Minha Área: Histórias do espanhol comensal

Publicação: 2019-11-03 00:00:00 | Comentários: 0
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Ramon Ribeiro
Repórter

Uma tradição de 65 anos passada de pai pra filho por um espanhol que conquistou espaço cativo na história gastronômica de Natal. Nemésio Morquecho, o espanhol, chegou no Rio Grande do Norte em 1951. Começou plantando legumes em Macaíba, mas, experimentado na culinária europeia, resolveu investir na gastronomia, apresentando aos natalenses iguarias nunca antes vistas na cidade, como ostra crua, lula na tinta, testículos de boi, iscas de fígado acebolado, paella espanhola.

Pio Morquecho, empresário
Pio Morquecho, empresário

Tudo começou com um minúsculo bar, o Granada Bar e Confeitaria, estabelecimento na avenida Rio Branco que fez fama entre os anos 1954 e 1975. O lugar era point de intelectuais e políticos. Por lá passaram figuras nacionais, como Monteiro Lobato, e internacionais, como o príncipe Philip, marido da Rainha Elizabeth II. Na sequência Nemésio investe em vôos maiores e abre um restaurante com seu nome, do outro lado da avenida Rio Branco. É quando consolida na cidade seu cardápio europeu, majoritariamente espanhol.

Inaugurado em 1975, o restaurante segue até hoje de portas abertas, não mais na Cidade Alta, mas na avenida Rodrigues Alves, no Tirol, e já há alguns anos sob o título de Don Nemésio. À frente do negócio está o filho Pio Morquecho, que assumiu a administração após o falecimento do pai, em 2010. Foi com Pio que a TRIBUNA DO NORTE conversou para lembrar boas histórias de Nemésio.

Arquiteto de formação, Pio não se arrepende de ter passado para o ramo gastronômico, mantendo viva a história construída pelo seu genitor. Ele sabe que a responsabilidade é grande, mas Seu Nemésio o orientou muito bem no negócio. Então o que poderia ser um peso, acabou que é um dos prazeres de sua vida. Mais do que isso, talvez seja um portal no qual ele se conecta com o pai todos os dias, ao ver o sorriso daqueles que saboreiam os pratos que Don Nemésio ajudou a fazer parte do roteiro gastronômico dos natalenses.

Espanhol e chef
Papai chegou no Brasil em 1951. Veio estudar inglês para tentar ser comissário de bordo. Se formou, mas o trajeto oferecido para ele foi Natal–Dakar, e ele não se interessou. Então foi tentar a vida aqui mesmo. Começou na agricultura, em Macaíba, plantando legumes, até que em 1954 abriu o Granada Bar e Confeitaria. Papai dominava a culinária, tinha feito curso de gastronomia na França, passou por todos os setores, barman, chefe de cozinha, maître, tinha bagagem grande em termos de serviço e culinária.

O Granada cai no gosto
A fachada do Granada era uma portinha no Rio Branco, ali na altura do IFRN. A população logo percebeu que ali se podia comer algo completamente diferente dos outros lugares da cidade, era uma comida europeia. E papai era muito carismático. O lugar acabou virando point de políticos, escritores, profissionais liberais. Ele conhecia sobre pintores e poetas espanhois, conversava bastante com os escritores  daqui, Berilo Wanderley, Veríssimo de Melo, Newton Navarro, Leopoldo Nelson, Luiz Carlos Guimarães. Esse pessoal todo ia bater papo lá. Papai criou ali uma base de clientes que até hoje o restaurante carrega.

Ostra crua e outras novidades
Papai introduziu pratos que o pessoal aqui nunca tinha visto, como a paella espanhola, língua e testículo de boi ao molho, isca de fígado acebolado. Criou um casquinho de caranguejo que fez sucesso, molhadinho por dentro e com a farofinha fina em cima. Fazia também lagosta ao vinagrete, à francesa, lula na própria tinta, ostra crua, gratinada... Como eram pratos desconhecidos, o pessoal desconfiado pedia pra ele comer primeiro. Diziam “que história é essa de ostra crua, espanhol? Tá doido! Come isso ai primeiro, se tu não morrer eu como”. Papai também foi pioneiro nos drinques, servia Bloody Mary, algo que não se via por aqui, e tinha várias marcas de vinho europeu, cervejas diferentes que ele conseguia com um distribuidor do Sul.

Visitas ilustres
No Granada papai recebeu Monteiro Lobato, Peregrino Júnior, Eneida [de Moraes]. Também recebeu a comitiva do do Duque de Edinburgo, o príncipe Phillips, marido da Rainha Elizabeth, da Inglaterra. Eles passaram por lá para ir almoçar no restaurante  Le Petit Manger (O Pequeno Comedor), que ficava na parte de trás do bar, num reservado, era onde se podia fazer uma refeição mais elaborada.

