Minha Área: Antonio Stélio, o cronista da Praia do Meio

Publicação: 2019-12-08 00:00:00
Ramon Ribeiro
Repórter


A piscininha formada na maré seca era convidativa. Poderia ficar ali por horas, só com a cabecinha de fora, jacarezando sob o sol da manhã com umas cervejinhas do lado. Era o que muitos estavam fazendo. E eu, de tênis e calça jeans, invejava da areia. Ao meu lado estava o jornalista e filósofo Antonio Stélio, acreano de nascimento, natalense por opção, e morador apaixonado da Praia do Meio: “Moro naquele prédio ali, de frente pra praia, abro a janela e dou de cara com esse marzão todo dia”. É, Stélio, eu te invejo também.

Stélio é camarada bom. Homem da selva, cresceu entre seringais, partiu de casa para fazer faculdade em São Paulo, se engajou no movimento estudantil de esquerda, desbundou, pegou a estrada vendendo poesia pelo país. Por Natal ele deu as caras em 1986. Hippie, dormiu na praia mesmo, exatamente na Praia do Meio, e de manhã, ao bater os olhos no mar, aquele verde marinho o fisgou pra valer! Prometeu naquela hora que voltaria para o Acre para trabalhar duro com o objetivo de fazer grana e retornar para Natal, onde repousaria sossegado na Praia do Meio. Foi justamente o que fez.
Créditos: Adriano AbreuAcreano apaixonado pela Praia do Meio, o escritor Antonio Stélio olha com ternura para a fauna humana popular, folclórica e inspiradora do lugarAcreano apaixonado pela Praia do Meio, o escritor Antonio Stélio olha com ternura para a fauna humana popular, folclórica e inspiradora do lugar

Acreano apaixonado pela Praia do Meio, o escritor Antonio Stélio olha com ternura para a fauna humana popular, folclórica e inspiradora do lugar

Em cinco ano de estadia definitiva em Natal, já escreveu três livros: o romance “Rosalina, Meu Amor”, a biografia “O anjo devasso: uma biografia romanceada do poeta Juvenal Antunes”, e o mais recente “Crônicas da Praia do Meio”. Publicada pelo Sebo Vermelho, esta obra será lançada na próxima terça-feira (10), a partir das 19h, no Bardallos (Cidade Alta), com discotecagem do “Implacável do Vinil”.

Como o próprio título entrega, “Crônicas da Praia do Meio” é uma homenagem ao lugar que tanto fascinou o autor. Mas engana-se que espera encontrar em suas crônicas histórias do passado badalado da praia. O lance de Stélio é outro. Seu olhar é para a Praia do Meio atual, popular e folclórica, onde a paisagem é coadjuvante da fauna humana tão rica e inspiradora. Dentre as histórias, estão a de Paulinho do Coco, Vovô da Praia, Maria Molambo, Bigode e até a do cachorrinho Bob, figura querida por todos da praia.
Créditos: Adriano AbreuOs personagens da Praia do Meio ilustram histórias do livro “Crônicas da Praia do Meio”Os personagens da Praia do Meio ilustram histórias do livro “Crônicas da Praia do Meio”

Os personagens da Praia do Meio ilustram histórias do livro “Crônicas da Praia do Meio”

O Malandro Bob

Paulinho do Coco tem dois cachorros, o Tonho, que já tá velhinho, gosta de ficar quieto, e o Bob, novinho e malandro. As vezes a gente fica bebendo aqui no calçadão e o Bob fica com a gente. Tem um casal amigo nosso que mora em Santos Reis, quando eles vão pra casa o Bob vai lá deixar eles e volta sozinho. Eu moro aqui na frente, pertinho, mas o Bob faz a mesma coisa. Vai me deixa lá na portão e volta. E com isso ele ganha a vida, pegando uma ou outra comida que deixam pra ele. É um verdadeiro malandro, se dá bem com todo mundo. Soube que foi atropelado recentemente por uma moto. Ficou meio tortinho. Uma senhora aqui levou ele pra casa pra cuidar dele.

O Embaixador


Paulinho do Coco é o repórter da praia. Ele dá conta de tudo e te mostra a foto. Quando você quer saber se alguém passou por aqui, basta perguntar pra ele. E tem um apito. Fica ali vendendo coco mas de olho na rua. Quando alguém pega a contramão ele já vai logo dando sua apitada. Como é um cara informado de tudo e conhecido por todos, eu o chamo de embaixador da praia.

Vovô da Ponta do     Morcego

Outro personagem interessante aqui é Vovô da praia. Fica lá na Ponta do Morcego. Simplesmente, esse caba tem um recorde extraordinário: é morador de rua há 48 anos. Talvez seja o morador de rua mais antigo de Natal. Uma vez perguntei qual era o sonho dele, no que me respondeu “quero completar 50 anos morando na rua”. Tem dois filhos enfermeiros que já tentara levar ele pra casa, mas não tem jeito. Ele dorme num alpendre na Ponta do Morcego, consegue comida com os restaurantes de lá. É um cara que passa bem de vida.

