Mindfulness, que é isso? (2)

Publicação: 2017-11-12 00:00:00 | Comentários: 0
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Dr. Jorge Boucinhas
Médico  e  Professor

No passado Artigo tratou-se da atualmente em moda Mindfulness.  Hoje, pelo volume de E-Mails solicitando mais informações, traz-se uma complementação.

Em se falando de ansiedade e pânico, ela nessa área tem concentrado o grosso de suas indicações.   Vale lembrar que o emprego de técnicas meditativas com fins terapêuticos data provavelmente do século VIII, quando o monge budista chinês Guifeng Zongmi descreveu um tipo destinado a pessoas comuns, sem objetivos religiosos e voltado à saúde, seja física seja mental.  A disseminação da meditação terapêutica no Ocidente pode ser datada dos anos 60, com a chegada do monge budista vietnamita Thich Nhat Hanh.  Nos últimos anos vasto rol de investigadores, principalmente na Massachusetts University e na Berkeley University (EUA), na Toronto University (Canadá), na Oxford University (UK) e na Universidade de Pochon-Cha (Coreia do Sul) têm-se dedicado a oferecer um referencial teórico científico para os efeitos positivos da Meditação, possibilitando assim um uso clínico livre de referencial religioso, abrindo-a a um público cada vez mais diversificado.

O termo Mindfulness e as expressões atenção plena e consciência plena entraram em voga, designando o estado mental caracterizado pela autorregulação da atenção, voltada para a experiência do momento presente, em atitude de curiosidade tolerante, dirigida aos eventos manifestados na mente consciente, quais sejam: pensamentos intelectualizados, lembranças, fantasias, sensações, emoções, sentimentos.  O domínio dessa forma de atenção se dá através de técnicas meditativas, permitindo ao indivíduo maior conscientização de seus processos mentais e de suas ações. 

O Psiquiatra John Miller, da Divisão de Medicina Preventiva da Massachusetts University, em estudo com pacientes diagnosticados com Síndrome do Pânico, achou absolutamente útil o emprego da técnica.  Jon Kabat-Zinn investiga o tema no Departamento de Psiquiatria da mesma Universidade há mais de 20 anos, tendo referendado os achados de Miller e mostrado reduções significativas de ansiedade, depressão e fobias.   Na Universidade de Pochon-Cha, Coreia do Sul, pessoas com Transtorno de Ansiedade Generalizada, Síndrome do Pânico e Fobias foram tratadas com maior sucesso que as cuidadas por meio de outras abordagens.  Mark Williams, Zindel Segal e John Teasdale, de Oxford, associaram-na extensamente à Terapia Cognitivo-Comportamental (TCC) e argumentam que interpretações budistas para o sofrimento são corroboradas por deduções embasadas no conhecimento a respeito do Eu e a ideia de Karma, por exemplo, estaria refletida nas técnicas da TCC que enfatizam comportamentos positivos e não prejudiciais a outrem como terapêuticos.

A abordagem é baseada na aceitação da experiência vital, criando-se a habilidade de responder a ela de maneira criativa e funcional.  Para se fazer isso é preciso aprender a estar mindful (consciente), atento a reações psicofísicas.  Como são integrados mente e corpo, isso permite que as pessoas mudem a maneira como experienciam seu dia-a-dia.  A prática exige perseverança, especialmente neste séclo XXI, no qual a impressão que se tem é a de ser difícil sobrar tempo para qualquer coisa que não seja buscar sucesso profissional.  A rapidez das mudanças desconecta os indivíduos de si mesmos, enche-os de tarefas e pressões, levando quase todos  a um constante sentimento de opressão.  Mindfulness propõe uma nova interação com qualquer coisa que aconteça na vida, fazendo-o de maneira mais consciente, solta e gentil.  Possibilita perceber o que radica por trás das reações e escolhas diárias, facultando enfrentar desafios até mesmo do porte de dor crônica e depressão severa.

O treinamento propõe uma volta a si mesmo, aumentando a conscientização dos atos no correr do “aqui e agora”, permitindo reconhecer e aceitar a realidade como ela é, sem envolvimentos emocionais, distorções intelectuais ou respostas automáticas.   Como acontecimentos interpretados como negativos são parte inerente da vida, a busca inconsciente pelo prazer pode gerar um estado de estresse pela insatisfação com o modo como as coisas vão indo.  Exercícios meditativos permitem lançar uma ponte desde pensamentos, emoções e opiniões corriqueiras até uma maneira mais flexível de viver, permitindo apreciar as mais simples coisas da vida ao ensinar a dar atenção ao fato de que algo de essencialmente bom mesmo em situações triviais.

Apesar das confirmações dos benefícios, estudos ainda são precisos para deslindar melhor os mecanismos que gerem o intrincado processo da viagem para dentro de si mesmo.  O convite a essa viagem já foi lançado séculos atrás, e até muitos cientistas céticos de hoje já o aceitaram.  Resta ver o que fará o resto da humanidade!

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