Minha Área: Fundadores da BandaGália relembram lendário bloco

Publicação: 2019-10-27 00:00:00 | Comentários: 0
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Ramon Ribeiro
Repórter

No início dos anos 80 existiam em Natal os gauleses. Mas se engana quem acha que estamos falando aqui dos celtas do continente europeu. Os gauleses potiguares são uma espécime bem diferente. São filhos da classe-média natalense, alguns professores, médicos, engenheiros, arquitetos, sociólogos, advogados, economistas, poetas, músicos, todos boêmios, farristas calejados, contestadores da Ditadura Militar, mas sobretudo adoradores do carnaval.

Percurso da Bandagália arrastava multidão a pé ou de carro por ruas da Ribeira e Petrópolis, passando por todo tipo de bar até chegar na praia ao raiar do dia
Percurso da Bandagália arrastava multidão a pé ou de carro por ruas da Ribeira e Petrópolis, passando por todo tipo de bar até chegar na praia ao raiar do dia

Essa turma foi responsável por uma das manifestações mais instigantes que essa cidade já curtiu. Quando o carnaval de Natal vivia a mesmice dos blocos de elite e dos bailes de clube, eles propuseram algo anárquico, inclusivo, provocativo, com percurso que incluía desde a Praia dos Artistas, até a Ribeira e Petrópolis, passando por todo tipo de bar, em becos e passagens como a rua do Motor. Era uma loucura das boas! E essa loucura atendia pelo nome de BandaGália!

No entanto, o marco zero dessa loucura não foi o carnaval. A estreia da lendária banda foi no Sábado de Aleluia de 1981, logo após o grande blecaute que colocou Natal às escuras por uma semana. No mesmo ano, no Réveillon, o grupo foi novamente pra rua, sem cordas e com muita irreverência. E foi sucesso absoluto. Era algo sem precedentes na cidade. A partir dali, a grande programação da virada de ano na capital potiguar era seguir a folia da BandaGália até o amanhecer na beira da praia. Afinal, atrás da BandaGália só não vai quem já morreu.

O primeiro Carnaval da turma só foi acontecer em 1984, quando a prefeitura não pôde mais ignorar aquela manifestação genuína dos gauleses e convidou os organizadores da Banda para pensar o carnaval da cidade. Embora Natal vivesse o luto da Tragédia do Baldo, a BandaGália se tornou uma das principais atrações do carnaval de Natal, saindo sempre nas sexta e na terça. Mas isso durou só até 1989, porque na virada para o ano de 1990, na já tradicional folia de Réveillon, o assassinato de um folião no meio do percurso da Banda pôs fim para sempre à brincadeira dos gauleses.

Passados três décadas, algo diz que a BandaGália pode ir às ruas novamente. Será? Bem, a turma não tem mais o fígado nem o físico de antigamente, está todo mundo na casa dos 60 anos ou mais, mas o cenário atual do país suscita uma ação enérgica: a velha loucura boa de novo. Na última quinta-feira (24), no Temis Bar, os gauleses estiveram reunidos pela primeira vez em anos. A TRIBUNA DO NORTE esteve presente. O papo foi uma anarquia só: engraçada, nostálgica, poética. Tudo indica que sairá um livro em breve, de repente, com a BandaGália no lançamento.

Confira:

Blecaute em Natal
Napoleão Paiva: “O blecaute de Natal eu acho que foi a explosão da BandaGália. Foi uma coisa absurda. Na reunião a gente viu que tinha que fazer um frevo que representasse esse momento. [Nesse momento, Eugênio Cunha interrompe para lembrar que o encontro foi no bar Kazarão: “Em Natal só tinha gerador no Kazarão, Moteu Tahiti e no Hospital”]. Para essa primeira saída fizemos a música inspirada no blecaute, criticando o prefeito da época [José Agripino]. Eu fiz a letra e Carlos Penha musicou. Ele era médico e músico muito talentoso. Imprimimos em mimeógrafo a letra pra que o povo pudesse cantar. E no Sábado de Aleluia fizemos nossa primeira saída”. [Napoleão começa a cantar a música, outros na mesa cantam junto: “Olha eu aqui de novo, aleluiando e rasgando véu, na city sol capital do blecaute...”].

Os Gauleses
Valéria Queiroz: Primeiro tem que dizer o por que do nome. Essa história de gauleses quem inventou foi o Alex [Nascimento]. Nem lembro porque, a gente devia estar  em alguma festa e ele, naquele jeito irreverente, deve ter soltado essa. Mas o negócio é o seguinte, a gente era uma turma grande de amigos, vivia se reunindo em bar e fazendo festa na casa um dos outros. Eram festa homéricas. Isso tudo antes da BandaGália. Lembro que as festas mais famosas eram as casas de Diva Cunha [irmã de Eugênio], Márcio [Capriglione], Jácio Fiuza. Também teve o ano que alugamos uma casa na Redinha pra passar o veraneio. Foi a Casa da Gália.

Ao lado, os gauleses e simpatizantes de frente ao boteco Tirraguso, na Praia dos Artistas
Os gauleses e simpatizantes de frente ao boteco Tirraguso, na Praia dos Artistas

Percurso enorme
Eugênio Cunha: Na primeira saída da BandaGália fizemos um percurso enorme. A gente não tinha experiência de fazer essas coisas. No final já tava todo mundo morto. Começamos no Bar Miikonos, passamos pelo Areal, rua do Condor, subimos a Ladeira do Poti, paramos no Bar do Lourival...