Noiados

Aqui na Praia do Meio também tem os noiados [dependentes químicos] da praça, os malucos. Gosto de conversar com todos. A Maria Mulambo é outra grande figura. Tem uma aposentadoria do INSS, quando recebe, pega um boy e vai para o motel aqui perto. Fica lá até acabar o dinheiro. Ai volta pra pedir nas ruas. Anda com o bolo de roupas íntimas todas guardadas no peito, quando vai tomar banho tira, depois põe de volta.

A paisagem humana


Eu não troco a Praia do Meio pela Pipa nem por São Miguel do Gostoso. Olha essas piscinas que se formam na maré baixa! Mas gosto daqui não só por uma questão de paisagem. Tem as pessoas. Vendedor de óculos de sol, de bronzeador, de ginga, de espetinho de gato. O povo que batalha pra sobreviver, está sempre sob o sol, indo pra lá e pra cá na areia quente, na luta, mas trabalhando sempre com alegria. Pode reparar, o pessoa trabalha sorrindo. Você não vê isso fácil por aí. Então digo que meu livro é sobre eles.

Um defunto insepulto


O Hotel Reis Magos do jeito que está é um problema. É uma cicatriz na face da Praia do Meio. É como eu digo no livro: “Juntaram-se empresários, funcionários públicos, promotores e procuradores, arquitetos, engenheiros, juízes, ambientalistas, políticos, historiadores, advogados e outros mais, para debater a situação daquilo que acham ser a de um corpo moribundo, em um morre-não-morre na UTI da praia. Pura ilusão. É irônico, pois, na verdade, o que conseguem com isso é apenas participar do velório mais longo da história do Rio Grande do Norte: o Hotel Internacional dos Reis Magos está morto há um quarto de século. Um defunto putrefato. Insepulto. Uma cicatriz nefasta no rosto da Praia do Meio. E ainda pisam em seu cadáver. Enterrem-no, por compaixão”.

Lua inteira

Na Lua Cheia venho pra areia. Tem um barraqueiro que dorme aqui, na rede, o Bigode – que nunca vi de bigode. Venho pra cá com os amigos, alguém traz o violão, bigode traz as cervejas pra gente. Ficamos aqui até de madrugada. É um lugar que me fascina e me inspira.

Terrorista

Passei por Natal pela primeira vez em 1986. Eu era um andarilho, uma espécie de hippie literário, viaja com o que conseguia vendendo poesia. Nessa passagem conheci o Mossoró (professor Josimar Fernandes) e o Pererinha, meus amigos até hoje. Tem uma história engraçada dessa época. Com o apurado das vendas, eu me juntava pra beber e fumar maconha. E lá estava eu, Mossoró e Pererinha no Chambaril. Ai apareceu um cara chato se metendo na conversa. Deixamos ele pra lá. Eu costumava usar uma gandola verde, meio que do exército, e tinha boina vermelha. De repente lá vem o cara chato de novo, só que com a polícia e me chamando de terrorista. Tu acredita que a PM chamou o exército pra mim? Me levaram lá para o quartel da Hermes da Fonseca. Dois oficiais me interrogaram. Foi uma babaquice extraordinária. Depois de horas me liberaram. Pererinha indignado me levou para o Diário de Natal para denunciar o que aconteceu. No dia seguinte saiu a matéria: “Poeta preso como terrorista”. Ai a galera toda da Ponta do Morcego, do Chernobyl, Bar do Boliviano, dos lugares por onde a gente andava, tudo me chamando de terrorista, na piada. Mas foi até bom, foi a fase que vendi mais poesia e poster.

Amanheceres

Da janela do meu apartamento gosto de observar o amanhecer. Quando dá quatro e meia aparece os primeiros raios de sol, lá longe no mar. Ai aparecem algumas poucas pessoas fazendo exercícios, os garis, tudo antes de começar o burburinho da manhã. Mas o melhor amanhecer é o chuvoso. É bonito. Não canso de ver os amanheceres daqui. É curioso isso, porque foi justamente o amanhecer que vi aqui, lá em 1986, que me fez vir do Acre pra cá. Eu tinha chegado na cidade já era tarde, dormi num coqueiral na Praia dos Artistas. Acordei de cinco horas da manhã, com uma chuvinha, observei a praia e pensei: vou voltar para o Acre, trabalhar, ganhar dinheiro e vir morar aqui. Trinta anos depois estou exatamente aqui. E já estou pagando minha cremação. Disse até para os amigos aqui que deixarei minhas cinzas com eles para que seja jogado em cima das pedras do mar aqui da praia.