Minha Área: Vidalvo Costa e suas histórias de alambique

Publicação: 2019-05-19 00:00:00 | Comentários: 0
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Ramon Ribeiro
Repórter

Havia no Rio Grande do Norte terras mais adequadas para Vidalvo da Costa, o Dadá, começar sua produção de cachaça. Mas, parodiando Euclides da Cunha, o seridoense é, antes de tudo, um louco – louco pela sua terra. Então foi em Caicó, no sítio originalmente de sua avó, no pé da Serra Samanaú (hoje São Bernardo), em pleno sertão, que este seridoense começou a cultivar cana de açúcar e instalou seu alambique, passando a produzir uma das cachaças mais premiadas e vendidas do Estado, a cachaça Samanaú.
Vidalvo Costa, empresário
Vidalvo Costa, empresário

Aos 69 anos de idade, nascido em São José do Seridó  e criado em Caicó, onde chegou a ser prefeito, Dadá Costa fala com orgulho da sua terra, do seu alambique e afirma não se arrepender de ter trocado a política pela cachaça. “A política é uma cachaça mais envolvente do que a cachaça propriamente dita. Mas não quero repetir essa dose não”, diz o empresário, que em seus últimos anos na política, quando era deputado estadual, precisou lutar contra um câncer.

Nesta entrevista ao TN FAMÍLIA, Dadá Costa conta histórias da Serra Samanaú, lembra da infância no sítio Várzea Comprida, detalha como é a experiência de produzir cachaça no sertão – mas ressaltando os alambiques anteriores a ele –, e revela um de seus mimos: a coleção de cactos com mais de 600 espécies do mundo inteiro. A coleção fica no Alambique Samanaú, há 15 km do Centro de Caicó, no pé da Serra Samanaú, e pode ser visitada por qualquer um que queria ver como a cachaça é produzida.

Serra Listrada de Preto
A Samanaú é a primeira propriedade rural do Seridó. É de 1703. Claro que na época a área era superior à terra onde hoje está o alambique. O nome é indígena e se deve à Serra. Segundo Câmara Cascudo significa “serra negra”, ou “serra listrada de preto”. Hoje a serra se chama Serra de São Bernardo. Das coisas que me orgulho de ter feito quando prefeito foi ter criado um bairro em Caicó com o nome Samanaú, em homenagem a minha avó, que tinha um sítio no pé da serra.

Infância no pé da Serra
Minha infância foi muito rural. Fui criado no sítio Várzea Comprida, no pé da serra de Samanaú. Lembro que com 7 anos fugia de casa para tomar banho no Rio Seridó e no Rio Barra Mansa. Por três vezes quase morri afogado. Mas a vida era de muito trabalho. Acordava de três horas da madrugada para tirar leite, cuidar dos bezerros. Fui alfabetizado só com 11 anos de idade, em casa. E terminei meu curso de Engenharia com 26 anos, que era o tempo que normalmente as pessoas se formavam. Consegui tirar o tempo perdido. Na vida primeiro aprendi a trabalhar para depois aprender a estudar.

Da política para a cachaça
Desenvolvi um câncer no exercício do mandato de deputado estadual, no início dos anos 2000. Então pensei em algo para fazer que me desse prazer. Fiz a troca de uma cachaça por outra. As lembranças de infância, vendo a fabricação de rapadura nas fazendas, me despertaram para essa atividade. Mas até aquele momento eu não conhecia um alambique sequer. Fui fazer pós-graduação em Tecnologia de Cachaça em Minas Gerais, fui conhecer vários alambiques e pude construir o meu, que é elogiado pelo Brasil inteiro. A Samanaú tem o certificado de orgânica, já ganhou prêmios nos EUA, em Bruxelas, aqui no Brasil já apareceu com terceira e quarta coloca no ranking da revista Playboy. Produzo cachaça desde 2004. É uma atividade prazerosa, de muito trabalho e de muita pesquisa.

Os pioneiros da cachaça na região
O Seridó é muito ligado a criação de gado. Mas eu acreditava que a região também poderia ser celeiro de boas cachaças. Mas eu não fui vanguarda na produção de cachaça no Seridó. Nas pequenas fazendas de antigamente, antes das barragens, era comum se plantar cana de açúcar para produzir rapadura e açúcar mascavo para o consumo interno. Com a sobra se fazia cachaça. Tem um engenho que ficou famoso no São João do Sabugi, talvez uns 70 anos antes de mim, que produzia a cachaça Cipoada. Chegou a se vender comercialmente. Também tinha a família Caboclo que teve cachaça.

Seca destruiu plantação
Temos duas áreas de plantação de cana para a cachaça. Uma às margens do Rio Seridó, mas perdi a plantação com os anos sucessivos de seca. Então precisamos recorrer a plantações de Ceará-Mirim, também certificada como orgânica. É quem tem me suprido. Essas terras tem uma história bacana, ficam no Vale de Ceará-Mirim.

Reativando a cachaça Murim
Sempre buscamos oferecer novidades. Há poucos anos lançamos um vodca. Recentemente também patenteamos a cachaça Murim, que estava esquecida. É uma cachaça com 102 anos de história,  de canguaretama, do saudoso Lindolfo Sales, pai de Getúlio Sales. Eu conhecia Lindolfo Neto, foi meu colega de turma e pedi pra ele se podia patentear para colocar de volta no mercado, o que fizemos, lançando as opções Murim Ouro e Prata. Outra novidade é que até o meio do ano vamos lançar uma linha com 10 cachaças saborizadas, também orgânica, nos sabores tamarindo, siriguela, café. No total temos 16 produtos.

Cactos do mundo todo
Temos uma coisa tão bonita quanto o Alambique lá no sítio: uma coleção de cactos de espécies do mundo inteiro. O Seridó deve ter uma variedade de 10 cactos. Nós temos lá mais de 600 tipos, todos plantados. A ideia veio das minhas viagens. Conheci um jardim de cactos no Marrocos, na casa do estilista Yves Saint Laurent. Conheci outro em Genebra, mas dessa vez numa estufa e com aquecedor para que não morressem de frio. Então, sabendo do clima propício no Seridó, iniciei minha coleção.

Alambique museu
Devo ter umas 500 marcas de cachaça. Penso em fazer um museu lá no alambique. Um museu de cachaça e um museu do vaqueiro, em homenagem ao meu pai, que foi vaqueiro, corredor de vaquejada. No sítio também tem outra coisa legal. O contorno da propriedade é todo feito de cerca de pedra, que é uma cultura seridoense. Dizem que nós herdamos isso da Guerra do Paraguai, no contato com a cultura Europeia. Quero fazer do Alambique um lugar onde o visitante vai conhecer todo o processo de produção da cachaça, poderá caminhar por um jardim de cactos, verá uma coleção de cachaça, um museu do vaqueiro, será um passeio completo em pleno sertão do Seridó.

Colaborou: Cinthia Lopes
Editora

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