Meu amor de um deus índio

Publicação: 2019-12-08 00:00:00 | Comentários: 0
A+ A-
Eu tinha 30 anos quando ele saiu fofinho e saudável do útero da mãe, no Hospital Papi, em 1989, num dia como hoje, só que numa sexta-feira. Era pós-almoço e eu caminhava pela Campos Sales em direção à agência TP Publicidade para o segundo expediente quando percebi as garotas da equipe todas na porta. Inesquecíveis as vozes em uníssono me dando a boa nova aos gritos: “Ei, volte, volte, nem entre, vá para o Papi que Rudá está chegando”.

Com o coração disparado, senti enorme a pequena distância entre a empresa e o hospital. Contava os passos para chegar depressa, peguei o elevador e dei de cara com a avó e os tios do bebê que estava vindo. De pé na porta da sala de cirurgia, o rosto colado na escotilha, fui empurrado quando o pediatra empurrou a porta para leva-lo ao berçário. Era Napoleão Paiva, o amigo poeta, que indagou: “é você o pai desse tourinho?”. O taludinho estava no seu braço.
De zero a um ano, quanto mais mamava mais ameaçava a mãe de anemia, que diariamente devorava por ordem médica alimentos ricos em ferro e outros nutrientes, principalmente miúdos de galinha, sangue bovino e feijão preto.

A primeira fantasia no primeiro carnaval foi de Rambo, o personagem de Sylvester Stallone, a mais apropriada para suas dobrinhas de lutador de sumô. Faixa na cabeça careca e uma faca de caça que aprendeu a carregar na boca.

Os primeiros passos foram um problema para a humanidade e a sociedade local em geral. A adrenalina fluía nos poros, corria desenfreado, esmurrava irmãos e primos, chutava de bico as pernas dos avós e ria um riso de anjo.

Os passeios no shopping eram um pandemônio para os pais, que não podiam facilitar três segundos, o suficiente para o moleque derrubar algo da mesa, ou sumir num pique até ser encontrado por alguma vítima das suas pernadas.

Cresceu cheio de energia e saúde, e quanto mais ficava bonito mais aprontava presepadas, elegendo sempre como presas ao sacrifício o irmão, a irmã, as babás – que foram várias (entende-se), e às vezes algum adulto desavisado.

Por tudo, sofreu injustas vinganças das suas principais vítimas, até ensaios da maior das torturas: ser amarrado numa cadeira. Nos verões de Muriú, passeava comigo gastando as energias na areia e no mar, que o toleravam.

Certa vez, pra evitar que fugisse na praia, deixei-o no pedestal do Jesus que marca o espírito cristão de nativos e veranistas. Sem saber descer, fazia olhar de coitado: “ei, papai, eu quero descer desse Cristo rebentor”. Meu rebento.

Aos doze anos, aprendeu a tocar bem o que eu aos sessenta ainda toco muito mal. Executava MPB no violão e quando ganhou duas guitarras montou uma banda aborrecente para tocar Beatles. Embasbacado, me derreti de orgulho.

Na tenra juventude, abandonou os chutes nos adultos e passou a beliscar corações das meninas. Tornou-se um grande cara, um leitor contumaz e estudioso. Assinar sua alforria aos quinze anos, a pedido dele, valeu a pena.

Adquiriu todas as qualidades que pai e mãe desejaram pra ele, sem precisar passar pelo estágio dos nossos erros. Se algo faltava para minha realização pessoal, nada mais satisfatório do que me realizar vendo suas conquistas.

Seu nome veio da mitologia tupi-guarani, é o deus do amor dos nossos primeiros habitantes, e é citado no clássico Macunaíma, de Mário de Andrade, e homenageado no batismo do filho de outro modernista andradino, Oswald.

O amor que me invadiu aos 30 anos quando ele chegou é o mesmo quando hoje ele completa 30 e todos os seus se reúnem para festejá-lo. Rudá Medeiros Sudário é uma das minhas metades, parte do meu rico patrimônio.

Crime compensa

Os condenados em regime aberto terão ônibus grátis em Fortaleza e já podem gargalhar do trabalhador contribuinte. Decisão do Tribunal de Justiça e sindicato dos transportes do Ceará. Faltou só o Sindicato do Crime na reunião.

Crateras


Será que o Álvaro Dias tem um observador na Candelária? Não são poucas as ruas esburacadas. É provável que as administrações de Wilma de Faria e Carlos Eduardo tivessem um olheiro no bairro, que era livre dos buracos.

O fundão da vergonha


Qual a opinião das 11 beldades que formam nossa bancada federal em Brasília sobre o uso de quase R$ 4 bilhões, tirados do erário público, para a farra das eleições? Algum dos 8 deputados e 3 senadores disseram alguma coisa?

Era opinião

A Justiça de SP rejeitou o pedido de indenização feito pelo Sindicato dos Artistas contra Roberto Alvim por ter chamado Fernanda Montenegro de “sórdida” após a atriz pousar em trajes de bruxa numa fogueira de livros.

Miséria vermelha


Um relatório da organização internacional de direitos humanos, Human Righs Watch, revelou que quase 600 crianças e adolescentes venezuelanos fugiram sozinhos para o Brasil para se livrarem da ditadura comunista de Maduro.

Farsa petista

Enquanto isso, uma organização parapetista travestida de direitos humanos decidiu condecorar e divinizar o maior corrupto do Brasil numa cerimônia no Beco da Lama, o templo das artes e da boemia. Mas não da arte da maldade.

Domingo arte

Hoje é dia da exposição que exibe a alma da Vila de Ponta Negra. É o projeto Uma Rua Chamada Corrupio, a partir das 10h no Berimbau Hostel Social, no número 210 da própria rua. Um sonho de Nathy Passos com Flavio Rezende.

Natal em Natal


Hoje é o último dia do espetáculo “Um Presente de Natal”, a partir das 19h na árvore natalina de Mirassol. A direção é de Diana Fontes com texto de Racine Santos e trilha sonora de Danilo Guanais. A entrada é gratuita para todos.

continuar lendo


Deixe seu comentário!

Comentários