Minha Área: Paisagens que marcam a vida de César Revoredo

Publicação: 2019-09-08 00:00:00 | Comentários: 0
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Tádzio França
Repórter

Toda manhã do dia 16 de novembro, o artista plástico e produtor César Revoredo revive a história do seu primeiro encontro com um dos prédios antigos mais bonitos de Natal: a Maternidade Januário Cicco. A mãe nunca o deixa esquecer – e ele adora ouvir a história todo ano. A relação com o prédio não é só afetiva, mas também estética. Uma bela coincidência para quem dedica 42 anos de vida às artes, tanto na produção própria (é desenhista, escultor, pintor, tapeceiro, cenógrafo – e jornalista), mas também na área comercial, já que há sete anos ele cuida da produção local da Casa Cor, maior mostra de design, arquitetura e paisagismo do país.

César Revoredo, artista
César Revoredo, artista

Prestes a fazer 60 anos, César considera que está no melhor momento de sua carreira. “Estou fazendo a minha arte pela arte, pelo que eu quero. Se você gosta, você leva.  E se não gosta, deixa pra mim que eu tô super feliz com ela também”, diz ele, mesmo sabendo que este é um terreno difícil de ser trabalhado por aqui. Mas a estrada foi a longa. Já fez muitas exposições pela cidade, pelo estado, dentro e fora do Brasil, como Alemanha, Estados Unidos, Letônia, Portugal, e Espanha. Também há esculturas suas adornado o Hospital do Coração, o prédio Jardim do Alto, na Afonso Pena, a Arena das Dunas, e a TV Cabugi.    

A parceria com a Casa Cor também provoca um prazer extra ao promover o desafio de ocupar um prédio antigo e restaurá-lo para o uso do evento. É um complemento do olhar carinhoso e reverente que César tem com o patrimônio histórico e arquitetônico da cidade – e cuja preservação deixa a indesejar, infelizmente. Outra lugar que fascina o jornalista e artista é o Parque das Dunas, para ele, o lugar mais bonito e sublime de Natal. Uma obra de deixar qualquer paisagista de boca aberta. “Eu brinco que é o meu quintal”, diz ele, que eventualmente recebe visitas da flora local. Arte e natureza são composições naturais nas áreas de Revoredo. Para todo mundo ver. 

Arte da vida
O primeiro dinheiro que ganhei em minha vida foi com obra de arte, e a vida toda eu elegi a arte como a minha forma realmente de viver, de olhar o mundo, e ao longo desses anos o trabalho tem se modificado constantemente, se adaptado ao monte de necessidades e curiosidades que eu desenvolvi. Passei da tinta sobre tela aos materiais mais variados possíveis, como papel, vidro, ferro, luz, tudo aquilo com alguma possibilidade construtiva.

Paixão pela arquitetura
Eu acredito que a arquitetura é a forma mais bem acabada de definir o ser humano. Nada consegue retratar melhor. Se de repente a vida acabasse no planeta e viesse uma civilização alienígena pra cá, eles facilmente  identificariam como era a vida dos habitantes humanos de todas essas regiões, porque a arquitetura define todas as necessidades humanas, das mais elementares às  biológicas, até as mais sofisticadas. O morar, trabalhar, conviver, se divertir, tudo passa pela arquitetura, e obviamente, como complemento, resultado e necessidade básica dela, a arte entra para complementar. Então o meu interesse pela arquitetura foi um desdobramento natural. Até como a minha parte jornalista, eu terminei me dedicando muito ao estudo da arquitetura, e basicamente da cidade do Natal.  Minha ligação afetiva com o mundo é muito atrelada à natureza, mas ela tem um olhar muito especial pelo que a gente constrói.

A Maternidade Januário Cicco também é um lugar com forte relação sentimental e estilística para César Revoredo

Maternidade Januário Cicco
Todos os anos no dia 16 de novembro, quando a manhã chega, eu sou acordado pelo primeiro telefonema que é o da minha mãe contando como é que foi o meu nascimento. Ela não deixa passar um! Todos os anos eu ouço a mesma história de como eu nasci no quarto Orquídea. E como foi o parto, a felicidade do meu pai que quase  me pega no lugar das enfermeiras, etc., e ela conta isso com uma riqueza de detalhes que eu me divirto sempre, vou repetindo com ela e todo mundo se diverte junto, porque termina sendo uma coisa engraçada da família. Então tem uma ligação não somente afetiva, mas também  estética e estilística, porque é um prédio lindo, preservado. Ele está lindo, e ele traz uma história linda, porque Januário foi um homem espetacular, de uma visão fantástica. O prédio tem um balanço de traços arquitetônicos, é eclético,  a tradução muito linda de um momento arquitetônico da época em que foi criado. É um lugar cheio de referência, um lugar cheio de amor.

