Natal
Metade dos alunos da rede estadual do RN não acompanhou aulas
Publicado: 00:00:00 - 11/07/2021 Atualizado: 12:29:15 - 10/07/2021
Felipe Salustino
Repórter

Os números referentes a adesão dos estudantes brasileiros à Educação Básica apontam que cerca de 1 milhão de crianças e adolescentes dos 6 aos 18 anos estão fora da escola em 2021. Os dados são de uma pesquisa da Fundação Lemann/BID/Itaú Social, realizada pelo Instituto Datafolha, que analisa as perspectivas de alunos e familiares sobre o ensino não presencial. No Rio Grande do Norte, 55,8% dos estudantes matriculados na rede estadual de ensino em 2020 não acompanharam as aulas em formato online. Os dados são da Secretaria de Estado da Educação, da Cultura, do Esporte e do Lazer (SEEC/RN).
Adriano Abreu
Boa parte dos estudantes não conseguiu acompanhar aulas remotas

Boa parte dos estudantes não conseguiu acompanhar aulas remotas


Desse percentual, de acordo com a pasta, 53.283 estudantes não efetuaram acesso às plataformas digitais de ensino disponibilizadas e outros 67.997 realizaram menos de 20 acessos ao sistema de aulas virtual da rede. No ano passado, 217.244 alunos estavam matriculados nas escolas públicas do Estado. Ainda segundo informações da SEEC, cerca de 10% do número absoluto de discentes matriculados não tiveram acesso a nenhum tipo de atividade escolar no período letivo de 2020.

A Secretaria explicou que a ausência desses estudantes nas plataformas de ensino não configura abandono escolar, porque outras metodologias foram adotadas para tentar reverter os prejuízos em razão da falta de acesso às aulas virtuais. “O Estado utiliza outras metodologias além das aulas em plataformas digitais, como o uso de material impresso – os alunos vão até a escola buscar as próprias atividades. Isso acontece principalmente nos locais em que a internet não chega ou é de pouca qualidade, a exemplo de comunidades rurais e de municípios com pouca infraestrutura”, esclareceu o titular da SEEC, Getúlio Marques.

Além disso, de acordo com a pasta, os alunos também contam com opções como aulas via rádio e TV. O acompanhamento, nesse casos é feito pelas escolas, por meio dos próprios planos pedagógicos. A TRIBUNA DO NORTE questionou a pasta sobre o quantitativo de evasão escolar em razão dos problemas de acesso ao ensino não presencial. O secretário Getúlio Marques disse que esses dados ainda não estão disponíveis e que serão conhecidos apenas no final de 2021.

 “Eu não tenho essa fotografia hoje. A gente imagina que o ensino não presencial possa ter colaborado com o aumento do número de pessoas fora da escola – que era de aproximadamente 54 mil em 2019, segundo o Censo Escolar – e também com a evasão, mas não tenho esses números”, comentou.

“Ainda estamos com as matrículas de 2020, das quais as de 2021 estão aí atreladas, ou seja, quem estava matriculado no ano passado e não pediu transferência ou concluiu os estudos, como no caso das turmas de 3ª série do Ensino Médio, continua matriculado em 2021. Esse é um processo chamado ciclo contínuo e os alunos que não desenvolveram atividades no período letivo passado não são considerados reprovados nem evadidos. Esses dados, repito, serão conhecidos somente ao final do ciclo”, acrescentou o secretário.
Magnus Nascimento
Secretário de Educação do RN, Getúlio Marques

Secretário de Educação do RN, Getúlio Marques


Além disso, de acordo com a SEEC, as escolas fazem o monitoramento de todos os estudantes da rede estadual por meio da ferramenta Busca Ativa, plataforma desenvolvida pelo Unicef em parceria com a Undime, para auxiliar os municípios no combate à exclusão escolar. Quando o aluno deixa de dar respostas, segundo a Secretaria, a escola procura saber o que aconteceu.

A SEEC afirmou ainda que os alunos que ficaram de fora das atividades em 2020 tiveram prioridade no desenvolvimento pedagógico das escolas neste primeiro semestre de 2021. A pasta disse, no entanto, ainda não ser possível traçar um panorama recente, porque os dados sobre as participações em aulas e atividades ainda estão sendo colhidos.

Inclusão

O Ministério Público do Estado do Rio Grande do Norte (MPRN) e a Defensoria Pública do Estado (DPE-RN) emitiram uma Nota Conjunta, em abril, com a recomendação para que o Estado, no prazo de 45 dias, disponibilizasse e custeasse ferramentas e recursos tecnológicos para a viabilização de conectividade à internet. O foco são os alunos da rede estadual de ensino em situação de vulnerabilidade socioeconômica e sem acesso, ou com acesso limitado, aos ambientes virtuais.

A Nota também recomendava a apresentação, em 20 dias, de um plano de inclusão digital para a rede de ensino do Estado, com especificação das ações a serem implementadas, prazos e investimentos previstos para a respectiva execução.

A TRIBUNA DO NORTE questionou a Secretaria de Estado da Educação, da Cultura, do Esporte e do Lazer (SEEC/RN) sobre como está o andamento do Plano. A pasta respondeu, em nota, que há um imbróglio referente ao tema e que “o RN deve receber R$ 150 milhões [de recursos federais – Lei Nº 14.172], sendo R$ 40 milhões para o Estado e 110 milhões para os municípios”. O impedimento a que se refere a pasta é diz respeito ao atraso em questão, por causa de vetos do presidente Jair Bolsonaro. “Embora a lei seja de 17 de dezembro, ela está em atraso por causa de um veto do presidente, em março – que foi derrubado pelo Congresso em maio e sancionada em junho. Após a assinatura da lei, Bolsonaro acionou o STF para suspendê-la”, informa a nota.

