Minha Área: Na era de ouro dos fliperamas

Publicação: 2019-08-11 00:00:00 | Comentários: 0
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Ramon Ribeiro
Repórter

A primeira vez que o professor Abrahão Lopes tomou conhecimento de uma locadora de videogame foi quando ele tinha seus sete anos, morava em Ceará-Mirim e dava uma volta pela festa da padroeira da cidade. Em meio à barracas que vendiam de tudo, ele bateu os olhos em duas tvs ligadas. Soube na hora reconhecer do que se tratava. Era meados dos anos 80 e o que tinha de mais moderno na época em se tratando de videogame, pelo menos em Ceará-Mirim, eram o Atari e o Odyssey. Abrahão pirou!
Abrahão Lopes, professor e pesquisador
Abrahão Lopes, professor e pesquisador

A lembrança desse dia, tão viva em sua mente, está no livro “Memorial: Locadoras & Fliperamas”, registro de uma época de ouro dos jogos eletrônicos no Rio Grande do Norte. Escrito por Abrahão e com a colaboração de dezenas de nostálgicos gamers, a obra conta a história de inúmeras locadoras nas cidades de Natal, Mossoró e Ceará-Mirim – lugares onde o autor morou –, e compreende um período que vai dos anos 80 até os anos 2000. O livro será lançado oficialmente no dia 25 de agosto, durante o 2º Festival Cultural Geek, na Faculdade Pitágoras, em Mossoró.

Nesta entrevista, Abrahão recorda algumas locadoras que marcaram sua infância e adolescência. Detalha um tempo em que as locadoras de videogame eram um dos principais espaços de encontro da juventude, uma juventude que tinha diante de si um mundo que se modernizava cada vez mais rapidamente. Uma juventude que nesses espaços, tanto faz se locadoras ou fliperamas, podia ser quem quiser, desde um “ouriço corredor, um encanador italiano saltador, uma arqueóloga poderosa ou um super-herói”, como escreveu no prefácio o historiador Ítalo Chianca, outro potiguar aficionado por games, referência para o trabalho de Abrahão.

Sobre o livro

Falo de fliperamas desde aqueles que ficavam em rodoviária, até aqueles de shopping. Com relação às locadoras, o formato era o mais conhecido: a loja montada na casa de alguém, com poucos aparelhos. Na primeira parte do livro estão histórias contadas por mim. Mas além de mim tem pelo menos outras 40 pessoas que responderam um questionário que fiz nas redes sociais e, a partir das respostas, montei os textos da segunda parte do livro.

Entre doces e Atari

Tem histórias curiosas no livro, como a de um cara que começou com uma cigarreira [Seu Neilton], no Alecrim. Ele tinha um Atari e passou a dar de brinde partidas no videogame para quem comprava doces e chocolates  com ele. Em pouco tempo percebeu que o pessoal estava mais interessado no videogame. Então passou a investir nisso, mudando o foco do seu negócio.

Em Mossoró

Das locadoras profissionais, lembro de uma em Mossoró que foi pioneira, modelo pra muita gente. Era a Hot Game, começou já pensando em ser grande, comprando consoles e cartuchos e revendendo para as pequenas locadoras de bairro. Tinha tudo top. O que era lançado no mundo ela fazia questão de trazer pra ser a primeira a ter em Mossoró. Quando começou a pirataria desmanchou a loja e mudou de ramo. Em Mossoró também tinha um proprietário dono da maior locadora de filmes da cidade, vendo o sucesso dos games, resolveu criar um negócio de games. Contratou arquiteto, fez um ambiente climatizado, com móveis projetados, equipamentos top da época.

Anos dourados

A época de ouro das locadoras foi no tempo do Super Nintendo e Mega Drive. Foi quando se alugava os jogos pra passar o fim de semana. Quando chegou o Playstation ficou bem durante um tempo, mas quando a tecnologia barateou, o pessoal passou a ter seus games em casa e comprar jogos piratas.

Museu do videogame

O museu do videogame foi um projeto de 2012. O blog ainda está online, mas o projeto está encerrado. Eu comecei colecionando alguns consoles. Ficava tudo em casa. Achei interessante mostrar para as pessoas. Comecei dentro da escola. Recebia doação de aparelhos das pessoas, também comprei alguns para uso pessoal. Fiz exposições. Cedi equipamentos para outros que faziam trabalhos. Participei de programas de tv. Chegou um tempo que não tinha mais espaço pra guardar, guardei na casa de um amigo. Quando fui ver o material, vi que deu cupim. Teria que mandar para São Paulo para ajeitar. Era caro. Perdi muita coisa. Me desanimei. Então deixei pra lá.

Simples ou complexos

Hoje em dia os jogos estão muito realistas. Mas sempre sai jogos com gráficos mais simples, relembrando só sucessos do passado. São os jogos indie, com gráficos do Super Nintendo e mega Drive. Hoje tem jogo para todo tipo de jogador. Aqueles complexos, que se leva dez horas só pra se aprender os comandos, como o Monster Hunter World, um jogo muito difícil de aprender, da Capcom. Mas também tem aqueles jogos simples, que se joga apenas com um botão. Depende do que o desenvolvedor quer passar.

Sem proximidade

Com relação ao que se perdeu daquela época de ouro, acho que foi a proximidade que se tinha com outras pessoas. Você encontrar os amigos na locadora, conversar. Hoje em dia tem os jogos online, até mesmo no celular, onde se pode jogar com alguém do outro lado do mundo. Mas não tem a presença. Apesar da tecnologia ter ajudado agrupar pessoas com interesse comum, em grupos de Facebook e WhatsApp, por exemplo, não podemos esquecer que é tudo virtual.

Jogos

Outa coisa que existia antes é que a gente valorizava cada novo jogo que era lançado. Esperava-se na fila pra jogar. Reservava-se com bastante antecedência pra alugar. Tudo isso se perdeu com os jogos digitais, porque não existe mais limite de cópias. Qualquer hora o jogo está disponível pra você comprar. E tem um oferta muito grande. Há jogos baratos. Tem gente que compra muito mais coisa que se pode jogar. Lembro que naquele tempo você ganhava um jogo por ano. Ou no aniversário ou Natal. Passava o ano inteiro com o mesmo jogo. Quando enjoava trocava com o amigo.

Motivação do livro

Sou professor do IFRN Mossoró, ensino programação. Num trabalho propus de fazermos  um programa de controle de uma locadora fictícia, para saída e devolução de jogos. Nisso percebi que os alunos não sabiam o que era uma locadora. Isso me motivou a fazer o livro, para mostrar para as novas gerações. Tenho uma menina de 7 anos e um menino de 4, e o negócio deles é celular. Também tem essa coisa de se estar vivendo uma época de nostalgia, onde tem retornado muitas coisas dos anos 80 e 90, não só ligado à games, mas ao cinema e aos quadrinhos.

Um potiguar pioneiro

Outra motivação foram os livros do Ítalo Chianca, um rapaz de São José do Seridó. Ele estudava na UFRN e fez a monografia contando as histórias das locadoras de sua cidade. Depois começou a escrever outros materiais, inclusive livros, sobre jogos e locadoras. Hoje escreve para alguns sites, como o “Jogo Véio”, também tem um podcast de mesmo nome. Li esse material todo dele. E fui atrás de contar as minhas histórias.


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