooperativas de lixo reciclável estão habilitadas.

A política de logística reversa - que aponta a responsabilidade compartilhada para o retorno e tratamento de resíduo que pode gerar dano ambiental -, não funciona. Os fabricantes e grandes indústrias aguardam a finalização do Acordo Setorial, que tramita no Congresso.

“É preciso que todos, inclusive o poder público, auxilie para  colocar em prática a logística reversa”, afirma Jurandir Rodrigues Nunes, diretor-presidente da Natal Reciclagem.

A cada trimestre, a empresa que é pioneira em destinação do e-lixo em Natal recebe, por mês, cerca de 2 toneladas de lixo eletrônico. A maior parte são smartphones, notebooks e computadores. E envia, a cada três meses, 3 toneladas de resíduos eletrônicos para usinas de processamento em Pernambuco e São Paulo. De lá, os materiais classificados como “placas de circuito”, após tratadas, são enviadas para  Bélgica.

Jurandir Rodrigues estima que 85% do total de e-lixo recebido vêm de descarte espontâneo, ou seja, pessoas que procuram a empresa para entregar material ou são orientadas pela Urbana a procurar o local. “Ainda é muito baixo se comparado a geração. Mas mostra um grande avanço na conscientização da população  com o risco de poluição”, afirma.

O empresário pondera que cresce o número de empresas que buscam parceria para a coleta desta sucata e, em trocam, recebe o certificado de destinação -  documento fornecido pela empresa credenciada que comprova o envio adequado do e-lixo para tratamento. “A tendência é que os municípios comecem a se articular para promover campanhas educativas e de coleta”, afirma.

Natal não possui pontos de coletas

Em Natal, não há pontos fixos para recolhimento do material. Os chamados “ecopontos” são ações pontuais vinculadas a campanhas, como a que aconteceu em junho, na semana do meio ambiente. A ação que reunião poder público, empresas e universidade conseguiu evitar que 2,8 toneladas fossem parar em terrenos baldios e aterros sanitários. Algumas lojas de computação e iluminação mantém pontos de coleta para clientes descartar o material comprado.

“É um trabalho de formiguinha que começa a dar resultado, mas é preciso uma política efetiva e permanente”, defende o empresário Afrânio Miranda.

Na Miranda Computação, apenas 5% do volume em peso retorna. Nos últimos três anos, a média de lixo eletrônico  entregue na loja é de 500 quilos. O empresário e presidente da CDL Afrânio Miranda lembra que  há custos e burocracia para quem decide fazer a logística reversa. Sem uma legislação específica, o material  de descarte que precisa ser transportado para outros estados acaba sendo tributado novamente.

Na Guararapes, maior indústria têxtil e de confecções, há um setor especifico para a triagem do resíduo eletrônico que separa o que pode ser reaproveitado e o que não serve mais é comercializado a baixo custo, a cada trimestre. Em agosto,  uma tonelada de lixo eletrônico, monitores, periféricos, cabos, material foram vendidos a empresas de reciclagem.

“É um trabalho que traz economia ao reaproveitar peças e componentes e garantir uma vida útil media de 4 anos, como também a preocupação com a destinação adequada ao meio ambiente”, observa o gerente de TI, Clodoaldo Freitas.

A UFRN estuda uma forma de tratar e dar destinação a este tipo de resíduo. “Por ora, o trabalho no tocante a destinação ainda é incipiente”, observa o diretor de Meio Ambiente da Superintendência de Infraestrutura, Herbert Halamo. Com núcleos de recolhimento em cada setor da Universidade, o tratamento começa na ponta com a compra de equipamentos com menor teor de metais pesados, passa pela manutenção, otimização do uso e reaproveitamento. Não foi informado o volume de resíduo gerado e destinado.


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