Minha Área: Joka Lima, o guardião dos Mestres da Vila

Publicação: 2019-09-01 00:00:00 | Comentários: 0
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Ramon Ribeiro
Repórter

“Meu nome é Joka Lima, nativo da Vila. Sou bisneto de Paku, neto de Pantufe, filho de Cafurico e Maria Foguete”, assim se apresenta João Batista de Lima, produtor cultural e proprietário da Tapiocaria da Vó, um lugarzinho de charme único na cidade e que há sete anos movimenta a Vila de Ponta Negra com gastronomia e atividades culturais.

Joka Lima expõe as bandeirinhas que enaltecem os griôs da Vila: Mestra Vó Mária, Mestre Severino, Mestre Pedro Correia, Mestre Pedro Lima e Helena de Cobrinha
Joka Lima expõe as bandeirinhas que enaltecem os griôs da Vila: Mestra Vó Mária, Mestre Severino, Mestre Pedro Correia, Mestre Pedro Lima e Helena de Cobrinha

Nascido em 1963, Joka descreve com riqueza de detalhes a Vila de sua infância, um lugar tão distante do centro de Natal que diziam estar mais para distrito de Parnamirim. Naquele tempo, luz só de lamparina, e água, só se indo pegar no cacimbão há quilômetros de distância. As principais atividades eram a pesca e a agricultura de subsistência. Se sobrasse alguma coisinha, dava pra ir vender na cidade. Pegava-se o transporte no caminhão de Virgulino, que passava de manhã, e só se retornava no final do dia. A mãe de Joka, rendeira de primeira, aproveitava para vender suas rendas e assim ajudar no sustento da família. A mãe de Joka, inclusive, é uma das mestras da Vila, conhecida por todos como Vó Maria (a Maria Foguete citada pelo filho no início do texto). Há mais de 30 anos ela e um grupo de colegas passam às tarde fazendo suas rendas de bilro na calçada onde hoje funciona a Tapiocaria. Recentemente elas se formalizaram na Associação Rendeiras da Vila. Qualquer pessoa pode ir lá conhecer esse trabalho, pode até mesmo aprender a rendar.

Voltando para a história que Joka narra nesta entrevista à TRIBUNA DO NORTE, aqui o leitor conhecerá um pouco sobre como era a vida dos pescadores, os episódios de assombração, os grupos folclóricos que se apresentavam em cima do Morro do Careca – por sinal, Morro do Estrondo, que é como os nativos mais antigos ainda hoje chamam a duna mais famosa do Brasil. Se deparar com essas histórias faz perceber que há um vácuo no que se entende sobre o bairro de Ponta Negra, um lugar geralmente apontado como cosmopolita.

Tudo bem, o lugar realmente é o mais aberto a culturas que se tem em Natal, mas é importante não esquecer que a semente do bairro, o seu marco zero, é a Vila e toda sua riqueza ancestral. Foi ali, bem antes da chegada dos veranistas, dos primeiros conjuntos habitacionais, das pousadas, dos turistas, que Ponta Negra começou.

A Vila de tempos antigos
Quando eu era criança, lembro de mamãe e outras mulheres indo de jumento com as roupas sujas, quinze dias de roupa suja, para ir lavar no Rio Jiqui. Sete quilômetros e meio de estrada. A vida não era fácil aqui. Não tinha água, luz à noite era só de lamparina. A primeira emoção da minha vida foi ver um pitoco de luz, o interruptor, depois foi ver a água sair de uma torneira.

Pavio
Nossa base alimentar era o famoso pavio. Farinha de mandioca, coco rapado e peixe assado. O coco porque a gente ia no mato, nos “cercados de doutor fulano de tal”, e pegava os cocos do chão. Na praia, ajudando a empurrar jangada, eu conseguia um peixe. E aqui na Vila tinha casa de farinha. Você chegava com a cuia e o nativo te dava um pouco. Outra coisa, como não tinha geladeira a gente tinha que salgar o peixe e botar no sol pra seca. Ai aguentava alguns dias.

Peixes
De peixe até hoje se pega carapeba, budião, saberé, carapitanga, caraúna, saramonete, além de tainhas e sardinhas. Lembro das pescarias à noite, entre as pedras por trás do Morro do Careca, com fogo e palha para encandear e fastiar os peixes. Eles ficavam imobilizados e a gente pegava com a mão e botava na lata. Na Tapiocaria, entre 40% e 50% dos peixes que comercializo sou eu mesmo que pesco. Se você for tentar pescar agora você não pesca nada. Nem de jangada você deve ir nesse tempo. Mas é porque a Capitania dos Portos não aconselha ir pro alto mar por causa do vento que está muito forte. É um período de entressafra.