O som das Dunas
O lugar de Natal que eu mais amo, com certeza, é o Parque das Dunas. Moro do lado dele, brinco que é o meu quintal. Acho que não tem presente melhor do que a farra que a gangue de aratacas faz nas minhas árvores de casa.  Acho que não tem nada mais prazeroso no mundo do que ouvir aquilo. Os sabiás, as rolinhas, os bem-te-vis que se banham na piscina do atelier, enfim, eu acho que o Parque das Dunas é realmente o meu lugar. O mais lindo que eu vejo aqui. Não tem coisa mais linda que a luz às dez horas da manhã numa manhã de dezembro no Parque das Dunas. Nada é tão sublime quanto aquilo. Já recebi as visitas de uma aranha carangueira dentro de casa e até de cobras no jardim. Tudo isso a gente tem que cuidar e levar de volta pro parque.

Casa Cor
Uma relação supernatural. Eu sempre tive esse contato íntimo com a arquitetura, e eles necessitam de alguém que tenha um trânsito fácil não só na área de arquitetura, mas também um trânsito social que eu já tinha por causa das artes. Já trabalhei com eles em Alagoas e também continuo na Paraíba. O evento carece aí de alguns itens que são fundamentais, sem eles muita gente não consegue trabalhar.   Pra isso  a gente precisa de um lugar que tenha uma grande mobilidade de trânsito e estacionamento. E aí a gente começa a pensar naquelas edificações que traduzam pra cidade, que tenham alguma ligação afetiva, histórica ou estilística estética, enfim, que tenha ali alguma coisa que remeta e que traga uma sensação bacana  pra população.

Prédios que marcaram
Eu acredito que a fábrica onde a gente colocou a primeira edição da Casa Cor (a Sams) foi um desafio muito grande. Recuperar aquele painel de Aercio, colocar toda aquela estrutura, aquilo que aparentemente era uma situação até incômoda de ver pela degradação, a gente recuperar aquilo e colocar de volta à paisagem urbana da cidade, foi muito prazeroso e desafiador. Foi um evento grandioso, o maior que eu já fiz até hoje, em termos de quantidade de espaço. Esse foi o mais difícil. Mas como prazer de recuperação, eu acho que o próprio Aeroclube traduz mais isso, porque é um prédio que tem a ver com a história da cidade, com a sensação de alegria da cidade, os grandes acontecimentos estiveram aqui.

Revitalizações incompletas
Basicamente, a preservação não só do patrimônio arquitetônico, a preservação da natureza, das relações, da vida, tudo é basicamente uma questão de educação. Não é só a preservação da Ribeira e Cidade Alta, ao contrário do que a gente imagina, mesmo os elementos mais modernos da cidade, aquele que por exemplo o legado do Oscar Niemeyer, que é uma coisa tão recente, um presente que a cidade recebeu, que está praticamente entregue às moscas.  O Hotel Reis Magos é um caso clássico da falta de compromisso com o bem local. Não houve o cuidado de há 25 ou 30 anos ter entregado e protegido o lugar com leis severas, seguras, claras, com motivação, com benefícios para a preservação. Coisas que não foram feitas não apenas em relação ao Hotel, mas em relação em tudo. Uma edificação que chegou a um estado irrecuperável, e que vai ter agora que ir pro lixo, infelizmente.  Não tem como preservar uma coisa que já é lixo, irrecuperável. Que sirva de lição pra gente, que envergonhe a gente, que não aconteça com outros bens. Infelizmente vai ter que ir pro chão, por causa da nossa falta de responsabilidade.

Artes que dão prazer
Durante toda a minha vida profissional eu ouvia muito isso, “ah, deve ser um prazer trabalhar com arte”, e eu sempre respondia, “é um prazer pra você que olha,  porque eu que tenho que pagar as contas no fim do mês, vender o produto mais difícil do mundo na esquina do Brasil realmente não é fácil, é uma coisa complicada”.    O trabalho tem um misto de prazer, de responsabilidade, de realização, mas ele tem um compromisso muito grande com a sobrevivência. Nesse momento que eu vivo, posso dizer que é o mais bacana da minha arte. Eu recebo tanto, sou um homem tão realizado que me sinto também na obrigação de devolver a lugares públicos, de presentear instituições, presentear lugares com o meu trabalho.




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