Minha Área: A Vila Flor de de Lúcia Beltrão

Publicação: 2018-05-13 00:00:00 | Comentários: 0
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Ramon Ribeiro
Repórter

Há 50 anos inaugurava em Natal uma das galerias que mais movimentou a cena artística de Natal: a Vila Flor. Por lá passaram artistas importantes da época, como Newton Navarro e Thomé Filgueira, e nomes que viriam a despontar, como Fernando Gurgel. Localizado na famosa Vila Palatnik (dos pais do artista Abraham Palatnik), na avenida Ulisses Caldas (em frente ao Colégio Imaculada Conceição), o espaço também recebeu ao longo dos seus cinco anos de existência a turma da música, do teatro e da literatura, tornando-se um agitado ponto de encontro da classe cultural da cidade.
Aos 82 anos, a viúva do artista Augusto Severo Neto tem se dedicado a recontar  as memórias de um dos mais importantes espaços de arte dos anos 60/70, a Galeria Vila Flor,  por onde passaram grandes artistas e exposições
Aos 82 anos, a viúva do artista Augusto Severo Neto tem se dedicado a recontar  as memórias de um dos mais importantes espaços de arte dos anos 60/70, a Galeria Vila Flor,  por onde passaram grandes artistas e exposições

À frente da galeria estava o casal Augusto Severo Neto e Maria Lúcia Beltrão. Viúva de Severo Neto – falecido em 1991 –, Lúcia tem rememorado bastante a história da Vila Flor, tudo porque duas amigas suas, Margarida Seabra e Diva Cunha, a incentivaram a colocar a trajetória da galeria no papel. Aos 82 anos e entusiasmada com a missão, ela tem dedicado seus dias a escrita, embora sinta um pouco de pressão.

“Augusto Severo Neto era escritor, jornalista, publicou 16 livros. Minha formação é em Administração e Psicologia. Tudo que escrevi foi nessa área. Então é uma desafio grande”, explica Lúcia, alagoana que desembarcou em Natal em 1963 e se apaixonou pela cidade. Segundo ela, o livro já está bem encaminhado e tudo indica que até o final do ano deverá ser lançado. “Será um livro de memórias. As pessoas já me pediram muito para escrever essa história. Agora vai sair”.

Para saber um pouco do que deve vir no livro, a reportagem da TRIBUNA DO NORTE visitou a galerista em seu apartamento no Tirol, cujas paredes repletas de quadros estampam seu amor pela arte. No transcorrer da conversa, Lúcia praticamente fez um retrato da cena artística natalense do final dos anos 60 e início dos 70, exatamente no período mais duro do Regime Militar. “Foram anos formidáveis. Mesmo com a Ditadura, a gente encontrou nosso lugar de poesia para ser livre e exercitar a arte”.

Vila Palatnik

A Vila Flor ficava na Vila Palatnik, uma vila de judeus. A galeria ficava numa sala no final da rua. Depois ampliamos para uma casa do lado. Os Palatnik não viviam mais lá. Mas a vila estava cheia de moradores. Eu achava isso extraordinário, porque a zoeira era grande. Tome música todo dia. Mas o pessoal aceitou bem. No livro até faço um agradecimento a uma das moradoras. Em palavra a gente não sabe transmitir o clima. Era uma festa toda noite. Os amantes de arte da toda a cidade estavam lá.

Os artistas

A galeria foi inaugurada em junho de 1968, com uma exposição de Leopoldo Nelson. Nosso relacionamento era muito bom com os artistas da época. Thomé Filgueira, Iaperi Araújo, Jussier Magalhães, Newton Navarro, Carlos José, Zeneide Pessoa, Fernando Gurgel. Eram todos pessoas de muito talento e expuseram na Vila Flor. É muito bom ser amigo de artista. Mas também pode ser sofrido. Quando penso em Thomé me dói até a alma. Uma vez ele chegou com uma pintura. Eram quatro cavalos bebendo água com o reflexo de cada cabeça no rio. Pra mim, era um impressionista perfeito.

