Minha Área: Delcindo Mascena e um novo olhar para a Cidade Alta

Publicação: 2019-05-12 00:00:00 | Comentários: 0
A+ A-
Ramon Ribeiro
Repórter

Nascido e criado em Jardim do Seridó, Delcindo Mascena chegou em Natal com 16 anos. Dos bairros da capital, nenhum o atraia mais que a Cidade Alta. “A gente saia pra subir na escada rolante da Lobrás, paquerar na Casa da Maçã, cortar o cabelo no Pequeno Príncipe, ver filme no Cine Rio Grande. Toda a juventude da minha geração curtia o Centro”, lembra o empresário, que anos mais tarde fundou a marca de roupas Avohai, de projeção nacional e cuja primeira loja foi aberta justamente no Centro de Natal.

Apaixonado pelo Centro desde que chegou a Natal vindo de Jardim, aos 16 anos,Delcindo Mascena já curtia passear pela Casa da Maçã e Lobras
Apaixonado pelo Centro desde que chegou a Natal vindo de Jardim do Seridó, aos 16 anos, Delcindo Mascena já curtia passear pela Casa da Maçã e Lobras

Com a Avohai, Delcindo viveu fases extraordinárias. Teve coleções no Fashion Rio, vestiu personagens de novelas da Globo, participou de feiras de moda em Paris. Em Natal, se espalhou pela cidade, chegando a ter lojas em três pontos da Cidade Alta, além de passagens pelos Midway, Natal Shopping, Via Direta e Hiper Bompreço. Mas com a crise do mercado, houve o baque e a Avohai precisou reduzir sua estrutura de comércio para apenas uma loja, num ponto com mais de 20 anos, na tradicional rua João Pessoa. Não bastasse essa redução de tamanho, Delcindo ainda precisou lidar com uma das piores fases do Centro da Cidade, com a circulação de pessoas caindo e lojistas fechando as portas. Algo precisava ser feito.

“É daqui que eu tiro meu ganha pão. Eu e todos os meus colaboradores. Se não fizesse nada, a situação não ia mudar”, lembra o empresário, de 51 anos, que precisou bater perna atrás de articular com outros lojistas algum plano para alavancar a Cidade Alta. Surgia então o movimento “Viva o Centro”, exatamente há oito meses atrás. Hoje com status de associação e com Delcindo como presidente, o “Viva o Centro” tem articulado uma frente de parcerias (dentre elas a CDL, Prefeitura, Fecomércio, Sebrae) em prol da revitalização do bairro, tendo como valores três pilares: comércio, cultura e urbanismo. A principal conquista foi o banho de cores no Beco da Lama, que transformou antiga ruazinha suja num dos points mais badalados da cidade ultimamente.

Nesta entrevista, Delcindo Mascena fala sobre o movimento de revitalização do Centro, da sua relação afetiva com o bairro, lembra histórias da Avohai e outras curiosidades.

Inspiração que vem da música
Tive a ideia desse nome quando estava no carro com minha esposa e tocou a música do Zé Ramalho no rádio. Na hora eu entendi que ele estava falando de uma ave que voa, do bater as asas de um pássaro, o avoar. Dar um vôo em paz. Na hora de registrar nos alertaram que o nome era parecido com o da Avon e isso poderia dar problema. Mas acreditei no nome. E quanto ao Zé Ramalho, ele sabe da loja. Patrocinei vários shows dele em Natal, inclusive os primeiros shows do Grande Encontro. Só que nunca cheguei a bater papo com ele.

Chegada na rua João Pessoa
A Avohai começou na rua Felipe Camarão. Depois abrimos na Rio Branco até chegarmos na João Pessoa. Aqui estamos há 28 anos. Chegamos quando a rua estava começando a ter um bom movimento de pessoas. Porque antes o movimento era na Princesa Isabel. Hoje não, hoje é a João Pessoa. É uma rua incrível. A primeira loja Riachuelo do Brasil está aqui. A loja que eles começaram, quebraram, fecharam, reabriram e continuam aqui. Temos a Catedral Nova fechando a rua de um lado, mostrando que Deus está aqui, e a Catedral Velha na outra ponta, lembrando onde a cidade começou. Temos vários bancos, todo tipo de loja. É uma rua que é cortada por várias outras importantes do Centro, inclusive o Beco da Lama.

Shopping x Rua
Shopping é maravilhoso. É um outdor pra sua marca aparecer num espaço sofisticado. Mas o investimento é alto. Muitas vezes você não tira dinheiro. Enquanto que em centros como o Alecrim e a Cidade Alta você tem uma circulação de pessoas semelhante ao dos shoppings, mas com custos fixos bem menores. A rua é imprevisível. Tem chuva, sol, sombra, turista, alguém do interior, os locais, a cultura perto. Isso é que é o gostoso.

