Minha área: Entre a Serra de Santana e a Mina Brejuí

Publicação: 2019-07-07 00:00:00 | Comentários: 0
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Ramon Ribeiro
Repórter


Por dez anos a jornalista Ângela Bezerra foi um dos rostos mais conhecidos da TV natalense. Também não tinha como evitar. Todos os dias ela era vista na televisão mostrando os fatos mais importantes da cidade. Foi o período em que atuou como repórter da TV Cabugi (hoje InterTV). Mas isso são águas passadas. Já tem um bom tempo que Ângela trabalha como assessora de imprensa, tendo inclusive uma empresa própria, a Letra A Comunicação.
Seridoense, criada entre Currais Novos e Lagoa Nova, Ângela escreveu as memórias da família no livro “Entre a Serra Azul e o Sertão” e conta também a história de pessoas das comunidades com suas raízes e vivências
Seridoense, criada entre Currais Novos e Lagoa Nova, Ângela escreveu as memórias da família no livro “Entre a Serra Azul e o Sertão” e conta também a história de pessoas das comunidades com suas raízes e vivências

Embora muito atenta aos acontecimento de Natal, a jornalista tem sua raízes em outra região. Ela é seridoense, criada entre Currais Novos e Lagoa Nova. A região foi revisitada por Ângela nos últimos anos de um modo que ela nunca fez. Primeiro por causa do Mestrado em Antropologia, pela UFRN, em 2014, quando pesquisou o histórico da atividade mineradora em Currais Novos, em especial a vida dos garimpeiros da Mina Brejuí. Segundo, por causa do livro “Entre a Serra Azul e o Sertão”, em que, a partir das memórias da família, o passado seridoense é descortinado em vários aspectos. O livro, aliás, será lançado em Natal na próxima terça-feira (9), às 18h, no Flora Café, e em Currais Novos, no dia 16 deste mês.

Nesta entrevista, Ângela revive algumas memórias próprias e relembra outras que ouviu em suas andanças pelo Seridó. “Uma das coisas que mais gostava como repórter era ouvir as histórias das pessoas, ir às comunidades, dar voz a quem não tinha voz. É disso que mais sinto falta. E foi o que a pesquisa de mestrado me trouxe de volta”, comenta a jornalista. “A pesquisa em Currais Novos também serviu para me levar de volta às origens. Confesso que estava muito afastada. Agora vou pelo menos uma vez por mês ao Seridó. Passo direto por Currais Novos, subo a Serra de Santana e lá passo o final de semana ouvindo as histórias da minha mãe. Quem nasce no Seridó tem pertencimento, se orgulha das origens, comportamento que não vejo no natalense, por exemplo. Quando os seridoenses se encontram é uma festa!”.

Serra de Santana

A serra a que me refiro no título do livro “Entre a Serra Azul e o Sertão” é o antigo nome da Serra de Santana, que fica a cerca de 25 km de Currais Novos.  É onde estão localizados alguns municípios, entre eles Lagoa Nova, onde minha mãe nasceu e onde meus pais viveram por muitos anos. Abro o livro com uma fábula popular sobre a origem da caatinga. Quando está em época de seca, é aquele mundo cinza, uma tristeza, especialmente para quem vive da agricultura de subsistência, que depende de chuvas para poder ter um roçado de feijão e milho. Mas quando está como agora, vivendo as benesses das chuvas que caíram recentemente, é uma maravilha.

Passado nebuloso

Trato do assunto preconceito de cor no livro. Falo sobre como os moradores do sertão e da serra se misturavam com os casamentos, sempre levando em consideração quem era ou não de “cor”. Os moradores da serra eram tratados como “pés de cinza”, por conta da fina camada de terra branca que ficava presa nas pernas deles, que se destacava por serem pretos. Há, inclusive, comunidades quilombolas na Serra de Santana até hoje, como a Macambira. Os moradores de lá são chamados de “os negros da Macambira”.