Cenário de Arte dos anos 60

Naquele tempo as galerias de arte em Natal eram sucessivas, mas não simultâneas. Antes da Vila Flor lembro que existia a galeria da prefeitura, na Praça André de Albuquerque, na gestão de Djalma Maranhão. Depois teve a galeria de Paulo de Tarso Correia de Melo, a Xaria, na Praça Padre João Maria. Foi lá que comecei a conhecer os pintores. Dorian também chegou a ter uma galeria, na rua Princesa Isabel. Até que apareceu a Vila Flor.

A música

A galeria congregou todo tipo de arte, principalmente música. Toda noite tínhamos apresentação de alguém. Mirabô e Odaíres foram importantíssimos para a Vila Flor. Era namorados e sempre se tocavam lá. Betinha e Nonora, duas irmãs, eram adolescentes na época. Saíam do Colégio Imaculada Conceição, passavam em casa rápido para jantar e iam tocar na Galeria. Recebemos muitos professores da Escola de Música da UFRN também que faziam concertos.

Cinema

Aldo Medeiros, colecionador de filmes do cinema mudo, uma vez ofereceu filmes da sua coleção e o equipamento de projeção pra gente exibir. Botamos um lençol na parede e exibimos. Eram filmes mudos, em preto e branco, com o projetor fazendo aquele zumbido.

A turma do Teatro

A turma de teatro estava sempre na galeria. Depois dos espetáculos o pessoal descia pra lá. Sobre o teatro da época, não dá pra esquecer de falar da montagem do espetáculo Macbess, da Companhia Baiana de Teatro. Foi um marco no teatro daqui. A peça foi encenada no Forte. Imagine a loucura pra época! Tinha a história dos urubus sobrevoando o Forte, teve também uma cena suspensa porque era usado um carneirinho. Nesse tempo nosso principal artista era Jesiel Figueiredo. Jesiel montou Calígula, outro marco do teatro daqui, com os atores se misturando com a plateia, servindo vinho em copinho de barro e alguns apagões de luz que faziam algumas do público correr do teatro com medo.

Ditadura militar

Nunca houve problema. Até porque a gente tomava uns cuidados. Qualquer pessoa estranha que aparecia a gente segurava a língua para não falar demais, ficava de olho, se aproximava, puxava papo para saber de onde a pessoa era. Por incrível que pareça a galeria acabou sendo frequentada por dois comandantes da Marinha. Com o tempo eles se afeiçoaram a gente, eram bem humorados. Um deles era carioca, tinha aquele sotaque chiado, acabou ganhando um apelido: “Txi Marinha”.

Prisão de Iaperi

Dos artistas que tiveram problema com a Ditadura tem o caso de Iaperi. Estudante de Medicina, o professor pediu um trabalho sobre mortalidade infantil, ele abriu o texto com versos de João Cabral de Melo Neto. Por causa disso ele acabou preso no 16 (Batalhão de Infantaria). Quem conseguiu soltá-lo foi doutor Leide Morais. A ironia é que João Cabral de Melo Neto nunca foi preso pelo que escreveu. Mas quem o citou, foi.

Tempo curto

A galeria durou pouco tempo, apenas uns cinco anos. Não dava dinheiro, era mais um lugar de encontro. Mas a gente adora aquilo. Fechou em 72 porque Augusto precisou assumir outros compromissos. O governador Cortez Pereira o convidou para ser diretor cultural da Fundação José Augusto. Dessa forma não deu para conciliar as duas coisas.

A Coisa

Além de escrever Augusto também fazia artesanato. Depois que paramos com a galeria ele abriu um loja de artesanato com Mirabô. Se chamava A Coisa. Outra iniciativa dele foi quando ele era diretor da Fundação José Augusto, o Museu de Arte Popular do Forte dos Reis Magos. Era algo lindo, com projeto do arquiteto Janete Costa, conhecido nacionalmente. Tinha todo tipo de trabalho. Numa das salas foi instalada uma casa de farinha.

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