Dar sem receber
Avohai significa “Um anjo maior na vida de alguém”, quer dizer fazer algo por alguém sem querer algo em troca. Então, quando criamos a marca, sentimos que precisávamos fazer algo por alguém. E fizemos. Fomos atrás das bordadeiras do Seridó para unir o trabalho delas à moda, trazer o bordado rústico para o jeans, para tudo. Só que ai tem um problema. As peças ficavam caras e o público de Natal não aceitou. Continuamos acreditando no valor das roupas e assim fomos pedir apoio ao Sebrae para apresentarmos nossa coleção no Rio de Janeiro. Fomos e de lá estouramos para todo o Brasil.

De Natal para o Palácio de Versailles
Participamos várias vezes do Fashion Rio, chegamos a vestir 10 novelas da Globo. Ai apareceu a Costanza Pascolato (importante consultora de moda no país) e sugeriu de apresentarmos nossas coleções na Europa porque nosso trabalho tinha muito da cultura brasileira. A gente não tinha dinheiro para isso. Mas ela conseguiu apoio. Fomos à Paris, no evento de moda no Terraço de Versailles. Eu só sabia falar português e mal. Mas colocaram uma intérprete para acompanhar a gente desde o aeroporto. Vendemos para vários países da Europa e até japoneses. Com a crise do Euro tudo desandou. Até o Brasil deixou de participar da feira.

Crise na Cidade Alta
Com crise no mercado, tivemos que ficar só com uma loja, a da Rua João Pessoa. Mas o Centro começou a ser abandonado, ficar sem policiamento, sem lixeiras. Quando houve aquele assalto na C&A o Centro parou. As lojas fechando. Eu fiquei desesperado. Tivemos uma queda grande de vendas naquele ano. Senti que tinha que fazer algo senão o Centro iria morrer. E eu tiro meu sustento daqui, eu e meus colaboradores. Fui atrás de outras pessoas aqui do bairro para pensarmos alguma coisa. Desde o começo a ideia era unir comércio, cultura e urbanismo. A primeira reunião foi eu e Camila, do Gaúchos (restaurante). Depois veio aparecendo mais gente nas outras reuniões até que se criou um movimento, o Viva o Centro.

Beco da Lama
No nosso movimento a gente conversou com todo mundo que pudesse contribuir: CDL, Fecomercio, Sebrae, Prefeitura. Chamei esse pessoal dar um tour na Cidade Alta e ver os problemas e as potencialidades. O Beco tava só mijo e fezes. Sugerimos a ideia de se fazer um grande grafite, algo que chamasse atenção. Fui pra São Paulo com dinheiro do meu bolso para ir conhecer o Beco do Batman, um lugar que já foi pior do que o Beco da Lama e que hoje é um ponto turístico. Um amigo paulista me indicou o grafiteiro Dicersarlove. Ele tinha acabado de chegar de Dubai. Conversei com ele, falei do nosso movimento, do nosso desejo de revitalização, falei que não tínhamos dinheiro. Ele disse que iria. Queria conhecer Natal, passar férias aqui. Só pediu para que a gente incluísse os grafiteiros da cidade no projeto. O resto foi a gente ir atrás de parcerias, envolver todo mundo. Apareceu mais de 40 artistas, a prefeitura deu tintas, o Sesc deu almoço. Foi um trabalho de união da sociedade. E foi uma das ações de menor investimento e melhor resultado que a cidade já viu.

Por uma rua João Pessoa melhor
Agora estamos buscando a revitalização da rua João Pessoa. Temos um projeto de fazer um calçadão ligando a Catedral Nova à Catedral Velha. Com arborização e iluminação especial. Nossa luta agora é tirar esse projeto do papel. E está andando. Vamos ver se até o ano que vem esse projeto é executado.

Turismo no Centro Histórico
Queremos também falar com as empresas de turismo para trazer os turistas para cá. O ônibus deixaria o pessoal na Catedral Nova para os turistas circularem pelo bairro. Dava pra ir no Beco da Lama, Bar de Nazaré, Bardallos, Zé Reeira, Praça André de Albuquerque, João Maria, Instituto Histórico, Igreja do Galo, e na Igreja do Rosário dos Pretos, com a vista para o Rio Potengi, os turista voltavam para o ônibus e ai sim fazia o roteiro das praias. Não dá para se apoiar somente no turismo de sol e praia. Porque isso o Nordeste todo tem. Mas o nosso Centro Histórico, com vista para o Potengi, o nosso Beco da Lama, a nossa cultura, só a gente tem.








continuar lendo


Deixe seu comentário!

Comentários