Guaraci Gabriel: quando a arte faz a paisagem parecer pequena

Publicação: 2019-11-10 00:00:00 | Comentários: 0
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Ramon Ribeiro
Repórter

Na década de 60, criança inquieta, sem fazer a mínima ideia do que o futuro reservava pra ele, Guaraci Gabriel esculpia o sexo dos bichos. Ia pra beira do Riacho do Feijão, no município de São Pedro do Potengi, onde nasceu, e esculpia na terracota cavalo comendo égua, boi comendo vaca, fazia e deixava lá, de propósito, só para ver a reação das louceiras – todas beatas da igreja –, quando desciam para o riacho para produzir suas cerâmicas. Mais velho, explorando seu bau da memória, ele reconheceria nesse episódio sua primeira percepção de que a arte pode ser provocadora, um conceito que ele sempre carregou em sua trajetória artística.

Do Riacho do Feijão, Guaraci tirou o gosto pela escultura, mas trocou a terracota pelo aço. Não qualquer aço, apenas o de reúso. Os ferro-velhos e sucatas se tornaram seu solo fértil, e de lá ergueu obras fortes e questionadoras para instalar em lugares únicos. Em Natal, poucos são os lugares tão únicos quanto a Via Costeira, passagem entre duna  e mar onde se encontra uma das mais belas vistas da cidade. Mas enquanto todos viam a vista, Guaraci viu naquele espaço sua galeria à céu aberto. Na via costeira instalou três de suas obras mais lembradas: “Crucifixo Coação em Cristo de Escape” (1996), “Guerra e Paz” (1998) e “Pé de Mangue – a incerteza incerta” (2016). Foi quando a arte fez a paisagem parecer pequena.
Guaraci Gabriel, artista e escultor
Por trás desses trabalhos há muita história. Nesta entrevista, Guaraci conta algumas. Lembra a infância em São Pedro do Potengi, o tempo em que integrou o coletivo Oxente – uma dos mais instigantes grupos de artistas visuais de Natal –, fala das suas esculturas na via costeira, claro, e dos novos projetos, inclusive um que acabou de render prêmio Viena, na Áustria.


Terracota no Feijão
Nasci na Lagoa do Feijão, em São Pedro do Potengi, em 1961. Uma das lembranças boas que tenho é a de descer para o riacho e ficar fazendo escultura de animais na terracota. Era bicho fazendo sexo. Fazia para provocar as beatas que faziam louça, porque ela ia me enredar pra mamãe quando eu levantava o vestido delas. Mas eu levantava só para ver o movimento do tecido. Mas, então, com raiva, eu fazia esse animais transando e deixava lá onde elas iam trabalhar. Ficava escondido só pra ver a reação delas. E via que elas ficavam todas na sacanagem. Ai ia contar tudo pra mamãe, que de beatas elas não tinham nada. Eu tinha menos de 10 anos, não tinha consciência nenhuma do que significava aquilo, mas inconscientemente, ali foi primeira percepção que tive de que a arte podia ser provocadora.

Thomé Filgueira

Eu cheguei em Natal na década de 70, tinha 19 anos. Estudei no Colégio Agrícola, onde tive minhas primeiras aulas de arte. Depois fui para a ETFERN, quando tive aulas com Thomé [Filgueira] e Farias, professores de arte. Era uma época em que eu só pintava, e na tela eu jogava toda a minha rebeldia. Todo final de ano tinha uma feira de arte e eu até que vendia bem. Mas minha revolta mesmo foi quando tente fazer o curso de Artes Visuais na UFRN e não passei na prova de aptidão.

A ousadia do Oxente

Não passei na UFRN mas me encontrei com o grupo Oxente. Éramos eu, Civone Medeiros, Sayonara Pinheiro e Cícero Cunha, mas como era algo aberto, outros artistas também passaram pelo grupo. Fazíamos escultura, performances, instalações... Era Arte Contemporânea. Nosso trabalho mais importante foi o “Mexonada”, quando ocupamos o prédio abandonado do Solar Galvão, em frente a Capitania das Artes, com  uma exposição. Ninguém fazia isso aqui em Natal. Mas realizamos muitos outros trabalhos importantes, como o “A luz civil”, com 10 m² de espelho no calçadão da rua João Pessoa. Também fizemos uma grande exposição no Solar Bela Vista, mas só durou uma noite, porque na manhã seguinte à abertura a direção do órgão pediu para que tirássemos os trabalhos do lugar. Disseram que aquilo não era arte. Então levamos os trabalhos para o calçadão da rua João Pessoa, no Centro. Foi quando deu mais gente, mais imprensa, mais TV... e polícia.