A TRIBUNA DO NORTE procurou o MPRN para saber como o órgão ministerial acompanha a situação da adesão dos estudantes potiguares ao ensino não presencial, mas não houve retorno.

Estudantes relatam dificuldades com EAD

Os impactos do ensino não presencial no Brasil vão além do que indicam os índices de participação dos alunos em aulas virtuais ou demais tipos de atividades, como a realização de atividades impressas e aulas via rádio ou TV. Os dados da pesquisa “Educação não presencial na perspectiva dos estudantes e suas famílias”, da Fundação Lemann, apontam, por exemplo, que a percepção positiva de pais e responsáveis sobre o desempenho dos estudantes caiu de 86%, antes da pandemia, para 59% atualmente.

Na alfabetização, a percepção de piora no desempenho é maior – metade dos estudantes nesse processo de escolarização não aprendeu nada de novo ou desaprendeu algo, conforme a percepção de pais e responsáveis. Grande parte dessa má avaliação ocorre no Nordeste e no Centro-Oeste.

Essa é, inclusive, a percepção da agricultora Elizandra Sousa, de 33 anos, mãe de Geovana, de 13, aluna do 7º ano do Ensino Fundamental. “Não vejo que ela tenha deixado de aprender nenhum conteúdo [com a chegada da pandemia], mas eu percebo que a aprendizagem tem sido retardada. Acho que poderia estar mais avançado [o nível dos conteúdos]”, relatou a agricultora, que mora com a filha na comunidade de Brejinho II, distrito de João Câmara, município potiguar da região do Mato Grande.

Elizandra revela que a relação entre a filha e a escola tem se mantido boa, apesar dos problemas estruturais. As aulas acontecem via aplicativo de mensagens. “A maior dificuldade é a questão da internet, porque a gente não tem wi-fi e usa dados móveis. Nem sempre a conexão está boa e o pacote acaba rápido. Nesses casos, os professores mandam um caderno de atividades pelo WhatsApp, que é por onde eles dão aula”, comenta.

Os contratempos que rondam os estudantes em época de ensino não presencial criam, na maioria das vezes, reflexos que ultrapassam as questões estruturais. A falta de motivação é um deles. De acordo com a pesquisa, 57% dos estudantes brasileiros estão desmotivados com esse tipo de ensino, um número que demonstra um crescente descontentamento entre os alunos, já que, há um ano, durante a primeira amostra da pesquisa, esse índice era de 47%.

“Eu não gosto desse tipo de ensino. Não me sinto motivado, porque é complicado captar as explicações dos professores. A gente fica na aula, mas quando vai fazer as atividades depois, sente muita dificuldade. Eu acho que são aulas que quase não agregam para o ensino”, declara o estudante José Roberto de Lima, de 16 anos, aluno de uma escola da rede estadual de Lagoa de Pedras, município distante quase 60 km de Natal.

As questões motivacionais, conforme dados da pesquisa, advêm da sensação de pouca evolução nos estudos, um fator que pode aumentar ainda mais o abandono do ambiente escolar. Segundo os dados do Datafolha, no começo da pandemia, 26% dos estudantes manifestaram a possibilidade de desistir na escola. Agora, esse índice subiu para 40%.

Alunos de comunidades rurais apresentam maior inclinação a manifestações de desistência: 51% deles pensam em interromper os estudos, contra 39% dos alunos de centros urbanos. Roberto, que a exemplo de Geovana, vive em uma comunidade rural, relata que enfrenta problemas diários por causa da instabilidade da internet, além de outros fatores que prejudicam o aprendizado.

“O mais complicado é acompanhar as explicações sobre as aulas, porque a internet não ajuda. De vez em quando o sinal cai e eu perco parte da aula. Também é difícil tirar dúvidas, porque, às vezes, quando a gente entra em contato com o professor após a aula, ele demora a responder. Sem contar que, como eu estudo pelo celular e as atividades são muitas, a memória do aparelho enche rapidamente”, pontua.

Atualmente, ele acompanha as aulas pelas plataformas Google Meet e Google Sala de Aula. Mas nem sempre foi assim. “Ano passado a gente não teve aula online. Nós recebíamos as atividades da escola em PDF, pelo WhatsApp. Somente neste ano é que começamos a usar as ferramentas virtuais. Logo que a pandemia chegou, a direção da escola disse que não estava preparada para dar aulas de maneira virtual, porque todos foram pegos de surpresa”, conta.

Números

Dados da Pesquisa

1 milhão de crianças e adolescentes de 6 a 18 anos fora da escola em 2021;

8% dos estudantes com indícios de interrupção dos estudos em 2021 é por falta de acesso à internet;

40% dos estudantes que participam de atividades não presenciais manifestaram possibilidade de desistir da escola em 2021;

76% dos responsáveis receberam orientações gerais da escola para continuar apoiando os estudantes para fazerem as atividades;

32.551.292 estudantes entre 6 e 18 anos estão matriculados em escolas públicas e particulares no Brasil;

27.043.429 estudantes entre 6 e 18 anos estão matriculados em escolas públicas no Brasil;

Fonte: Fundação Lemann/BID/Itaú Social via Datafolha



Leia também