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Política
Milton Ribeiro relata ligação de Bolsonaro e investigação vai ao STF
Publicado: 00:01:00 - 25/06/2022 Atualizado: 00:39:05 - 25/06/2022
Fausto Macedo, Pepita Ortega, Rayssa Motta e Julia Affonso
Agência Brasil 

Interceptações telefônicas feitas pela Polícia Federal apontam, segundo a Procuradoria da República no Distrito Federal, para uma "possível interferência ilícita" do presidente Jair Bolsonaro nas investigações do "gabinete paralelo" no MEC - caso revelado pelo Estadão. De acordo com áudios, o ex-ministro da Educação Milton Ribeiro disse à filha que fora alertado pelo chefe do Executivo da possibilidade de realização de uma operação de buscas. Com isso, o caso saiu da primeira instância e voltou ao Supremo Tribunal Federal (STF).

DIDA SAMPAIO/ESTADÃO CONTEÚDO
Milton Ribeiro considera que, por haver autoridade com foro privilegiado, a ação é nula

Milton Ribeiro considera que, por haver autoridade com foro privilegiado, a ação é nula


O material veio a público ontem, um dia depois de Ribeiro e mais quatro suspeitos de envolvimento em um suposto esquema de liberação de recursos para municípios mediante pagamento de propina terem prisão revogada por ordem do desembargador Ney Bello, do Tribunal Regional Federal da 1.ª Região (TRF-1). Também ontem, o delegado Bruno Calandrini afirmou, em mensagem enviada a agentes que participaram da Operação Acesso Pago, que houve "interferência" e "tratamento privilegiado concedido" a Ribeiro.

Série de reportagens do Estadão publicadas a partir de março revelou a atuação dos pastores Arilton Moura e Gilmar Santos no MEC.
Também estão envolvidos no caso Helder Bartolomeu, ex-assessor da prefeitura de Goiânia, e o advogado Luciano Musse. Prefeitos relataram a solicitação de propina em dinheiro e até em barras de ouro. No fim daquele mês, mesmo com a afirmação de Bolsonaro de que punha "a cara no fogo" pelo então auxiliar - agora ele diz colocar "a mão" -, Ribeiro pediu exoneração e deixou a Esplanada.

As investigações saíram, então, do STF e foram remetidas para a Justiça em primeiro grau. O juiz Renato Borelli, da 15.ª Vara Federal Criminal do Distrito Federal, que decretou a prisão dos cinco suspeitos e expediu 13 mandados de busca e apreensão, impôs sigilo no dia 17 de maio. O áudio captado é de 9 de junho - logo, anterior à operação de quarta-feira passada.

Para a defesa de Ribeiro, por haver autoridade com foro privilegiado, a ação é "nula". O advogado de Bolsonaro, Frederick Wassef, negou que o presidente tenha interferido na Polícia Federal e falado com Ribeiro por telefone sobre o caso (mais informações nesta página).

"Ele (Bolsonaro) acha que vão fazer uma busca e apreensão em casa", relata o ex-ministro em ligação com a filha Juliana Pinheiro Ribeiro de Azevedo. O conteúdo foi revelado pela GloboNews e o Estadão também teve acesso à conversa. O ex-ministro afirma ter sido procurado por Bolsonaro. "Hoje o presidente me ligou. Ele está com um pressentimento novamente, de que eles podem querer atingi-lo através de mim, sabe?"

Juliana pergunta ao pai se Bolsonaro havia pedido para que ele não mandasse mais mensagens. "Eu não sei se ele (Bolsonaro) tem alguma informação. Eu estou ligando do meu celular normal, viu, pai?", avisa a filha no áudio captado. "Ah, é? Ah, então depois a gente se fala", afirma Ribeiro. A resposta chamou a atenção dos investigadores, que desconfiam que o ex-ministro pudesse saber que estava com o telefone grampeado.

Ribeiro foi interceptado, ainda, em grampos com mais interlocutores. Em um deles, com uma pessoa de nome Waldomiro, o ex-ministro da Educação afirma: "Mas eu acho assim, que o assunto dos pastores... É uma coisa que eu tenho receio um pouco é de... O processo... Fazer aquele negócio de busca e apreensão, entendeu?".

Além disso, no dia da operação, logo após a prisão de Ribeiro, sua mulher, Myrian Ribeiro, afirma que ele "já estava sabendo" que seria alvo da PF. "Ele estava, no fundo, ele não queria acreditar, mas ele estava sabendo. Eu falei: ‘Para ter rumores do alto é porque o negócio já estava certo’", diz Myrian Ribeiro ao comentar a prisão do marido a um interlocutor identificado como "Edu".

Crença
Em manifestação enviada à Justiça Federal, Calandrini, responsável pela Operação Acesso Pago, diz que a declaração "leva a crer" que o ex-ministro havia sido informado com antecedência sobre a possibilidade de uma operação.

Anteontem, três horas após a decisão de Bello, do TRF-1, o procurador da República Anselmo Henrique Cordeiro Lopes, em despacho a Borelli, apontou para a necessidade de averiguação da possível ocorrência dos crimes de violação de sigilo funcional com dano à administração judiciária e favorecimento pessoal, com o vazamento da operação pelo presidente. O procurador da República diz no documento, também, que há "indícios de igual interferência na atividade investigatória da Polícia Federal quando do tratamento possivelmente privilegiado que recebeu Milton Ribeiro".

No documento, Lopes lembra que Ribeiro não fora conduzido a Brasília, permanecendo em São Paulo, e tampouco, levado a qualquer unidade penitenciária "para que pudesse ser pessoalmente interrogado pela autoridade policial que preside o inquérito policial, apesar da farta estrutura disponível à Polícia Federal para a locomoção de presos".

"Nesse ponto, destaque-se que a ausência de Milton Ribeiro perante a autoridade policial foi prejudicial ao livre desenvolvimento das investigações em curso", registra o documento de anteontem.

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