Berço esplêndido

Na rua João Pessoa eu montei uma instalação composta por um colchão com lençol preto, um manequim de loja enrolado com lençol branco em cima, deitado com a cabeça sobre a bandeira do Brasil dobrada como se fosse um travesseiro. O título era “Berço esplêndido”. Os policiais chegaram perguntando de quem era o trabalho, no primeiro momento eu me escondi, mas depois vi que era desnecessário, porque eu queria dizer com o trabalho que as coisas estavam acontecendo e o povo estava dormindo, que era preciso acordar para reagir. Assumi o trabalho e me deram voz de prisão. Tudo bem, mas se eu vou preso, meu trabalho tem que vir junto porque é a prova do crime. As viaturas eram uns opalas de teto solar. Botaram o colchão no carro. Eles me levam direto pro xadrez. Sayonara que conseguiu me tirar de lá, falou com o pai dela, vereador na época, e ele ajudou na soltura.

Cristo crucificado

Quando o grupo Oxente se desfaz, eu me solto. Faço o “Crucifixo Coação em Cristo de Escape” na Via Costeira, meu primeiro trabalho com sucata. Era um cristo crucificado feito de cano de escape de carro. Foi uma crítica àqueles que usavam Cristo como escape diante do cenário político, social e econômico que vivíamos. E assim como quando cristo morreu do lado de dois ladrões, coloquei em cada lado uma brasília crucificada, o carro, mas em referência à capital do país. Estava questionando também os lados da política, a esquerda e a direita. Alguns não entenderam muito bem. Para esses, eu falava apenas “tudo bem, pra você é apenas um trabalho sobre acidentes de carro”. Essa obra me deu projeção nacional.

Recorde Guinnes

O “Crucifixo Coação em Cristo de Escape” teve 12 metros. Mas quis ir além. Então fiz “Guerra e Paz”, com o dobro do tamanho e pesando 50 toneladas, e também na Via Costeira. O jornalista Nelson Patriota dá a dica e o trabalho acaba sendo registrado no Record Guinnes. Como a maior obra de arte feita com material reciclado. Foi algo muito difícil de fazer. Civone Medeiros foi minha produtora, a gente tentou patrocínio com o governo, tudo em vão. Ela pediu um empréstimo grande, ficou com o nome sujo, mas realizamos nosso sonho.

Patrocínio para destruir

Quatro meses depois do “Guerra e Paz”, perto da inauguração do Hotel Barreira Roxa, os arquitetos do hotel pedem para o governo para tirar a obra. Acharam feia. Eu expliquei que não podia tirar a obra agora porque tinha um contrato com a empresa que me forneceu os materiais e os equipamentos. Conclusão: o governo, que negou dinheiro para levantar a obra, agora dava um valor seis vezes maior para a empresa dos equipamentos desmontar a obra. Fiquei puto.

Reflexo na carniça

Fui atrás de fazer uma exposição no Palácio da Cultura [Pinacoteca] com o pretexto de contar os bastidores da construção de “Guerra e Paz”. Me deram a melhor sala. Na montagem, fiquei esperando a troca dos guardas para entrar escondido com a verdadeira obra. No dia da vernissage eu estava vestido de Calígula, tomando uma na escadaria do Palácio enquanto dois guardas romanos me protegiam. Não permiti a entrada de nenhum amigo, só as autoridades. Fiquei lá de cima vendo o pessoal abrir a porta da sala. Encontraram um cavalo em estado de putrefação, a sala toda tomada pelo fedor e um chão de espelhos para as autoridades se verem refletidas na carniça. No meio desse mal-estar, liberei a entrada dos amigos na sala do coquetel.

O caranguejo tatuado

A terceira obra que levei para a Via Costeira foi “Pé de Mangue – a incerteza incerta”, o caranguejo de sucata. Fiz esse trabalho para debater a situação dos mangues. Foi montado primeiro na frente da Pinacoteca. Deixei ele com as patas bem abertas, armadas, mostrando que ninguém ia fazer mal a cultura. Poucos dias depois a obra foi pichada. Fiquei surpreso, ainda mais descobrindo quem fez, um conhecido meu. Mas tudo bem, o caranguejo não atravessaria o urbano sem levar uma tatuagem para o mangue.  No fim a pichação chamou ainda mais atenção para o trabalho.

Prêmio na Áustria

Há poucas semanas estive participando de um festival de arte brasileira em Viena, na Áustria, onde sai entre os dez premiados. Apresentei uma intervenção com QR Code, chamada “Museu Nacional Vive”, onde o público via pelo celular minha mais nova escultura, a índia Cantofa e sua filha no colo. Essa escultura faz parte de uma nova série de trabalhos que dialogam com o ambiente em que estão. Já instalei uma marisqueira e um pescador na cidade de Porto do Mangue, e em breve instalarei essa índia em Portalegre, porque faz parte da lenda da cidade.

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