Midsommar mostra o horror à luz do dia

Publicação: 2019-09-20 00:00:00 | Comentários: 0
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Mariane Morisawa
Especial AE

LOS ANGELES - A primeira coisa que Ari Aster quer que todo o mundo saiba é que Midsommar - O Mal Não Espera a Noite não é Hereditário, o filme de terror que marcou sua estreia nos longas-metragens. “Eles nem são do mesmo gênero”, disse o diretor americano de 33 anos, que define seu novo trabalho como um conto de fadas. “Os prazeres deste são muito diferentes dos prazeres do outro. Quem estiver esperando a mesma coisa vai ficar desapontado. Mas, se conseguir se entregar ao longa e deixar as expectativas de lado, pode encontrar algo de que gostar.”

Jovem vai para uma comunidade meio hippie na Suécia para ver os ritos do solstício de verão, mas coisas estranhas acontecem à luz do dia
Jovem vai para uma comunidade meio hippie na Suécia para ver os ritos do solstício de verão, mas coisas estranhas acontecem à luz do dia

A protagonista de Midsommar é Dani (Florence Pugh, de Lady Macbeth), que, depois de perder a família de maneira traumática, agarra-se ao que tem, o namorado Christian (Jack Reynor). “É uma tradição para mim escrever quando estou em crise”, disse Aster. “Muita gente me pergunta se é traumático falar de morte e luto, mas na verdade não, os filmes é que vêm do trauma. Midsommar foi escrito quando eu estava passando pelo fim de uma relação. E acaba sendo terapêutico para mim.”

Christian, porém, só não terminou o relacionamento por causa da tragédia na vida de Dani. Ela se convida praticamente para acompanhá-lo na viagem que faria com os amigos Josh (William Jackson Harper) e Mark (Will Poulter) à Suécia, a uma comunidade meio hippie e que adota antigos rituais pagãos onde Pelle (Vilhelm Blomgren) cresceu, para ver os ritos do solstício de verão. E é claro que aquela cena paz e amor não é bem o que parece - e, por mais que o diretor negue, o filme tem um quê de terror sim, pelo menos de “folk horror” na linha de O Homem de Palha.

Como o verão no norte da Suécia não tem noite, as coisas estranhas que começam a acontecer se passam à luz do dia. “Logisticamente foi um desafio”, contou Aster. “O sol se move o tempo inteiro, então a continuidade era um problema. Dependíamos sempre do tempo. Se chovia, não tinha filmagem. E nosso cronograma era apertado.” Mas ele insiste que fazer um filme de terror com o sol a pino não foi uma questão, por não se tratar de um filme de terror, em oposição a Hereditário, que, aliás, era praticamente todo no escuro. “Quem está assistindo a Midsommar sabe para onde as coisas estão indo, que é um ‘folk horror’ e que muita gente vai morrer. Então essa era a faceta menos interessante.” Para ele, os sustos não estavam o cardápio. Mas o contraste entre uma jovem em luto, que se pendura num relacionamento ruim, nesse cenário idílico e ensolarado, sim. “Há uma tensão entre seu interior e o exterior”, afirmou Aster, que se disse inspirado mais pelos cineastas europeus como Ingmar Bergman e Lars Von Trier do que pelos americanos de hoje.

Todos na comunidade são loiros de olhos claros. O cineasta disse não ter pretendido fazer um filme explicitamente político, mas que há elementos do que acontece na Suécia, com o ressurgimento do partido fascista, e nos Estados Unidos. “O longa trata muito de tribalismo”, disse. “E dá para notar como os visitantes da comunidade que não são brancos são tratados de forma diferente. Nada disso é acidental.”

Ari Aster fala de uma jovem mulher que descobre sua voz e seu poder, sem depender de um homem - ainda mais um que só deseja se livrar dela. Mas quis deixar claro que escreveu Midsommar antes dos movimentos feministas como #MeToo. “Não quero, porém, que o filme seja óbvio no que está querendo dizer. O final é catártico, mas espero que o espectador debata essa catarse mais tarde, pergunte se o seu sentimento está certo, se a conclusão é justificada.”




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