Mercado de trabalho encolheu

Publicação: 2017-11-05 00:00:00 | Comentários: 0
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Até que novas empresas comprem os campos desativados pela Petrobras, o Rio Grande do Norte, a exemplo de outros Estados brasileiros que têm no petróleo uma importante fatia de seu produto interno bruto industrial, passa por uma onda de demissões em massa que ainda deve se agravar nos próximos meses.

De acordo com o Plano de Negócios 2017-2021 da Petrobras, 9.270 empregados diretos - de todo o Brasil - já se desligaram no Plano Interno de Demissão Voluntária (PIDV) de 2016
De acordo com o Plano de Negócios 2017-2021 da Petrobras, 9.270 empregados diretos - de todo o Brasil - já se desligaram no Plano Interno de Demissão Voluntária (PIDV) de 2016

De acordo com o Plano de Negócios 2017-2021 da Petrobras, 9.270 empregados diretos já se desligaram no Plano Interno de Demissão Voluntária (PIDV) de 2016. A previsão é que neste ano, o número de desligamentos chegue a 9.670. Esses, no entanto, são apenas os empregos diretos: para os prestadores de serviços, o quadro de demissões é ainda maior: até agora, 114.000 pessoas já foram desligadas desde dezembro de 2014. Esses funcionários eram responsáveis por obras e montagens, questões administrativas, operações de parada programadas e do exterior.

José Maria de Souza Medeiros, de 54 anos, é um dos que foi afetado pelas novas medidas. Há 23 anos atuando na área do petróleo originalmente em uma empresa privada que fornecia serviços à Petrobras, ele foi demitido em março de 2016 “Foi uma grande surpresa. É inacreditável como isso aconteceu, porque antes eles diziam que tudo estava perfeito e de repente sucederam essas demissões. Creio que a instabilidade política nacional foi determinante para isso, mas eles justificaram a série de demissões em função da crise econômica nacional”, conta José Maria, que trabalhava na área de montagem de tubulações e estruturas metálicas. Ele ainda conta que, no posto onde trabalhava, no Ceará, que faz parte da Bacia Potiguar, de 300 funcionários o posto passou a ter entre 60 e 80, graças à série de demissões.

osé Maria de Souza Medeiros, de 54 anos, é um dos que foi afetado pelas novas medidas
José Maria de Souza Medeiros, de 54 anos, é um dos que foi afetado pelas novas medidas

Para o presidente do Sindipetro, José Araújo, a situação dos desinvestimentos no Estado são preocupantes. “Mesmo que venham empresas menores, é preciso entender que grande parte do dinheiro da Petrobras era reinvestido aqui mesmo, em pesquisa, em mais exploração da região. Tudo isso virava renda local, pra não falar no fato de que há a orientação de dentro da empresa para priorizar a compra de produtos locais, movimentando a economia do espaço onde ela está presente. Em cidades do interior, esse impacto é muito significativo”, conta.

Ele ainda ressalta que a estrutura direta da empresa e os petroleiros não são os únicos afetados pela situação: rede hoteleira das cidades onde estavam localizados os poços, restaurantes e outros serviços também foram afetados “Em Mossoró nós tínhamos uma lotação semanal nos hotéis, por causa dos petroleiros. No fim de semana reduzia porque todos voltavam para suas respectivas cidades, mas durante a semana movimentava muito a cidade. Agora, todos reclamam: do dono da barraquinha de cachorro-quente ao cabeleireiro”, completa.

A reportagem da TRIBUNA DO NORTE enviou à Petrobras questionamentos a respeito de seu atual quadro de funcionários, qual era o número dez anos atrás e quantos são atualmente, as perspectivas da empresa diante do plano de negócios apresentados e dos próximos desinvestimentos que serão realizados no Estado, assim como a continuidade das pesquisas voltadas para a exploração de petróleo e gás. Até o fechamento desta edição impressa, no entanto, às 20h, não recebeu resposta da empresa.

UFRN espera mudança de cenário
Criado em 2007 justamente para suprir a grande demanda por mão de obra especializada no setor de petróleo, o curso de Química do Petróleo, da Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN) já chegou a receber 80 bolsas de graduação, mestrado e doutorado financiadas pela Petrobras para o desenvolvimento de pesquisas e profissionais. Atualmente, no entanto, as bolsas deixaram de existir, diminuindo as perspectivas de muitos dos alunos do curso.

De acordo com o diretor do Instituto de Química, Ótom Ancelmo, que acompanhou a criação do curso e seu desenvolvimento ao longo dos anos, é normal que o  mercado do petróleo tenha altos e baixos, e eles esperam que os profissionais sejam absorvidos por esse novo mercado de empresas independentes que podem comprar os ativos da Petrobras:

“Acredito que o petróleo voltará a ter grande importância na economia não só local, como nacional. Um ponto importante é entender que esses profissionais não podem ser formados apenas para a Petrobras. Obviamente, ela era a maior e representava um objetivo para muitos dos estudantes, mas esperamos que essas empresas independentes representem novos investimentos em tecnologia para a revitalização desses poços que estão com produção reduzida, e isso tudo vai demandar a mão de obra que estamos especializando”, disse Ótom.

Nas primeiras turmas do curso, de acordo com eles, praticamente todos os estudantes eram contratados antes mesmo da formatura. Esse não foi o único curso criado na universidade para atender à indústria: engenharia do petróleo e sismologia foram alguns dos cursos criados para especializar profissionais e pesquisadores para a área. Atualmente, enquanto aguardam a retomada do setor, eles lutam com o Conselho Regional de Química (CRQ) para garantir que os alunos formados em química do petróleo possam atuar em outras áreas da química menos restritas:

“Nosso objetivo e o ideal é que eles atuem sim no mercado do petróleo. Isso, no entanto, vai ajudar um pouco porque muitos dos alunos estão desestimulados. Mas acreditamos na retomada do setor. O fato é que a Universidade tem cumprido seu papel em formar profissionais e pesquisadores para essa área que apresentou uma demanda tão grande e representa tanto na economia nacional e estadual”, completa o diretor.

Números
Evolução dos investimentos da Unidade de Produção do Rio Grande do Norte e Ceará (UO-RNCE), em  dólares*

Rio Grande do Norte
2009 - 908,72 milhões
2010 – 909,83 milhões 2011 – 877,96 milhões
2012 – 812,94 milhões
2013 – 702,13 milhões
2014 – 574,10 milhões
2015 – 430,30 milhões
2016 – 204,54 milhões

*Fonte: Histórico de acompanhamento de investimentos da UO-RNCE – PG/PLC (SAP/R3), sistematizados pelo SINDIPETRO RN.


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