Minha Área: Adriano Azambuja, um guitar hero pelas ruas da Ribeira

Publicação: 2019-09-22 00:00:00 | Comentários: 0
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Ramon Ribeiro
Repórter

Caminhar pela Rua Chile traz boas lembranças para o “guitar hero” Adriano Azambuja, o cara dos riffs de bandas como Bandeira do Urso, Cabeças Errantes, AMáquina, Síntese Modular, Sangueblues e The Automatics. Mineiro radicado em Parnamirim desde 1979, quando chegou com 10 anos de idade, ele vivenciou as várias fases de revitalização cultural da Ribeira, sobretudo a primeira, na metade da década de 90, quando a Rua Chile era o lugar efervescente onde todo jovem músico com trabalho autoral procurava estar. Então, para Azambuja, pisar naquele chão de paralelepípedo rodeado de prédios velhos faz emergir antigas memórias – e outras nem tão antigas assim.

“A última vez que vim aqui eu estava participando de um curta-metragem, era a conclusão da oficina do ator Anselmo Vasconcelos. Na cena eu atravessava o Beco da Quarentena, alguém aparecia e começava uma briga. Eu tinha que cair no chão. Cara, tava sujo demais aqui, mas eu me joguei, exatamente aqui, perto desse lixo ai”, lembra com sorriso no rosto o músico, cintando também sua faceta de ator descoberta há pouco tempo. “Eu me sinto impregnado nessas ruas, sei lá... década de 90, eu com vinte e poucos anos, tocando nos bares daqui, a gente acreditando que a Rua Chile ia bombar, que íamos tocar para sempre... voltar agora para lembrar dessas histórias traz muita emoção”.
Um dos instrumentistas mais conhecidos de Natal, Adriano Azambuja se reconecta à Rua Chile dos anos 90, onde todo jovem músico com trabalho autoral procurava estar
Um dos instrumentistas mais conhecidos de Natal, Adriano Azambuja se reconecta à Rua Chile dos anos 90, onde todo jovem músico com trabalho autoral procurava estar

Azambuja é esse cara de ar tranquilão, cabelos grisalhos e olhos claros que observa a tudo com sensibilidade aflorada. É de fato um artista da guitarra, o que pôde ficar mais evidente quando começou a lançar seus trabalhos solos, a exemplo de “Vagalume e o som das coisas que estão sem nome” (Solaris, 2005). Desde então vieram outros álbuns e participações em discos de amigos e trilhas para filmes diversos. Atualmente o músico está empenhado na gravação de um novo trabalho, instrumental, onde a guitarra será a grande estrela. Sobre a guitarra, as bandas, os bons tempos da Ribeira, o Beco do Picado em Parnamirim, e outras histórias, Azambuja conversou com a TRIBUNA DO NORTE. Confira.

O Homem de Lagoa Santa

Sou mineiro de Lagoa Santa, cidade importante para a arqueologia mundial por ter sido o lugar onde foi encontrado o fóssil do “homem de Lagoa Santa”. Vim pra Parnamirim em 1979, com dez anos. A cidade era bem pequena. Fui estudar na escola da Base Oeste. Meu pai era militar, tinha sido transferido pra cá. Minha vida girava em torno da escola, da piscina e do cinema da base, que foi um grande legado deixado pelos americanos da 2º Guerra.

A Giannini Stratocaster

Só fui começar a tocar guitarra quando completei 16 anos e minha mãe me deu meu primeiro instrumento, uma Giannini Stratocaster. Comecei como autodidata, batendo cabeça para aprender. Depois fiz aula com Cleudo Freire e com Manoca Barreto. Até hoje estou tentando aprender esse instrumento. Quando está desligado, tem um som tranquilo, mas quando ligado, é indomável, o som foge do seu controle, pode te surpreender com um ruído interessante e te dar muitas outras possibilidades. Minha referências são Beatles e Elvis, quando comecei a tocar, depois Led Zeppelin, Deep Purple, Black Sabbath, Hendrix. E tentando entender como esses caras tocavam, fui atrás do que eles ouviam, e a raiz da maioria das bandas daquela época era o blues. Também me interessei muito por John Frusciante (ex-Red Hot Chilli Peppers) e Frank Zappa, que destamparam legal minha cabeça.

Guitarras com alma

Guitarras já tive muitas. Hoje são sete lá em casa, quatro minhas e três do meu filho. A maioria das minhas guitarras eu comprei usadas. Gosto das que têm estrada, marcas de uso, arranhão, que já fizeram bastante som, tem a madeira curtida, com alma como as pessoas dizem. Quando as coisas apertam, me desfaço de uma, depois quando vejo alguma de sonoridade diferente, compro. Tem uma que eu não posso me desfazer porque meu filho já disse que é a herança dele, uma Giannini SG, de 1970, raríssima, muito bem feita, leve, não fica devendo a nenhuma guitarra importada. Ela é meu xodó, praticamente não uso.