A conta de bar que rendeu um terreno em Ponta Negra
O engenheiro Roberto Freire ia todo dia no Granada Bar. Era muito amigo de papai. Uma vez ele perguntou pra papai se ele tinha vontade de ter um terreno em Ponta Negra. Papai disse que não tinha dinheiro pra isso. Então Roberto Freire colocou uma escritura no balcão e disse que toda conta era pra ser anexada na escritura, quando chegasse ao valor do terreno, ele iria com papai no cartório passar para o nome dele. Deu certo. Papai disse que foram dois anos de bebida. Fizemos a casa de veraneio lá.

Contra a Ditadura lá e cá
Na Espanha papai sofreu bastante com a Ditadura do General Franco. Então ele passou a ter pavor a qualquer tipo de ditadura e opressão. Costumava dizer que com ele “é proibido proibir”. Aqui em Natal atravessou a Ditadura Militar. Lembro de uma história que ele contou sobre o Granada ter um depósito no fundo do bar. Não tinha janela, era escuro, onde ficavam as caixas de cerveja, vinho. No tempo da Ditadura, quando os militares vinham atrás de alguém ele mandava a pessoa ir lá para o deposito e dizia para a polícia que não viu ninguém.

Vira casaca
Minha família é de origem basca, do norte da Espanha. Então papai era torcedor do Atlético de Bilbao. Mas quando morou um tempo em Madrid, pegou gosto também pelo Atlético de Madrid, que tinha a camisa vermelha e branca. Em Natal, me lembro de uma vez que ele me levou para ver um jogo no Juvenal Lamartine. Eu tinha oito anos. Ele tinha a carteirinha do América, que era o time dele aqui, também por causa das cores serem as mesma do Atlético de Bilbao. O jogo era América e ABC. Alberi deu um show! Meu pai já saiu do estádio balançado, até que conheceu Alberi pessoalmente no restaurante e então virou a casaca de vez. Mas eu nunca deixei de ser americano. Um americano cheio de amigos abcedistas.

De bar para restaurante
Depois do Granada, papai comprou um imóvel do outro lado da Rio Branco e abriu o Restaurante Nemésio, de esquina. Funcionou lá de 1975 até 1986.  A fachada foi criação dele. Chamou o arquiteto só para desenhar sua ideia. Ele queria tudo de pedra para lembrar as construções antigas da Espanha. O estabelecimento já não era mais bar, tinha serviço de bar, mas era um restaurante pra ir com a família. O cardápio era predominantemente europeu, com a maioria dos pratos espanhóis. Lembro que nessa época ele encomendava truta, vinha do sul. Eram lindas, servia numa travessa com molho de tomate. Mas pouco tempo depois ele tirou do cardápio. Ficou chateado, disse que o pessoal estava chamando as trutas dele de tainha. “Um peixe nobre daquele!”. O prédio da Rio Branco até hoje existe, é da minha irmã, mas não tem mais a mesma fachada de pedra. No lugar funciona uma sapataria agora.

Nova fase no Tirol
Aqui onde está o restaurante antes era a casa do engenheiro Hélio Varela. Papai adquiriu e demolimos para fazer esse projeto.  Chegamos no Tirol em 1986 e estamos até hoje. Eu já estava formado na época e fiz o projeto do prédio. As vigas são as mesmas de quando chegamos. Fizemos algumas pequenas mudanças só para dar uma repaginada, dar um ar moderno. Mantemos muitos pratos do começo do Nemésio, a paella às quintas e domingos, língua de boi às terças, peixe à la basca, do mesmo jeito que papai fazia, com molho verde, camarão, aspargo, ervilha, no domingo também tem tortilha espanhola.

Diplomata
Papai se dava muito bem na cidade. Era respeitado, um homem brincalhão mas que levava o trabalho bastante a sério. Foi por 30 anos cônsul da Espanha aqui em Natal. É um cargo de muita confiança. E ele tinha tanta que passou pra mim, porque depois que papai deixou de ser cônsul eu assumi o lugar dele por 15 anos.

Um lugar com alma
Eu tinha meu escritório de arquitetura, mas com o tempo papai passou a pedir muito a minha ajuda. De repente, eu estava mais no restaurante, até que em 1987 me dediquei totalmente ao Nemésio, e quando papai morreu, mais ainda. Manter tradição é algo que faço questão de fazer. Porque eu sempre confiei no que ele fazia. Então pra mim é muito uma questão de repetir o trabalho dele. Seu envolvimento com os intelectuais, seu entendimento do que é um bar, um restaurante, um lugar que tenha uma energia diferente, um lugar onde se fecha negócio, que se começa e que se termina namoro, que se comemora aniversário, enfim, um lugar com alma.





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