Minha Área: Alecrim de discos e livros

Publicação: 2019-10-13 00:00:00 | Comentários: 0
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Ramon Ribeiro
Repórter

Quem estudar a história da música potiguar obrigatoriamente vai topar com algum dos livros da escritora e pesquisadora Leide Câmara. São de sua autoria as obras “A Bossa Nova de Hianto de Almeida” (2010), “Luiz Gonzaga e a Música Potiguar” (2013), “Ademilde Fonseca – A Potiguar no Choro Brasileiro” (2015) e “Praieira 93 anos – A Canção da Cidade do Natal” (2016). Mas o trabalho mais marcante de Leide é sem dúvida “Dicionário da Música do Rio Grande do Norte”, seu livro de estreia, lançado em 2001. Calhamaço com mais de 500 páginas, a obra reúne 600 verbetes de músicos catalogados, com discografia e musicografia, abarcando nada menos que um século de produção musical no estado.

Leide Câmara, pesquisadora e escritora
Leide Câmara, pesquisadora e escritora

“Dicionário da Música do Rio Grande do Norte” foi um divisor de águas na vida de Leide. O livro não apenas suscitou as obras seguintes já citadas, colocando a autora como referência no assunto, mas também a levou a Academia Norte-Rio-Grandense de Letras (ANRL), onde, no contato com essa agremiação, ela pode estender seus interesses de pesquisa histórica para a área da literatura. O resultado foi o livro “Memória Acadêmica”, outro calhamaço, dessa vez com mais de 600 páginas, em que estão registrados mais de 80 anos de existência da instituição.

Além da música e dos livros, outra grande paixão de Leide é o bairro do Alecrim, lugar onde ela fez morada depois de passar por alguns pontos em Natal, isso nos anos 60, ao chegar à capital potiguar vinda de Patu, sua cidade de origem. “É um bairro super musical,  onde moraram muitos músicos. E tem a magia da feira, do cemitério, do povo andando nas ruas”, comenta a escritora em entrevista à TRIBUNA DO NORTE. No papo ela detalhou algumas das suas pesquisas, antigas e recentes, recordou algumas passagens interessantes de sua trajetória e declarou seu amor pelo Alecrim.

De Patu para o Alecrim
Chegamos no Alecrim na década de 60. Foi uma fase muito marcante porque é o começo da minha adolescência. Mamãe se apaixonou pelo bairro. Nossos vizinhos eram pessoas que vieram de Patu e Assu, como a gente. Mamãe dizia que não sairia do Alecrim por nada, só para o cemitério. E a gente respeitou essa vontade dela. Só nos mudamos de lá depois que ela morreu, 1986. Mas ela continua lá no bairro, está enterrada no Cemitério do Alecrim.

Personagens e lugares afetivos
Um tempo desse postei no Facebook algumas lembranças do Alecrim. Por exemplo, tinha o Professor Luís Soares, que morava em frente a Escola Padre Miguelinho, onde eu estudei. Eu o via muito passando em frente a escola. Ele foi o fundador do grupo de escoteiros. Tinha também o Casa Azul de Dona Dondon, que vendia coisas de armarinho, assim como o Armarinho de Dona Sidá. Lembro também do escritor Rômulo Wanderley, que morou na rua da feira. Além da loja de Móveis de Bráulio, pai do escritor Alex Nascimento. A loja ficava próxima ao Armazém Triunfo. Lá em casa a gente ainda tem móveis feitos por ele.

A 1ª Farmácia 24 horas.
A primeira farmácia 24 horas de Natal surgiu no Alecrim. Ficava no edifício Leopoldo. Era conhecida como a farmácia que não tinha porta, porque não fechava nunca. Mas do meu tempo também lembro da Miscelânea de Seu Manoel Protásio. Quando ele atendia o telefone dizia que quem estava falando era “o homem mais lindo da avenida 10”. Outros lugares da minha memória é o Café Vencedor, de Seu Lopinho, e Café Dois Amigos, de Seu Paulo.

Lugar Musical
É um lugar super musical. Lá aconteceram importantes movimentos musicais, foi onde moraram muitos músicos. Tinha o Café Nice, ponto de encontro feito à semelhança do bar de mesmo nome no Rio de Janeiro. Tinha também a Quitandinha, onde aconteciam de comícios políticos à shows de Luiz Gonzaga, na esquina da Praça Gentil Ferreira.

Cemitério do Alecrim
Acho o Cemitério do Alecrim fantástico. É onde repousam na eternidade os vultos da nossa história. Quando estava fazendo o livro Memória Acadêmica, quis saber aonde estavam sepultados todos aqueles que passaram pela academia. E o Alecrim é onde está sepultado a maioria deles. Muitos também estão em Nova Descoberta.