Várias bandas

Já tive banda com CBI antes de ele ir para o Mad Dogs. Éramos amigos lá em Parnamirim. Também tive AMáquina. Numa apresentação em Natal, Vlamir (Cruz) me chamou para tocar com ele no Cabeças Errantes. Foi o cara que fez a ponte Parnamirim-Natal pra mim, que abriu algumas portas para eu tocar na noite. Também participei de várias bandas de amigos, como o General Lee (depois General Junkie), onde cheguei a gravar um trabalho com eles. No final dos anos 90, o CBI foi tocar com o Mad Dogs, eu tinha uma dupla forte com ele, fiquei meio órfão, mas surgiu a oportunidade de tocar com os caras do Sangueblues que eu já conhecia de outras bandas.

Rua Chile

A época do Sangueblues foi o da revitalização da Ribeira, a Rua Chile ficava lotada, tinha bares muito legais, todo mundo ia pra lá, tinha o Blackout, que chegamos a ser a banda da casa, tocava toda sexta. Também tinha o Bronx, Bimbos, Armazém do Cais… foi uma fase em que as casas abriram para as bandas. Antes a gente que tinha que promove nossos próprios shows, não tinha espaço pra ficar tocando nos bares. Com a Rua Chile mudou. Mas o Sangueblues tinha um repertório que a gente chamava de radiola de ficha, tocava de tudo, mas dentro de uma certa coerência, claro. Meio que foi a coverização da noite, mas tem um lado bom porque os bares passaram a olhar para as bandas, pagar cachê.

Solos

O divisor de águas pra mim foi em 2005, quando gravei um disco solo, pela Solaris Discos, um selo de Alexandre Alves e Henrique Pinto. Até aquele momento eu só era visto como guitarrista. E a partir daquele momento as pessoas descobriram meu lado compositor, arranjador, pude tocar outros instrumentos também, um pouco de teclado, de bateria e de baixo. “Vagalume e o som das coisas que estão sem nome” (2005) o nome do disco. Joca Soares fez um clipe com aquelas câmeras fotográficas digitais, filmava de um em um minuto. Por causa do clipe fui chamado para tocar no MADA. Depois eu gravei outros quatro ou cinco discos, todos independentes, em home studio, gosto de registrar minhas ideias musicais. Agora estou gravando um disco instrumental. A primeira música foi gravada há três anos, mas tive que parar por causa da história dos filmes, agora vamos retomar. Era algo que me pediam, fazer um disco de guitarra. Já tenho três faixas gravadas. Vai sair ano que vem.

Beco do Pingado

O fato de ter gravado discos, de estar tocando em Natal, acabou que sem querer eu e alguns amigos nos tornamos referência para os meninos de Parnamirim, influenciando o surgimento de outras bandas por lá. Tem gente que fala que o primeiro show de rock que viu na vida foi o meu, no Beco do Picado. O Beco tem uma história legal. Fica ao lado do mercado velho de Parnamirim, tinha uns barzinhos que davam aquela pingaiada, era o lado boêmio trash da cidade. Ai um amigo nosso, produtor, começou a promover uns shows lá, tudo de forma discreta. A gente juntava equipamento de uma banda com outra, fazia cartaz pra sair divulgando na cidade. Teve uma época que fizemos o coletivo For All, que instalamos algumas casinhas de leitura com intervenção cultural, com show e bazar, coisas simples de fazer. A prefeitura achou legal o movimento e resolveu incorporar o Beco do Picado na agenda cultural por uns tempos, com mais estrutura e cachê pras bandas. Uma pena que não continuou. Foi um período muito bom. Já teve até edição do Festival Dosol lá.

Trilhas e atuações

Tudo começou com o Paulo Dumaresq que me chamou para fazer a trilha do curta “Incontinências”. Foi minha primeira experiência, um desafio enquanto músico, fazer música pra cinema. Depois fiz a trilha do documentário Passo da Pátria. Num dos dias no estúdio de Vlamir, ele estava debatendo o roteiro do “Em Torno do Sol”, eu ia passando e o pessoal me perguntou se eu não toparia fazer o papel. Eu topei. Foi minha estreia como “ator”, algo que nunca imaginei. Mas fiz porque me identifiquei bastante com o personagem, um cara que fazia umas medições da atmosfera, solitário. Lembrei daquela série Kung Fu com o David Carradine, que ficava andando a esmo, e as coisas iam acontecendo. Lembrei também de “Viajante Solitário”, de Jack Kerouac. Sempre gostei de personagens outsiders, então fazer o curta foi um presente pra mim. E abriu a possibilidade de fazer participações em outros curtas, como “Respeitável Público” e “Insustentável”.

Blues e Outras Intenções

Hoje em dia a noite tá fraca pra banda, então fizemos essa dupla. Originalmente era Gustavo Lamartine (Dusouto) e Isaac Ribeiro (Sangueblues), mas o Gustavo passou um tempo sem poder tocar, então eu o substitui. O Gustavo melhorou agora, tá voltando, a gente pensa em formar um trio. A noite é assim, você tem que ir se adaptando né. Quando estiver bom pra banda, a gente vai de banda, se não, vamos de dupla, trio, de uma forma ou de outra sempre buscamos dar continuidade aos nossos trabalhos. Os desafios da noite ainda são os mesmos de quando comecei, cachês baixos, dificuldade de achar espaço pra tocar. É algo que nem sempre compensa, a gente investe tanto num instrumento, mas fazemos porque a gente gosta, porque queremos tocar, mostrar algumas coisas, se divertir um pouco. E se rolar uma graninha então... melhor ainda.



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