Agricultura de subsistência
Sou de uma época que nos períodos de entressafra os pescadores iam plantar nos terrenos que o a Barreira do Inferno nos tomou. Era a agricultura de subsistência. Se plantava feijão, milho, batata, macaxeira, mandioca pra fazer a farinha. Aqui se vivia da pesca e da agricultura. Também caçava, principalmente pássaros e lagartos. Quando a caça era boa até vender nós vendíamos. O primeiro transporte que vi aqui foi o Caminhão de Virgulino. Era um senhor de fora que de manhã vinha com o caminhão e levava o pessoal pra ir vender goma, tapioca, peixe em Natal.

Morro do Estrondo
Os nativos conhecem o Morro do Careca como Morro do Estrondo. Antigamente era só uma carequinha. A gente escutava a queda das árvores de casa, parecia um trovão. O barulho era da queda da vegetação. Quando o pessoal ia ver de manhã o que aconteceu, via as árvores dentro da água, até animais dentro da água. A vegetação deslizava e por causa do barulho o morro ganhou esse apelido. A mudança de nome começou entre os anos 70 e 80. Foi naturalmente. Com a chegada dos conjuntos Ponta Negra, Alagamar, a praia foi deixando de ser de veranistas e passando a ser de moradores, então o nome careca pegou.

Por trás do Morro
Por trás do Morro tem várias praias, tem a de Alagamar, de Amola Machado, Caieira, Canal. Além de ir caçar no mato, eu ia pegar fruta e descer de tábua de morro. Descia duna que terminava na beira do mar, duna que emendava na outra, ficava quase um quilômetro só de duna. As dunas também tinham apelido. O que me faz chorar é lembrar  que tudo aquilo agora é proibido de andar. Muitos trilhas ali era acesso dos pescadores. E aos poucos foram aparecendo as cercas.

Encontros sob as árvores
Tinha uma árvore aqui, em frente a casa de Seu Déda, que era onde o pessoal se reunia para ler as histórias de cordel. Ficavam bebendo e lendo cordel. Aqui do lado da Tapiocaria tinha um pé de umbu-cajá, se reunia outro grupo, o pessoal ficava jogando baralho. Disputavam pedrinhas brancas do mar que ele pegavam na praia. Começavam cedo e iam até a noite. E em frente a casa de Dona Lica, que era nossa vizinha, tinha um pé de amêndoa que as rendeiras faziam renda. Era comum se reunir debaixo de árvore. Várias ruas tinham esses grupos.

Lendas
Aqui na Vila, se você for ver os com os nativos, vai ouvir muita história de assombração. Poucos andavam por aqui à noite. Só os bravos. A história do lobisomem é a mais comum. O velho Zé Nandi foi o último lobisomem. Quem diz que deu a paulada nele é Seu Armando. Diz que a paulada pegou na perna. Dias depois se vê Zé Nandi mancando. O pessoal também tinha medo das caiporas, aqui tinha muita, também chamavam de “sinhozinha flor”. Elas encantavam com o canto, um canto bonito. Depois se encontrava a pessoa morta no mato com o sangue chupado. E outra história que se conta é a da Burra do Padre. Em noite de lua crescente, os nativos não saiam com anel nem unha curta, nem um tipo de brilho. E se se você visse o vulto no mato, se dizia pra fechar o olho, porque ela via você pelo brilho.

Folclore
Aqui já desenvolvemos projetos que ajudou a formar 120 rendeiras. E também já conseguimos resgatar três grupos folclóricos que estavam extintos há mais de 35 anos: o Coco de Roda, o Boi de Reis e o Pastoril. Antigamente, nas festas da padroeira dos Pescadores o pessoal ia brinca em cima do Morro do Careca. E na festa da padroeira do bairro os grupos se reuniam em frente a igreja. Vinha até grupo de Canguaretama, Pirangi e Macaíba. O folclore era o nosso teatro aqui, nossa diversão, porque terminava sempre em forró, aparecia um sanfoneiro. Hoje, se você andar por ai vai ver que as nossas referências são Dona Helena, tem minha mãe [Vó Maria], tem Dona Zefinha, mestras rendeiras que seguram essa tradição. Tem também mestre Sebastião Matias, Mestre Pedro Correia, Mestre Pedro Lima, Mestre Severino. Temos muitos pescadores também que ainda mantém a tradição. A Vila pra mim é a minha escola. Foi onde eu aprendi tudo. Devo muito às pessoas desse bairro. Sou feliz e pretendo morrer aqui.




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