Minha área: A Cidade Alta do arquiteto

Publicação: 2019-03-24 00:00:00 | Comentários: 0
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Yuno Silva
Repórter

João Maurício Fernandes de Miranda, 86 anos, está entre os primeiros arquitetos profissionais de Natal. Estudou no Rio de Janeiro na virada dos anos anos 1950 para os 60, e desde sempre começou a colecionar memórias imagéticas de uma cidade que hoje existe apenas nos livros, cartões postais antigos e acervos históricas. Morador da Cidade Alta, centro da capital do Rio Grande do Norte, costumava andar pela cidade com uma máquina fotográfica à tira colo registrando edifícios e monumentos que logo iriam desaparecer. Parte desse acervo serviu de base para o conteúdo do livro “Natal Foto-Gráfico – Do passado ao presente” lançado em 2014. O título compara a transformação de paisagens urbanas.
João Maurício Miranda • arquiteto, pesquisador
“Hoje não tenho mais atividade como profissional, parei de dirigir, então não saio mais com frequência. Estou dependente de um filho, um parente, para me levar aos lugares então. Parei de vivenciar a cidade, e andar à pé é condição para se conhecer um lugar direito”, garantiu.

Personagem da sessão Minha Área deste domingo (24), o arquiteto lembra dos tempos que andava de bonde em Natal, ia com os amigos nadar na Lagoa Manoel Felipe (atualmente Cidade da Criança), da época da guerra, dos principais projetos da carreira e de quando a Av. Rio Branco ainda era de mão dupla: “Ajudei a elaborar o novo plano de tráfego para o centro de Natal, que incluiu a implantação da mão única na Rio Branco”, adiantou João Maurício, que queria ser Engenheiro Civil e mudou de área quando conheceu a Arquitetura no período que trabalhou como marceneiro de maquetes.

Sobre o título da matéria “Feliz é a cidade de Roma”, o próprio arquiteto explica o motivo da afirmação.

Revistas de guerra

Aos 18 anos João Maurício foi terminar o ginásio no Rio de Janeiro, com a intenção de fazer Engenharia Civil na universidade. “No auge da Segunda Guerra Mundial, eu tinha uns 11 anos e estava bastante doente de Tifo – com muita febre. Meu pai prestava serviço na base militar em Parnamirim fiscalizando a quantidade de combustível consumida, e sempre trazia revistas sobre a guerra para me ajudar a passar o tempo. Já sabia ler, e via muita miséria, destruição e cidades devastadas; vendo aquilo, achava que logo Natal estaria daquele jeito. Pensei que se fosse estudar Engenharia poderia ajudar a reconstruir a cidade. Ninguém sabia o que era nem o que fazia um arquiteto naquela época”.

Descoberta da arquitetura

Quando foi estudar no Rio de Janeiro, João Maurício precisava de um emprego para conseguir se manter por lá – o pai ajudava, mas não bancava todas as despesas. Com 17 anos, fez alguns trabalhos para a Prefeitura de Natal desenhando casas e ruas; tinha aprendido desenhar em perspectiva por conta através de livros. Nesse período ouviu o nome Debussy, “um rapaz aqui de Natal mais velho que eu, e que já assinava alguns projetos. No Rio, vi uma placa 'Debussy Maquetes', e entrei para saber se era o mesmo – e era! Me ofereceu um emprego como marceneiro de maquete, nunca tinha trabalhado mas disse que aprenderia. Foi ele que disse que aquilo não era trabalho de engenheiro, ali despertei para a Arquitetura. Passei no primeiro vestibular que fiz, em 1955.

Obras importantes

A obra mais representativa do currículo de João Maurício é o projeto da capela do Campus da Universidade Federal do RN. “Tem uma estrutura bem arrojada”, ressaltou. Também assinou sozinho os projetos da antiga sede do Tribunal Regional Eleitoral, na Cidade Alta, e da agência da Caixa Econômica na Ribeira. “As casas que projetei já foram todas demolidas, deram lugar lugar para edifícios. Só restaram fotografias”, lamentou. Com os sócios Daniel Holanda e Moacyr Gomes da Costa (autor dos traços do antigo estádio Castelão, depois rebatizado Machadão, e que deu lugar ao Arena das Dunas), montou o primeiro escritório de Arquitetura em Natal. “Juntos fizemos o projeto da sede do IPE-RN na Rua Jundiaí, e da sede do DER-RN na Av. Salgado Filho”.

Rio Branco

O escritório de João Maurício, Daniel e Moacyr foi contratado, no final dos anos 1960, pelo então prefeito de Natal Agnelo Alves (1932-2015) para elaborar um plano de tráfego para o centro a cidade. “A Rio Branco era mão e contramão. A cidade estava crescendo, o volume de trânsito aumentando, e apresentamos a adoção de mão única na Rio Branco descendo para a Ribeira, com subida pela Parada Metropolitana”.

Transformação da cidade

O arquiteto lembrou de quando Natal era uma cidade “mínima”, com bairros dispersos. “Natal acabava ali na Av. Bernardo Vieira, onde tinha um posto fiscal que chamavam de 'corrente': todos os caminhões tinham de parar ali. Para frente era só sítio, zona rural. Eu, meu irmão e uns amigos íamos à pé por ruas de areia tomar banho na Lagoa Manoel Felipe, onde hoje é a Cidade da Criança; era tudo granja. Levei muita carreira de cachorro roubando araçá, o perigo maior na época era cachorro bravo.

Linhas de bonde

Antes de ir estudar no Rio de Janeiro, João Maurício chegou a andar nos bondes que cortavam a cidade. “O bonde deixou de circular no começo dos anos 1950. Lembro que tinha uma linha que descia a Av. Junqueira Ayres (atualmente Av. Câmara Cascudo) até a Esplanada Silva Jardim onde fica o prédio da Receita Federal. Dali voltava para o Alecrim, ou subia até Av. Getúlio Vargas e voltava. Tinha outra linha que ia até o Aeroclube, no Tirol.

Memória urbana

Convidado pelo Instituto Histórico e Geográfico do RN para ministrar palestra sobre Natal, seu centro histórico e monumentos, João Maurício disse que o título da palestra seria “Feliz é a cidade de Roma”. “Estranharam o nome, não entenderam. Quando fiz a palestra, mostrei o que já havia sido derrubado, obras antigas e monumentos que não existem mais. Tinha um coreto lindo, importado da Europa, na Praça André de Albuquerque; outro na Praça Augusto Severo também importado. No final mostrei o Coliseu de Roma, foi quando todo mundo entendeu o título da palestra.

Música e caravelas

Uma coisa foi puxando a outra na vida do arquiteto João Maurício: a partir do ofício da marcenaria começou a construir objetos em madeira nas horas de folga. Depois passou a produzir em detalhes réplicas em escala de caravelas portuguesas, a partir de plantas adquiridas no Museu de Marinha de Lisboa, Portugal. “Como arquiteto, domino esse projetos, e comecei a construir. Mas devido problemas de saúde, fui proibido pelo médico: o pó de serra iria agravar os problemas respiratórios. Acabei debandando para a música: comprei um instrumento, arranjei bons professores e hoje minha vida é essa. Leio partitura, toco música clássica e popular brasileira, mas essa zoada atual não entra aqui.





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