Minha Área: pescador de poesia e sonhos

Publicação: 2018-06-03 00:00:00 | Comentários: 0
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Ramon Ribeiro
Repórter

Mais do que estar em casa, em Baía Formosa Zé Maria está em comunhão com a natureza - algo fundamental na vida dele. Criado no mar e na mata, ele se sustentou por anos da pesca artesanal e do turismo ecológico. Mas hoje, aos 32 anos, ator em cinco filmes e cantor com música emplacada na novela das nove, Zé Maria mostra encontrar bem mais que peixes e roteiros de aventura no litoral paradisíaco em que cresceu. Mostra encontrar boas inspirações artísticas.

Zé Maria Pescador fala sobre sua área
Zé Maria Pescador fala sobre sua área

Foram essas inspirações que levaram Zé Maria a compor o disco “Pescador” (2017), cuja direção é de Ney Matogrosso, e de onde saiu a faixa “Por Amor”, tema dos encontros entre a vilão Laureta (Adriana Esteves) e de seu comparsa Roberval (Fabrício Boliveira), da novela Segundo Sol. A música fala de uma paixão ensolarada. Mas quem ouvir o disco “Pescador” inteiro vai perceber nas outras faixas referências as suas raízes em Baía Formosa. “Mar, vento, mata, sol, pássaros. Nas minhas músicas tem tudo isso porque na minha vida inteira essas coisas estiveram perto de mim”, diz Zé Maria por telefone, lá de sua cidade.

Nesta entrevista para a TRIBUNA DO NORTE, ele revela um pouco mais da sua relação com Baía Formosa, narrando experiências vividas em alto mar e na Mata Estrela, maior reserva de Mata Atlântica preservada do RN. “O mar apareceu na minha vida como um pai e um professor. E a floresta eu passei a conviver por causa da minha grande curiosidade em conhecer a fauna e flora da região, de entender aquilo para poder preservar”, comenta.

Zé Maria também lembra de um dos maiores acontecimentos que a população baía-formosense já vivenciou: a produção do filme “Sonhos de Peixe” (2006), do diretor russo Kirill Mikhanovsky. O trabalhou lançou o pescador Zé Maria como ator, quando ele tinha 18 anos. O longa não só rendeu ao potiguar sua primeira viagem para fora do estado, logo para Cannes, onde ele acompanhou a sessão de estreia do filme no concorrido festival europeu, como abriu as portas para que viesse a atuar em outras produções, por exemplo, “Açúcar” (2017), de Renata Pinheiro e Sérgio Oliveira, e “Sol Alegria”, de Tavinho Teixeira, com previsão de lançamento para este ano. Foi durante as filmagens deste filme que Zé Maria conheceu Ney Matogrosso, seu padrinho na música.

A vocação para o mar

Eu nunca fui muito de brincar na rua. Bem novo eu senti a necessidade de ajudar em casa. Mãe doméstica, pai operário da usina, eu queria contribuir com um dinheirinho. Mas a ordem do meu pai era pra que eu só estudasse. Um dia fugi de casa pra (praia de) Bacopari, onde ficavam os pescadores. Eu tinha uns 13 anos. Fui decidido a sair pro mar com os pescadores. Na época o pessoal usava jangada. Eu cresci no mar, adorava aquele universo da pesca. No outro dia voltei pra casa com peixe e dinheiro. Levei uma surra do meu pai.

A confiança do pai

Cioba, cavala, serra, dourado, albacora, lagosta, frutos do mar. Tudo a gente pescava no mar daqui. Eu estudava muito a pesca artesanal. Aprendia rápido. Um dia resolvi mestrar um barco, coisa que pode levar anos para se aprender. mas quis me aventurar. Chamei um amigo que nunca tinha ido pro alto mar. Foi a melhor pescaria da minha vida. Quando estava voltando pra terra vi o pessoal todo na areia com aquela cara de preocupação. Mas como viram que deu tudo certo, eles reconheceram que eu tinha técnica. Dai eu prometi para o meu pai que conseguiria estudar e pescar. Ele continuou sendo contra. Só quando ele adoeceu, e viu que eu ajudei a segurar a onda lá de casa com a pesca, que ele compreendeu o meu sonho e passou a aceitar.