Desentendimento na família

Meu bisavô, Francisco Bezerra de Medeiros, fazendeiro rico de Currais Novos, deserdou o meu avô Joaquim, pai do meu pai, por insistir em casar com Júlia, considerada uma “cabocla” por ele. Ele chegou até a oferecer terras e cabeças de gado para que o filho desistisse do casamento, mas ele não aceitou a oferta. E, no dia da cerimônia, o repique do sino da igreja foi fúnebre, a mando do patriarca. Só tive oportunidade de conhecer a tão falada fazenda Serrota Pintada (do bisavô Francisco Bezerra) recentemente, por conta do livro. Fui lá fotografar e conhecer. A sede está em ruínas. A propriedade foi vendida.

Capital da Sheelita

Eu cresci vendo a cidade [Currais Novos] se movimentar em torno da atividade de extração da sheelita. Tudo girava em torno da história de Tomaz Salustino, pioneiro na exploração do minério na região. No auge da atividade, o município era considerado rico, a economia girava, muitos negócios se agregaram e houve uma grande geração de empregos.  Os picos de produção foram nos períodos de 1945, 1953, 1958, 1971, 1975, 1977 e 1981. Currais Novos, que já foi chamada de “Capital da Scheelita”, hoje vive a melancolia daqueles tempos.

Mina Brejuí

A Mina Brejuí foi a primeira empresa de mineração de sheelita do município. Fica a cerca de 5km da cidade. Atualmente tem uma pequena produção, muito inferior ao que foi antigamente. A Mina Brejuí é a única administrada por um grupo familiar local, cujo patriarca, Tomaz Salustino, já era referência no criatório de gado e cultivo de algodão – dois importantes ciclos econômicos da região.

História não oficial da Mina Brejuí

Foi em uma conversa com a minha mãe, Angelita Félix Bezerra, sobre sua saga vivida aos 16 anos de idade no garimpo de Brejuí junto com o pai, Aleixo Pequeno, algo que ela nunca tinha dividido com ninguém, que me ocorreu a ideia de pesquisar o tema: quem foram as primeiras pessoas que trabalharam no garimpo de Tomaz Salustino antes de se transformar no império que foi? A grande maioria era composta de pequenos agricultores, assim como meu avô, que trocavam a enxada pela bateia, em busca do sonho da riqueza. Na ocasião da pesquisa, em 2014, as minhas entrevistas foram com os filhos desses agricultores, que não estavam mais vivos. Os meus entrevistados já estavam na faixa dos 80 anos de idade e, assim como a minha mãe, foram com o pai ajudar na lida do garimpo. A minha pesquisa então, se propôs a trazer à tona essas histórias, este outro ponto de vista que não era oficial, mas que é muito rico. Ainda penso em publicar este livro, que não tive oportunidade de fazer na conclusão do mestrado por faltar de incentivo financeiro.

Mulheres no garimpo

Um dos fatos que mais me chamaram a atenção na pesquisa foi a presença significativa de mulheres no garimpo, no início de tudo. Muitas delas, obviamente, foram para as tarefas “domésticas”, já que iam famílias inteiras trabalhar na extração do minério. Essas mulheres ficavam cuidando da barraca, montada de forma improvisada, onde se abrigavam da chuva e do sol, onde cozinhavam e viviam. No entanto, havia também mulheres nas frentes de trabalho nas chamadas banquetas, de onde se extraía a sheelita de forma totalmente artesanal. Era um trabalho que exigia força física, e lá estavam elas, “virando banca” como muitos homens.

Entre o medo e a admiração

Outra coisa que abordo é como os aqueles trabalhadores lidavam com o medo, com o risco de acidentes. Esse assunto era um tabu na cidade quando eu era criança. Quando acontecia alguma tragédia na mina era aquela comoção. E tive oportunidade de entrevistar um deles, que havia se envolvido em um acidente, e que se sentia culpado pela morte de um colega. Isso passou a assombrar a vida dele, ao ponto de se afastar das atividades antes do prazo. Era um trabalho de muito risco para a saúde, mas os mineradores eram vistos como heróis. E eles faziam questão de desfilar pela cidade com os uniformes, esperando serem apontados nas ruas com admiração.

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