Gosto pela pesquisa
Ainda quando morava em Patu, lembro que papai costumava comprar peças antigas dos Mascates, de guardar louças velhas. Ele tinha esse cuidado com a preservação da memória. E acho que peguei isso dele. Comecei a pesquisar em 1996, eu estava na Fundação José Augusto e via os músicos chegarem com seus trabalhos. E muitas vezes eu via aquele material encostado no canto. Lembrei que já existiam o Dicionário do Folclore, de Cascudo, o livro de Dorian Gray sobre os artistas plásticos do estado, mas não tinha nada sobre música. Então me voltei para essa área.

Mais de 12 mil músicas
Quando comecei a pesquisa as pessoas diziam que com 20 nomes fechava o livro. Não se conhecia a música potiguar além daquela geração da época, de artistas como Babau e Pedrinho Mendes. E pesquisando eu levantei 100 anos de música do Rio Grande do Norte. Que é o que retrata o Dicionário da Música Potiguar. No livro só consta o verbete de quem tinha registro fonográfico, mas eu cito outros artistas. São 600 verbetes, dentre compositores, cantores, instrumentistas. Cerca de 12 mil músicas registradas.

Até o príncipe Charles
Recentemente o Ed Motta esteve na cidade, perguntaram a ele se ele conhecia alguma coisa da música potiguar e ele disse que tinha comprado um exemplar do Dicionário lá no Japão. E a Neta de Tonheca Dantas, quando o Príncipe Charles esteve em Brasília, conseguiu entregar um exemplar do dicionário para ele. Depois eu recebi uma carta assinada pelo príncipe Charles agradecendo. Pedi para traduzirem. Fiquei feliz da vida. Outra alegria que tive foi ao fazer o livro de Hianto e descobrir a parceria dele com Chico Anysio. Eles fizeram trinta e poucas músicas juntos. Mandei um exemplar pra Chico Anysio e ele me respondeu num telegrama dizendo que aquele foi um dos melhores presente que havia recebido nos últimos dez anos. Ele queria me levar para o Jô Soares, mas a doença dele se agravou.

De pesquisadora à colecionadora
Na pesquisa eu comecei a querer ter o material que eu pesquisava, até para poder mostrar depois que o que eu estava falando no dicionário era tudo verdade, tinha registro. Nisso comecei a juntar material. Meu acervo tem peças de todas as mídias que você imaginar, DVD, CD, fita k7, tenho discos de 78 rotações, tenho de acetato. Tenho um acetato de Royal Cinema. É uma das minhas peças mais raras. Foi minha primeira referência de música potiguar. Também tenho peças que pertenceram aos músicos, instrumentos musicais. Por causa dessa coleção criei o Instituto Leide Câmara - Acervo da Música Potiguar. Esse acervo está na garagem da minha casa. É muito grande. Tenho um sistema de catalogação, bem detalhado, mas leva tempo para subir todas as informações. Todos os dias eu me dedico, um pouquinho que seja, a catalogar algum registro da música local.

2ª edição do Dicionário
Hoje eu tenho catalogados mais de 5 mil músicos. E cada um eu procuro ter sua história e músicas. Alguns são cantadores de bairro. Estou trabalhando na segunda edição do Dicionário, fazendo atualizações. Está mais difícil porque estou incluindo informações da oralidade, e não apenas de registros fonográficos.

Literatura
Pesquisando a música potiguar eu tive a oportunidade de conhecer um pouco da literatura, porque muitos poetas locais tiveram seus versos musicados. E quando o livro foi lançado, abriu muitas portas pra mim. Foi com ele que eu entrei na Academia Norte-Rio-Grandense de Letras, onde sou Secretária Geral. Nessa função comecei a cuidar da memória da academia. Então trouxe toda minha paixão pela pesquisa pra cá, aproveitando muito do meu material já pesquisado. O resultado é o livro “Memória Acadêmica”, minha publicação mais recente.

Produção musical
Em todas as fases da música brasileira temos potiguares envolvidos. Temos o Mário Tavares, que por três décadas foi regente da Orquestra Sinfônica do Teatro Municipal, do Rio de Janeiro. Tem o Aldo Parisot, que chegou a ser considerado o maior violoncelista do mundo. Na Música Armorial, que muita gente acha lindo, tem potiguar envolvido, mas as pessoas nem sabem. Joca Madureira, neto de Tonheca Dantas, por exemplo, fez música Armorial. Mas as Modinhas acho que foi o movimento mais importante para a história do RN.







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