Natal em águas profundas

O maior perigo pra gente que faz pesca artesanal, além da tempestade, é a aparição de um navio. À noite eles só vêem os barcos pequenos quando já estão muito em cima, e nem sempre dá tempo pra sair do caminho. Teve uma véspera de Natal que eu resolvi ir pro mar com um pescador antigo. Nenhum outro barco iria. Teve um momento que eu fui dormir e o outro pescador ficou na proa monitorando o movimento. Ele cochilou. Foi acordar no susto com um navio já perto da gente. Não tinha outra coisa a fazer a não ser pegar umas tampas de isopor pra ter no que se apoiar caso caíssemos no mar e começar a rezar. O navio passou raspando na gente. Só fez espirrar água. Era um cruzeiro. Ainda ouvimos um pedaço do show do Zezé de Camargo e Luciano que estava acontecendo lá dentro. Mas antes desse episódio, em 1999, teve um acidente trágico com navio em Baia Formosa. dois homens morreram e um terceiro escapou. Precisou nadar mais de duas horas para encontrar outro barco.

Os segredos da floresta

Eu sempre fui muito curioso. Gostava de andar com os mais velhos, gente que conhecia a mata da região. Eu andava com caçadores para aprender a técnica deles. Já dormi no mato, cheguei a passar três noites acampado, já quase me perdi. Assim como no mar, é quando chega a noite que se sente as coisas estranhas. No mar se tem miragem às vezes. Na mata o que assusta mesmo são os barulhos. Se ouve de tudo. Mas com o tempo você aprende a conviver com o ambiente. Nossa floresta aqui sofreu muito. É a maior reserva de Mata Atlântica sobre duna do estado e hoje acho que não temos 10% do tamanho original dela. Mas não duvido que a natureza tenha força de reagir. Trabalhei muito como guia de estudantes universitários e grupos de ecoturismo. A pesca e o turismo ecológico são duas atividades que sempre me manteram. O mar e a mata estão em mim.

Mais que um filme

“Sonhos de Peixe” movimentou toda a cidade. Foi o maior evento que a cidade viu em sua história. Chegaram caminhões de equipamento, o pessoal alugou casas e carros pra equipe de produção. Virou uma festa e toda a população se doou para esse filme. O diretor usou os próprios moradores em cena. Só três atores não eram da cidade. Esse filme marcou Baía Formosa. Pra você ter uma ideia, até hoje as pessoas me chamam de Jusci nas ruas, que é o diminutivo de Juscilei, meu personagem no filme. Depois que lancei o disco mudou. Agora me chamam de “Jusci, O Cantor”, ou apenas “O artista”.

Ventos musicais

Tenho um tio analfabeto que pesca no mangue. Lembro que quando eu era mais novo ele chegou lá em casa com um disco gravado com músicas dele. Eu fiquei fascinado com aquilo. Mas a música entrou na minha vida pra valer, há pouco mais de cinco anos. Eu tocava bateria na banda da igreja. Só que os meus olhos brilhavam mesmo era pelas cordas. Um dia consegui um violão emprestado e me tranquei em casa para praticar. Quando batia uma dúvida ia atrás de quem já tocava para me ensinar. De repente, já estava encontrando os tons, as notas, tudo sozinho. Foi quando comecei a compor. Então, em 2017, o Ney (Matogrosso) apareceu por aqui. A pousada onde ele estava hospedado preparou um jantar bacana em sua homenagem. Eu toquei uma música do Cazuza e também mostrei uma canção minha. Depois de uns dias o Ney me liga do Rio de Janeiro e me pergunta se eu quero gravar um disco.

Outras ondas

Já brinquei de prancha de morro, fiz capoeira, mas surfar nunca foi a minha praia. Então nem aproveito muito as ondas daqui. Mas conheço um pouco o pessoal que surfa. Lembro do Ítalo (Ferreira) pequeno surfando com tampa de isopor. Foi surfar fora daqui cedo. Quando menos esperávamos, lá estava ele disputando o mundial. Todo mundo sentiu orgulho. Fiz um show aqui em que ele apareceu. Acompanho e torço pra ele.

Inspiração nas falésias

A minha vida no mar, a mata, a cidade, as pessoas. Quando eu componho não tem como Baía Formosa não ser inspiração. Esta lugar aqui está muito no disco. Vou dar um exemplo. A música “Dois passarinhos”, a inspiração veio quando eu estava lá em Barreirinhas, uma pequena falésia daqui. Eu gosto de caminhar por ali de manhã. Um dia me sentei na falésia e apareceram dois pássaros. Ficaram planando na minha frente, sem sair do lugar, sem bater as asas. Me olhando. Não esqueci essa cena. Eu já andava com a melodia na cabeça, então veio a letra. “Dois passarinhos, que não sabem voar, longe do ninho, sem ter onde pousar”.


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