Diva Cunha: tem um fato importante nessa história. A gente passou pela casa de Câmara Cascudo. Paramos na frente da casa dele, Cascudo apareceu. Teve um rapaz que subiu na fachada e apartou a mão dele...

Eugênio: Isso. Passamos na Junqueira Aires, depois Peixada Potengi, finalizava no Liberté. A gente sempre teve essa preocupação de passar por lugares populares, até porque a gente desejava que a população aderisse, seguisse com a gente.

Ano inesquecível
Eugênio: O ano inesquecível foi 84. Já na virada de 83 para 84 fizemos um réveillion gigante. Em determinado momento eu e Piru [Carlos Roberto de Araújo] paramos num ponto alto do percurso para olhar a multidão e pela primeira vez tivemos a certeza que a população tinha aderido à BandaGália. Não era uma coisa só nossa. Tinha todo mundo. A gente tinha a pretensão de fazer um carnaval de rua e vimos naquela saída que conseguimos. No mesmo ano fomos chamados pela prefeitura para sair na sexta e na terça-feira de carnaval. Lembro que nessa reunião a gente já falou que o carnaval tinha que ter pólos, e que podia incluir a revitalização da Ribeira.

Irreverência
Cláudio Burrão: Eu nunca participei da organização, morava fora e só chegava no Réveillon, que era também o dia do meu aniversário. Então nesse dia a gente começava cedo. Dez horas da manhã já tinha churrasco com a diretoria da Banda lá em casa. A gente bebia até dez da noite, quando sai pra rua. Nessa época a gente ainda tinha fígado! Eu sempre saía de fantasia. De noiva, bailarina, bebê. Olha o meu tamanho [quase 1,90m], eu pesava 150 quilos, botava um fraldão e chupetão na boca e sai no meio da turma. Essas reuniões do meu aniversário lá em casa eu nunca vou esquecer.

Bloco do Tamanduá
Gracia Gondim: A BandaGália quando saía com o Tamanduá era insuperável. [O Tamanduá era uma espécie de bloco coberto por uma estrutura de pano com o desenho do tamanduá, numa sátira ao prefeito Marcos Formiga (1983-1986)], começava à tarde para a meninada brincar. Morei muitos anos no Rio de Janeiro, mas nunca um carnaval superou o daqueles anos. Embaixo do tamanduá a gente se dava beijo de língua, fazia tudo que tinha direito, se curtia, era a mesma onda da Banda, mas com mais intimidade.

Diretas Já
Eugênio: Tem um momento muito especial também. Janeiro de 1985, o candidato dos militares [Maluf] perde a eleição colegiada  e Tancredo é eleito. Há uma comoção nacional. A turma das Diretas Já daqui de Natal prepara uma grande festa e chama a gente pra botar a BandaGália na rua. A imprensa estimou 30 mil pessoas. A Tribuna do Norte disse que foi a manifestação que juntou mais gente depois da inauguração do Hotel Reis Magos. E o Diário de Natal disse que foi a maior depois do Comício de José Agripino.

O Fim
Eugênio: O fim da BandaGália aconteceu com a morte do arquiteto Chicão [Marques]. Tinha umas 10 mil pessoas na rua. O Chicão viu um cara tentando roubar a corrente de alguém. Ele foi intervir. O cara deu dois tiros nele, à queima roupa. Botaram ele num buggy e levaram para o hospital. Mas não resistiu. Era algo que a gente já vinha se preocupando faz tempo, a insegurança. As saídas da BandaGália juntava uma multidão de gente, tinha os furtos. Não dava pra garantirmos a segurança de todo mundo. Era uma banda aberta. A gente pedia apoio da polícia, mas não acontecia nada. Com a morte do Chicão a Banda nunca mais saiu.

Eugênio Cunha, um dos fundadores da Bandagália, lembra que a insegurança marcou o fim do bloco, em 89: Tinha umas 10 mil pessoas na rua. O Chicão viu um cara tentando roubar a corrente de alguém. Ele foi intervir. O cara deu dois tiros nele
Eugênio Cunha, um dos fundadores da Bandagália, lembra que a insegurança marcou o fim do bloco, em 89: Tinha umas 10 mil pessoas na rua. O Chicão viu um cara tentando roubar a corrente de alguém. Ele foi intervir. O cara deu dois tiros nele

Possível retorno
Abimael Silva [que está articulando a edição de um livro sobre a BandaGália e convidou o repórter para o encontro]: Acho que deve sair no dia do lançamento do livro.

Eugênio: existe a possibilidade.

Márcio: Lógico que existe. Se Eugênio disser vamos, eu vou junto.

Grácia: Acho que esse é o ano da sintonia. Tô doida pra sair na BandaGália de novo, aos 65 anos. Não vim pra esta reunião à toa. Acabei de sair da minha analista. Não é só aos 17 anos que se faz loucura não.foi intervir. O cara deu dois tiros nele, à queima roupa. Botaram ele num buggy e levaram para o hospital. Mas não resistiu. Era algo que a gente já vinha se preocupando faz tempo, a insegurança. As saídas da BandaGália.

Colaborou: Cinthia Lopes, editora


 







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